ESTREIAS DA SEMANA NOS CINEMAS E NO STREAMING

De tudo um pouco nesta semana, nas telonas e nas telinhas. Confira!

06/04/2026 03:07 Por Felipe Brida
ESTREIAS DA SEMANA NOS CINEMAS E NO STREAMING

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Um Zé Ninguém contra Putin

Vencedor do Oscar e do Bafta de melhor documentário nesse ano, e ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, onde teve a premiére mundial em 2025, o poderoso filme político de David Borenstein e Pavel Talankin acaba de ser lançado no Brasil exclusivamente no streaming Filmelier+. E ele sai em um momento crítico: há uma semana o Ministério da Rússia anunciou que o diretor Pavel Talankin foi incluído na lista de “agentes estrangeiros”, o que significa ser um dissidente do regime russo de Putin (lembrando que atualmente na Rússia de Putin os dissidentes costumam ser presos, assassinados ou exilados). É um filme crítico aos desmandos da Rússia atual, mostrando como o patriotismo exacerbado manipula os cidadãos condicionando seu pensamento para a guerra desde a infância. O longa acompanha Pasha, professor do ensino primário em uma cidade rural do interior da Rússia, que decide gravar clandestinamente a transformação de sua escola após a invasão da Ucrânia, em 2022. A escola, lugar de aprendizado, respeito e acolhimento, passa a ser dominado pela propaganda estatal, forçada pelo regime: grupos infantis militarizados surgem, o nacionalismo é exaltado pelos hinos patrióticos em rituais permanentes, e adolescentes são incentivados a se engajar na guerra (segundo eles, contra um país vizinho que os quer derrotados). Pasha entra em crise ao se dividir entre seguir com a educação que sempre sonhou ou ceder às pressões do regime russo. Com sua câmera escondida, Pasha documenta o cotidiano naquela instituição de ensino; as imagens revelam como a repressão se infiltra nas salas de aula, corroendo direitos e liberdades. O resultado é um retrato pungente da Rússia contemporânea, comandada por um déspota, em que coloca a educação como instrumento de doutrinação. Um filmaço para ser visto, discutido e indicado. Está no Filmelier+, com distribuição da Synapse Distribution, que integra o grupo Sofa DGTL – curiosamente, é o terceiro lançamento da distribuidora no Brasil de filmes ganhadores do Oscar de melhor documentário – antes vieram “20 dias em Mariupol” (2023) e “Sem chão” (2024), todos eles retratando guerras.

13 dias, 13 noites

Thriller político franco-belga que faz uma varredura no caos que virou o Afeganistão com queda de Cabul em agosto de 2021, quando integrantes do movimento fundamentalista islâmico Talibã retornaram ao poder, logo após a saída das tropas americanas do território. Milhares de afegãos buscaram sair do país, tendo a Embaixada da França como um ponto de apoio. A história do tenso filme recorta esse período, acompanhando a exaustiva missão do comandante Mohamed Bida, responsável pela segurança da Embaixada da França e sua equipe: eles ficaram encarregados de proteger 500 refugiados e conduzi-los até o aeroporto durante o avanço das tropas talibãs, que atiravam para matar, gerando caos e medo no país. Escrito e dirigido por Martin Bourboulon, da duologia “Os três mosqueteiros: D'Artagnan” (2023) e “Os três mosqueteiros: Milady” (2023), o longa transforma em cinema de ação e guerra o relato do comandante Mohamed Bida – é baseado no livro homônomo de, chamado “13 days, 13 nights in the hell of Kabul”. O filme constrói uma atmosfera sufocante, com uma fotografia de calor e cansaço pelos tons fortes de amarelo e laranja. O ator Roschdy Zem, de “Eu, que te amei” (2025), encarna o protagonista à beira do colapso, sustentando o peso dramático da trama. As atrizes Lyna Khoudri, de “A crônica francesa” (2021), e Sidse Babett Knudsen, de “Filhos” (2024), reforçam o elenco internacional, proporcionando camadas de humanidade às personagens. Um ótimo filme de corrida contra o tempo e sobrevivência, que se passa na cidade devastada de Cabul após duas décadas de invasão dos Estados Unidos (2001-2021), em que se faz um registro preciso da grave crise humanitária que eclodia naquele país do Oriente Médio. Exibido no Festival de Cannes e indicado ao César de melhor montagem, o longa não é apenas um relato de guerra, mas um testemunho sobre resistência e solidariedade em meio ao desespero de uma população abandonada à própria sorte. Segue desde semana passada nos cinemas, com distribuição da California Filmes.

