ESTREIAS DA SEMANA: NOS CINEMAS
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A PEQUENA AMÉLIE
Indicado ao Oscar de melhor animação deste ano, a produção franco-belga é uma pequena joia do desenho contemporâneo, extremamente delicado e introspectivo, que vem conquistando público e crítica por todo o mundo. Mais do que um filme infantil, trata-se de uma obra que reflete a infância como experiência filosófica e emocional, elevando o gênero a um patamar de arte poética. Dirigido pela dupla estreante Maïlys Vallade e Liane-Cho Han Jin Kuang, que trabalharam juntos no departamento de arte da animação “O pequeno príncipe” (2015), o filme é baseado em um livro autobiográfico da escritora belga Amélie Nothomb, intitulado “The character of rain” (em francês, “Métaphysique des tubes”, que dá nome ao filme). É sobre a infância dessa escritora, narrado por ela de forma íntima e sensível, de quando era uma criança que descobriu o mundo aos três anos de idade. Na verdade, Amélie nasceu como uma criança disfuncional: não se mexia, vivia em estado de letargia, só piscando. Vinha de uma família rica da Bélgica que morava em Kobe, no Japão, super bem cuidada pelos pais, diplomatas, e o irmão. Pelas crenças japonesas, era chamada de “Criança divina” (uma “Okosama”), passando os três primeiros anos só na cadeira observando as coisas com seus grandes olhos esverdeados. Quando desperta, aos três, saindo daquela paralisia, descobre o mundo e sua profusão de cores, formas e sons, criando um forte vínculo com a governanta japonesa, Nishio-san, que a apresenta à natureza e a ensina sobre emoções escondidas. Visualmente, a obra tem uma fusão estética de paletas suaves, quase minimalistas, que induzem ao teor contemplativo proposto pelo filme. Tornou-se um fenômeno nos festivais internacionais, vencedor do Prêmio do Público em Annecy e que acumulou sete indicações ao Annie Awards, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Também foi indicado ao Bafta, Critics Choice, Satellite e Globo de Ouro de melhor animação, além de indicação ao Golden Camera no Festival de Cannes. Serve para crianças, jovens e adultos com sua história filosófica e de enorme graça. Curtinho, tem 74 minutos, que passam voando. Gostei bastante e foi um dos meus filmes de animação preferidos do ano, ao lado de “Arco”. Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Mares Filmes e Alpha Filmes.
CARA DE UM, FOCINHO DE OUTRO
Nova animação da Disney/Pixar, a produção norte-americana que está nos principais cinemas brasileiros é um frescor criativo do estúdio. Mesmo não tendo tanto marketing de divulgação, até que vai bem de bilheteria (confesso que nem sabia do filme). Foi escrito e dirigido por Daniel Chong, em sua estreia com longa-metragem, ele que criou a série da Cartoon Network “Ursos sem curso” (2014-2019) e foi do departamento de arte da Disney e depois da Illumination (de “Minions”, por exemplo). A animação cheia de humor e vida apresenta Mabel, uma garota de 19 anos apaixonada por animais, que decide usar em si própria uma tecnologia secreta ultramoderna capaz de transferir a consciência humana para bichos robóticos. Por que Mabel deseja isso? Porque o prefeito da cidade pretende destruir uma área de proteção dos castores para levantar um novo bairro; então, a menina se lança naquele experimento, conseguindo transferir sua consciência em um castor robótico, que irá se infiltrar no reino animal para proteger o habitat natural deles. No filme, a personagem adentra nos mistérios do mundo animal que vão além do que se poderia imaginar, vivenciando aventuras que misturam humor, emoção e reflexões profundas sobre a relação entre humanos e natureza. Os personagens são carismáticos, principalmente os animais, que dão o ar da graça, em uma animação com forte mensagem ecológica em tempos que a palavra de ordem é a degradação do planeta. O filme também trata com sabedoria sobre ética na ciência, sem perder o tom divertido característico das obras da Disney/Pixar.
A GRAÇA
Seis filmes da Mubi integraram a programação 2025 do Festival do Rio: ‘La grazia’, ‘Órfão’, ‘Valor sentimental’, ‘Alpha’, ‘The mastermind’ e ‘Morra, amor’. Assisti a todos lá, e gostei muito de ‘La grazia’, agora em cartaz nos cinemas como “A graça”. A Mubi é uma das queridinhas dos cinéfilos que percorrem festivais de cinema, provedora que traz em seu catálogo filmes independentes e outros premiados. “A graça” é o novo Paolo Sorrentino, diretor italiano celebrado, cultuado pelo mundo, de ‘A grande beleza’ e ‘Parthenope – Os amores de Nápoles’, que vi no Festival do Rio do ano retrasado. Seu novo longa é mais uma sátira social inteligente repleta de metáforas e referências diretas ao mundo da política. O grande ator Toni Servillo, parceiro frequente de Sorrentino, interpreta o presidente da Itália, Mariano de Santis, um homem indagador e que observa tudo ao seu redor. Viúvo, sente diariamente a falta da esposa; católico ferrenho, abre uma crise consigo e com o partido quando é forçado a assinar a lei de eutanásia e mais dois pedidos de perdão relacionados a homicídios do passado – por isso, ele tem de dar a “graça” aos envolvidos. Dilemas morais e éticos tiram seu sono nos últimos dias de seu governo, enquanto tem de escolher nomes para sua sucessão. Filme de abertura do Festival de Veneza de 2025, onde ganhou sete prêmios, dentre eles melhor ator para Servillo, é uma obra complexa, assim como todo filme de Sorrentino – aqui ele está mais contido com as exuberâncias dos personagens, pisando mais no chão, mas nunca deixando seu estilo inusitado de contar grandes histórias. Estreou nos cinemas brasileiros neste fim de semana, com distribuição da Pandora Filmes em parceria com a Mubi.
