Joyce: Um Narrador Classico?
Os Mortos expoe a pericia de narrador de James Joyce, algo que existe em grau maximo em Finnegans Wake
Antes de acabar com a ilusão de limpidez e transparência duma narrativa literária, o escritor irlandês James Joyce se manteve apegado aos ecos novecentistas da escrita, como se vê no conto Os mortos (Thea dead; 1914), incluído no volume Dublinenses. Aqueles leitores que peremptoriamente rejeitam as inovações linguísticas radicalizadas em Ulisses (1922) e mais ainda neste soberano Finnegans Wake (1939), lamentam os desvios que vieram em sua literatura e se sentem mais cômodos no universo de Os mortos, ou ainda em Retrato do artista quando jovem (1916). Os mortos expõe a perícia de narrador de Joyce, algo que existe em grau máximo em Finnegans Wake, mas é ignorado pelas barreiras de linguagem edificadas por Joyce.
Ele começa dominando o espaço daquele Dia de Reis. “Lily, a filha do zelador, estava literalmente esgotada. Mal acabara de conduzir um convidado à saleta atrás do escritório, ajudando-o a tirar o casaco, e a impaciente sineta da estrada tornava a soar, obrigando-a a precipitar-se pelo corredor vazio para receber um novo hóspede.” Depois, no fim, a história de um casal de convidados, Gabriel e Gretta, com a evocação dela dum amor longínquo e melancolicamente trágico, ao som duma música e de vista para a neve interminável do inverno irlandês, vai assenhorear-se de toda a narrativa. Ainda nesta estrutura clássica, o rigor poético de Joyce é determinado por algumas sensibilidades.
A sensibilidade musical é fantasmática. “Sabia que Mary Jane estava para terminar, pois tocava novamente a melodia inicial, com longos floreios entre os compassos e, enquanto esperava pelo fim, sentiu que o ressentimento deixava seu coração. A peça terminou com harpejo de oitavas agudas e uma fortíssima oitava final no grave.” Tudo em Os mortos tem uma delicadeza antiga e sofisticada, como convém à arte de alguém como Joyce, cujas mutações ao longo de sua vida literária obedecem a uma natureza de grande compreensão dos processos de linguagem, habitualmente mal assimilados por aqueles que se dispõem a ser somente “consumidores literários”. Mas, na frase final, a neve continua a cair ao compasso da alma. “Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos.”
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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