Eles vão te matar

Conhecido por um cinema de ação explosivo com violência gráfica estilizada e humor macabro, o diretor russo Kirill Sokolov se lança no primeiro trabalho feito nos Estados Unidos. Na verdade, é um remake de seu primeiro longa, “Morra!” (2018), com novos personagens – ele o fez na Rússia, na flor da idade, aos 26 anos. Em ambos os filmes uma personagem chega em um apartamento e lá e confrontada com um bando de criminosos que querem sua cabeça. “Eles vão te matar” se passa em um arranha-céu de Nova York, onde Asia Reaves (Zazie Beetz) aceita o emprego de faxineira/zeladora. No primeiro dia de trabalho, descobre que o prédio abriga um grupo satanista, de pessoas vestidas com capuzes pretos e carregando insígnias macabras. Ela terá de usar todas as forças para sobreviver de armadilhas mortais – o que ninguém desconfia é que Asia tem habilidades de artes marciais. Um filme de ação ininterrupta, com pancadaria, giros no ar, sangue para todo lado, em uma história de luta pela sobrevivência que mais parece um pesadelo urbano. Na metade do filme o pior acontece: a personagem descobre que as dezenas de pessoas que a perseguem não morrem nunca; mesmo sem membros ou com tiros, elas retornam, amaldiçoadas pelos preceitos da seita satânica. A câmera é inquieta, os cortes são rápidos, as lutas, absurdas, e as cenas são grotescas, em um trabalho peculiar, cuja atmosfera angustiante pulsa na tela. Um filme em que você deve deixar-se levar. Atriz da série “Atlanta”, Zazie Beetz manda bem como a protagonista, e a ganhadora do Oscar Patricia Arquette dá vida à vilã, a dona do hotel que lidera o clã maligno. Segue nos cinemas pela Warner Bros - a classificação indicativa é de 18 anos.

It’s never over, Jeff Buckley

Exibido no Festival de Sundance e no CPH:DOX, o documentário, após ser exibido na edição passada da Mostra de Cinema de São Paulo, estreia agora no catálogo do Prime Video. A documentarista Amy Berg, cujo primeiro longa foi indicado ao Oscar, o doc “Livrai-nos do mal” (2007), e que anos atrás fez o ótimo documentário sobre Janis Joplin, “Janis: Little girl blue” (2015), retorna ao mundo da música para narrar a trajetória curta, mas de amplo destaque na época, do cantor e compositor Jeff Buckley (1966-1997). Considerado um novo Bob Dylan, o jovem era filho do cantor folk Tim Buckley (falecido quando Jeff tinha 10 anos) e cresceu cercado pela música. Só que ele traçou um caminho alternativo do pai, com uma identidade própria. O talento vocal, que alternava do sussurro delicado a afinações arrebatadoras, tornou-se a marca registrada de Jeff. Ele não se encaixava nos padrões da época, aliás, os contestava ao misturar rock, soul, folk e elementos da música clássica. O íntimo documentário reconstrói, com imagens de shows, e fotos inéditas de arquivo da família de Jeff, a breve e intensa carreira dele, que culminaram no álbum “Grace”, lançado em 1994. Ele só lançou este disco de estúdio, além de dois ao vivo e um póstumo (que seria lançado em 1998, “Sketches for my sweetheart the drunk”). No doc falam sobre Jeff a mãe, Mary Guibert, as ex-companheiras Rebecca Moore e Joan Wasser, músicos da banda como Michael Tighe e Parker Kindred, além de artistas consagrados como Ben Harper e Aimee Mann. A morte precoce do cantor, afogado no rio Wolf, no Mississipi, aos 30 anos, interrompeu uma carreira promissora, que eixou um vazio profundo entre os fãs e a crítica especializada, que viam nele uma das vozes mais promissoras da geração anos 90. O documentário tem um apelo íntimo, com cenas emocionantes; é bem amarrado e traz muitas músicas de Jeff, como “Grace”, “Vancouver” e a regravação de “Hallelujah” (de Leonard Cohen). Gostei muito e recomendo.