PELE DE VIDRO
Filha do arquiteto francês radicado no Brasil Roger Zmekhol (1928-1976), a cineasta Denise Zmekhol realiza aqui um documentário-homenagem ao seu pai, em que revisita o legado dele, analisando o projeto de maior destaque de sua carreira na arquitetura, o icônico edifício Wilton Paes de Almeida, localizado no Largo do Paissandu, no Centro velho de São Paulo e apelidado de “Pele de Vidro”. O arranha-céu modernista virou símbolo de uma São Paulo em transformação, erguido ao longo dos anos 60 e inaugurado em 1968, com 24 andares. Era um prédio vistoso, reluzente, inteiramente de vidro, depois tombado pelo Patrimônio Histórico da capital paulista. Ficou abandonado por décadas, até virar moradia de pessoas sem-teto. O filme nasce desse reencontro inesperado: entre memória pessoal (da cineasta que volta ao Brasil depois de 20 anos morando nos Estados Unidos, para investigar os desejos e o trabalho do pai falecido) e realidade social, abrindo uma reflexão sobre o problema da moradia no Brasil. O longa estava em construção quando ocorreu o incêndio que fez o prédio desabar, em maio de 2018, deixando sete mortos e dois desaparecidos nos escombros - na época, 140 famílias ocupavam o local. Em meio a imagens dos arquivos pessoais de Roger, Denise (que é uma premiada documentarista) faz toda a narração, dando um discurso poético e ao mesmo tempo nostálgico para a obra. Coprodução Brasil e EUA, o doc percorreu mais de 60 festivais nacionais e internacionais, como Festival de Shangai e a Mostra Internacional de Cinema de SP, e agora está exibição nos principais cinemas do país, com distribuição da Autoral Filmes.
A MENSAGEIRA
Vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2025, o longa confirma sem temor a força do cinema argentino contemporâneo, em um filme de pura beleza cinematográfica. A grandeza da obra reside no roteiro e no impacto das imagens, rodado em um preto-e-branco incrível. Tem a estrutura de um road movie intimista, em que acompanha Anika (Anika Bootz), uma menina prodígio que se comunica com animais vivos e mortos. Os avós, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), veem nela a oportunidade de ganhar dinheiro e começam a percorrer lugarejos oferecendo consultas mediúnicas para pessoas que são tutoras de pets. Eles viajam de van pela Argentina, cruzando diversas cidades do interior, movidos pela fé e também na busca do sustento diário. Os personagens do filme transicionam entre o mundo místico (a menina com o “dom” de ouvir animais) e o charlatanismo (a visão da sociedade sobre aquele trabalho, apontado como farsa), cujo enredo e até o PB me lembraram “Lua de papel” (1973), aquele da garotinha que vende bíblias com o pai adotivo por cidades do interior americano, até que se juntam com uma dançarina para fazer os negócios lucrarem. O trio central aqui não é retratado como mau-caráter ou exploradores da fé, tudo fica num limiar; o diretor expõe a fragilidade humana diante da perda e da despedida, e o oportunismo surge não como vilania, mas como estratégia de resistência, onde verdade, encenação e necessidade se confundem. Os atores de “A mensageira” atuam com intensidade: a garota Anika alterna leveza infantil e melancolia, enquanto Mara e Marcelo dão voz às ambiguidades desse núcleo familiar. Há muitas passagens contemplativas, sem diálogos, só com a captura de paisagens incríveis do interior da Argentina numa fotografia primorosa- o filme é uma coprodução Argentina, Espanha e Uruguai. Acumula prêmios em festivais internacionais, como Pequim (Melhor atriz coadjuvante e fotografia), San Sebastián (Horizontes Latinos) e Viña del Mar (Melhor filme), além da Berlinale já citada. Fund também é o roteirista, o produtor e o montador do filme, fazendo, portanto, uma obra autoral pensada e formatada completamente por ele. Em exibição nos cinemas brasileiros, distribuído pelo Filmes do Estação.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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