ESTREIAS DA SEMANA ? NOS CINEMAS E NO STREAMING
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ESTREIAS DA SEMANA – NOS CINEMAS E NO STREAMING
A noiva!
O filme mais original (e radical) do ano, também o que mais dividiu o público, continua em cartaz nos cinemas, infelizmente registrando pouca bilheteria: dos US$ 80 milhões de orçamento, faturou no mundo, até agora, em três semanas de estreia, US$ 23 mi. Isto demonstra que é forte candidato a se tornar cult (até pela história que mistura temas e gêneros). Em seu terceiro trabalho como diretora e roteirista, a atriz indicada ao Oscar Maggie Gyllenhaal, irmã de Jake Gyllenhaal, realiza uma obra ousada, complexa e multifacetada, aproveitando a ideia central de “Frankenstein”, de Mary Shelley, publicado em 1818, e do filme “A noiva de Frankenstein” (1935). Com as duas ideias centrais nas mãos, ela mistura, pelos meus cálculos, sete gêneros: drama, terror, ficção científica, romance, musical, comédia e ação, criando uma experiência cinematográfica tão inusitada quanto provocadora. Maggie transfere o teor gótica britânica de Frankenstein original para a Chicago da década de 30, durante a Lei Seca, na era dos gângsteres. Em meio ao submundo dos bares clandestinos, uma mulher culta, feminista e com ideias visionárias, Ida (Jessie Buckley), envolve-se em uma briga; ela é empurrada da escada por um grupo de homens e morre. Dias depois, Frank (Christian Bale), uma criatura monstruosa que andarilha pela sociedade como um humano qualquer, procura uma cientista, Dra. Euphronious (Annette Bening), para ajudá-lo a encontrar uma companheira perfeita, para liquidar com sua solidão. Depois de muito pensar, aceita a missão: juntos retiram Ida da cova, no cemitério, e a levam para o laboratório. Ressuscitam a mulher, que se transforma aparentemente na noiva ideal. No entanto, ela não aceita o destino que lhe foi imposto e inicia uma jornada de libertação, questionando tanto sua condição de criatura quanto as amarras sociais que a cercam. Frank e Ida encaram um romance alucinante, envolvem-se em crimes e passam parte do tempo fugindo da polícia. Jessie é um show de cena, recém-ganhadora do Oscar por “Hamnet: A vida antes de Hamlet” (2025), e Bale também, num filme autoral que homenageia o cinema gângster e o cinema musical – há vários momentos com musicais clássicos, já que Frank adora ver filmes desse gênero no cinema, interpretados pelo seu astro favorito, Ronnie Reed (papel de Jake Gyllenhaal). Há uma combinação de gêneros difíceis de serem colocados juntos, por isso o risco e a divisão do público em seguir a estrondosa trama. Eu gostei do caos ali apresentado, um filme que bebe na fonte dos clássicos de terror da Universal de James Whale “Frankenstein” e “A noiva de Frankenstein”, com ecos de “Metrópolis” e também, pasmem, “Bonnie & Clyde – Uma rajada de balas” – em determinado momento a dupla monstruosa cometem crimes pelas estradas, como os dois bandidos reais do filme citado. O terror e a ficção científica proporcionam o tom sombrio da narrativa, enquanto o drama expõe as tensões de gênero e poder, e o musical surge como alívio e humor. Um viés existencial aparece quando a criadora de Frankenstein, Mary Shelley, pulsa no coração de Ida, evocando falas poéticas e posicionamento feminista, de emancipação da mulher (Jessie Buckley interpreta também essa Mary Shelley, em cenas preto-e-branco em ângulos diferentes, de cima para baixo, de lado etc). Essa geleia geral cria um ritmo frenético, ora violento, ora de poesia, que traduz em música e movimento o desejo de emancipação de uma protagonista brutalmente podada pela sociedade. Annette Bening também joga bem, e há participações de Jeannie Berlin como Greta, assistente da cientista, Zlatko Buric, como o chefe dos mafiosos, parecido com Al Capone, além de Penélope Cruz e Peter Sarsgaard como uma dupla de investigadores. “A noiva!” não é apenas uma releitura da companheira do Prometeu moderno, mas um manifesto sobre identidade e autonomia feminina, e que certamente não deixará o espectador indiferente. Nos cinemas pela Warner Bros.