Cheiro de diesel

Dirigido pela dupla de cineastas Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário expõe os efeitos da militarização das favelas do Rio de Janeiro durante os decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos governos Dilma e Temer, entre os anos de 2014 e 2018. Foram dezenas de operações militares com o pretexto de controlar a segurança pública, que levou quase três mil homens das Forças Armadas para 15 regiões do Complexo da Maré e de outras comunidades. O que se viu naquele período foram um incontável número de mortos, invasões de domicílio de madrugada, invasão em escolas e postos de saúde, balas perdidas atingindo pessoas – algumas ficaram paraplégicas, abuso de poder, tortura (como a apelidada “sala vermelha” em um quartel na Penha) e significativa violação dos direitos humanos. Com uma câmera flagrante nas mãos, as cineastas registraram muitos desses momentos, e hoje juntam no filme depoimentos atuais de quem sobreviveu e quem perdeu entes próximos. Vencedor de dois prêmios no Festival do Rio no ano passado, o filme dá voz aos moradores da Maré, da Penha e do Morro do Salgueiro, que relembram a rotina de medo, as revistas constantes e a presença diária de tanques, barricadas e soldados armados em suas ruas. Além de registro histórico dos fatos (feitos com dificuldade pela jornalista moradora da Maré Gizele Martins, ou seja, por alguém que correu risco naquele “front de batalha”), o longa revela os traumas coletivos e a sensação de que a vida cotidiana foi sequestrada pela lógica de uma guerra indissolúvel. Um retrato urgente sobre como o Estado brasileiro, em nome da ordem, perpetua a exclusão e a violência contra cidadãos vulnerabilizados. Produção da Amana Cine e Baracoa Filmes, com coprodução do Canal Brasil, continua em exibição em alguns cinemas com distribuição da Descoloniza Filmes em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio.