Ditto: Conexões do amor
Mais um lançamento da Sato Company, distribuidora especializada em filmes orientais, chega aos cinemas do Brasil. A nova versão de “Ditto”, comédia romântica reconhecida no cinema sul-coreano, ganha novos ares, com mais modernidade, neste drama romântico de 2022. A história, que traz elementos do K-drama, situa-se entre o final dos anos 1990 e o presente; dois estudantes de épocas distintas (um em 1999 e outro em 2022) descobrem que podem se comunicar por meio de um rádio amador. O jovem Kim Yong (Yeo Jin-goo, de “Hotel del Luna”), ao captar a voz misteriosa de uma garota do futuro (Cho Yi-hyun, de “A fada e o pastor”), de nome Moo-nee, inicia uma troca inesperada de confidências. Ambos começam a compartilhar sonhos, frustrações e sentimentos, construindo uma relação que desafia o tempo. O aparato eletrônico é o que os une, sendo o canal que utilizam para estarem juntos, apenas pela voz. “Como eles poderão se encontrar fisicamente?” é a questão que irá instigar os dois personagens. Leve, cativante, funciona como uma releitura do clássico homônimo lançado em 2000, no Brasil exibido como “Lembre-se de mim”, longa sul-coreano que se tornou cult e marcou a revitalização do cinema daquele país. A produção atualiza o contexto tecnológico e preserva a atmosfera delicada que consagraram o original. A direção e o roteiro ficam a cargo de Seo Eun-young, que assina aqui seu terceiro filme, após “Overman” (2016) e “Go back” (2021) – a cineasta costuma trabalhar em seus filmes temas como juventude, amadurecimento, encontros improváveis e amizade, trazendo tudo isto em “Ditto: Conexões do amor”.
Paul McCartney: Homem em fuga
Ótimo documentário que conferi na última semana no Prime Video, lançamento do mês da plataforma. Um retrato íntimo da jornada de Paul McCartney após a despedida dos Beatles. É um filme que se afasta da aura mítica dos Beatles para narrar um período menos explorado da vida de Paul: sua reinvenção nos anos 1970 e 80. O filme começa com ele lançando seu primeiro álbum solo, intitulado “McCartney”, gravado em segredo com equipamentos próprios em casa, em abril de 1970, enquanto os Beatles se desfaziam. No meio daquele turbilhão emocional do fim da maior banda de rock da História, Paul adapta ritmos e canções escritas outrora por ele, injeta novos sons e cria uma longa carreira ao lado da esposa, que seria parceira de trabalho e mentora, formando com ela no ano seguinte o grupo Wings (que ficaria em atividade até 1981, lançando, dentre os discos de sucesso, “Band on the run”, em 1973). O doc acompanha a tentativa de Paul em reconstruir a carreira, enfrentando críticas duras e a desconfiança da imprensa. Paul é o narrador do filme, que o faz em tom confessional, lembrando histórias engraçadas e outras trágicas, como o assassinato de John Lennon - curiosamente ele nunca aparece (só tem a voz dele, de hoje). O diretor Morgan Neville, vencedor do Oscar pelo documentário “A um passo do estrelato” (2013), imprime ao filme um tom intimista, reunindo imagens de arquivo, trechos de shows e clipes, bastidores de turnês e depoimentos antigos e atuais de amigos de Paul. Disponível no Prime Video, o filme constrói um retrato humano, mostrando como o artista transformou a dor da separação dos Beatles em combustível para novas conquistas.
Enzo
O drama francês “Enzo”, dirigido por Robin Campillo (nascido no Marrocos, mas criado na França), estreou nos cinemas brasileiros no último fim de semana, com distribuição da Mares Filmes. Ele foi o título escolhido para abrir a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2025. Em seu novo trabalho, o diretor de “120 batimentos por minuto” (2017) marca um momento emocionante na carreira: ele presta uma homenagem ao falecido diretor e roteirista Laurent Cantet, velho parceiro de trabalho com quem esteve lado a lado desde “A agenda” (2001). Cantet escreveu o roteiro de “Enzo” meses antes de falecer de câncer, em 2024, mas não o terminou. Campillo o finalizou reunindo sua marca autoral e tentando reelaborar ideias do amigo morto. Cantet e Campillo fizeram diversos filmes, alternando direção e roteiro, com obras de teor social focado na juventude da Geração Z, como o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de filme estrangeiro “Entre os muros da escola” (2008). A história aqui acompanha Enzo (Eloy Pohu), um jovem de 16 anos que decide trilhar um caminho inesperado ao se tornar aprendiz de pedreiro, contrariando os planos de sua família burguesa, que imaginava para ele uma carreira de prestígio. Enzo vive com os pais num casarão no sul da França, e quando explica sobre o que quer fazer, crescem tensões familiares. Ele briga com o pai, Paolo (Pierfrancesco Favino), e abandona tudo para trabalhar no canteiro de obras, onde conhece Vlad (Maksym Slivinskyi), um imigrante ucraniano que está ali para exercer a mesma função. Os dois iniciam uma amizade que mudará o rumo de ambos – mas Enzo percebe que está se apaixonando pelo colega. O contraste entre o ambiente privilegiado da família e a realidade do trabalho manual dá ao filme uma força dramática que invade o âmago do protagonista, numa fita que mistura crítica social e descoberta íntima. Quem estrela é o estreante Eloy Pohu, que recebeu indicação ao prêmio de Melhor Ator Promissor no Lumière Awards, e entrega um papel sério, sem ser piegas. Em Cannes o filme recebeu indicação ao Queer Palm, e no Brasil teve sua première na Mostra Internacional de Cinema de SP do ano passado. Um filme sobre a juventude em transformação, com suas aspirações, livre-arbítrio e cobranças. Virou um testamento/tributo ao legado artístico de Laurent Cantet.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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