Arquitetura da Destruição

Exibido no Festival de Berlim, o documentário é o maior filme do cineasta Peter Cohen e um dos mais contundentes sobre o nazismo. Realizado em 1989, é dividido em partes: da fundação do partido nazista nos anos 30, passando pela ascensão ao poder de Hitler e a dimensão estética e cultural que sustentou sua ideologia. Hitler, que sonhava em ser arquiteto e desenhava nas horas vagas esboços de prédios modernos, conseguiu colocar parte de seus planos em prática, no tocante ao que diz o título do filme, a arquitetura. Demoliu prédios antigos para fundar uma nova ordem nas artes, que pretendia ser universal, revivendo o Belo Clássico e eliminando tudo aquilo que para ele não prestava, o que chamava de “arte degenerada” (especialmente aquelas de crítica social e as relacionadas à estética moderna e a do Feio). A megalomania de Hitler extravasava o campo da arquitetura: consolidou a eugenia (limpeza étnica ao eliminar os judeus), criou laboratórios com experimentos humanos (para alcançar a raça perfeita, a ariana), buscando moldar o mundo inteiro segundo um ideal absoluto. Na ocupação nazista de países vizinhos, tentou levar para lá essa nova inspiração. Cada detalhe das marchas e dos discursos em público era cuidadosamente coreografado, com uma rica direção de arte, conduzindo a massa à histeria coletiva. O nazismo, em sua essência, pretendia “embelezar” o mundo, ainda que, para isso, fosse necessário destruí-lo primeiro. Tudo passava pelas mãos de Hitler, inclusive as insígnias nazistas, como a suástica e a águia, foram desenhadas por ele. O documentário, em muitos momentos forte e indigesto, revela como a estética nazista se entrelaçou com o projeto de poder que atingiu o ápice com o genocídio judeu – há cenas delirantes de como a arquitetura chegou aos campos de concentração, nas câmaras de gás em que centenas de pessoas eram eliminadas por hora com o gás Zyklon-B, tido como uma forma mais “limpa” de morte, já que no início do Holocausto os primeiros judeus morriam fuzilados. A epifania de Hitler ao assistir à ópera Rienzi, de Richard Wagner, é apresentada como ponto de partida para sua visão grandiosa - ele tornou-se fã inveterado de Wagner, homenageando-o em todos os cantos na Alemanha Nazista. Cohen constrói uma narrativa dolorosa e também reflexiva, mostrando como a estética se converteu em arma política e cultural, legitimando a violência em escala inédita no mundo. É um estudo perturbador sobre a beleza usada como máscara para a barbárie, e de como a arte pôde ser instrumentalizada para sustentar um projeto de morte. Narrado por Bruno Ganz, o filme foi premiado na Mostra Internacional de Cinema de SP na época do lançamento, e agora está disponível de forma gratuita na plataforma Sesc Digital, até o dia 05/04/2026, em https://sesc.digital/home, na versão restaurada recentemente em 4K, pela Cinemateca Sueca (país onde o documentário foi produzido).

Lupicínio Rodrigues – Confissões de um sofredor

Documentário de 2024 que analisa vida e obra do compositor gaúcho de Porto Alegre Lupicínio Rodrigues (1914–1974), nome de grande importância para a Música Popular Brasileira. Nascido em uma favela na Ilhota, foi o criador do chamado “samba-canção de dor-de-cotovelo”, gênero marcado pela melancolia, boemia, lirismo e pela confissão íntima de amores frustrados. Composições como “Vingança”, “Loucura”, “Felicidade”, “Volta”, “Quando eu for vem velhinho”, “Esses moços” e “Nervos de aço” tornaram-se clássicos imediatos, que revelavam um artista que transformou sofrimento pessoal em arte – quase todas essas canções são analisadas o documentário por especialistas em músicas, além de entrevistas antigas em que Lupicínio as comenta. O filme apresenta Lupicínio tanto como compositor de marchinhas de carnaval no início da carreira e sambas inesquecíveis quanto cronista das emoções humanas. Também foi ele quem compôs o hino oficial do Grêmio Porto-alegrense, ou seja, ia de um lado a outro, cruzando as diversas vertentes da música. A trajetória dele é narrada por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram, como Elza Soares, Gilberto Gil, Jamelão, Jards Macal é e Zuza Homem de Mello, além de entrevistas dos anos 60 do próprio compositor, imagens de shows de cantores e cantoras que o interpretaram no palco, como Chico Buarque, Linda Batista e Gal Costa, e familiares (gravadas no tempo atual, entre 2023 e 2024). O documentário destaca a autenticidade de sua obra: Lupicínio escrevia sobre o que vivia, sem máscaras, expondo suas fragilidades e paixões. A honestidade é justamente o que lhe conferiu grandeza e o tornou um ícone da música brasileira. Com narração de Paulo César Pereio, o filme foi exibido no Festival In-Edit e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Curiosidade retratada no filme: a canção “Se acaso você chegasse” integrou a trilha sonora do musical hollywoodiano “Dançarina loura” (1944) e recebeu indicação ao Oscar, no entanto ele nem sequer ficou sabendo, pois não botaram os créditos para ele. Está disponível gratuitamente na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026, em https://sesc.digital/home

 

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com

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