ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E STREAMINGS
Descubra que tem bons filmes, alguns nem tao divulgados, mas que merecem ser assistidos!
Eclipse
Filha do casal de cineastas Helena Ignez (também atriz) e Rogério Sganzerla (mente por trás do Cinema Marginal), Djin Sganzerla construiu sua carreira entre atuação, direção, produção cinematográfica e roteiro, além de ter sido apresentadora do Canal Brasil por muito tempo. Fez mais de 20 filmes como atriz e dirigiu dois longas, “Mulher oceano” (2020) e “Eclipse” (2025), esta uma obra densa, complexa, que mistura diversos gêneros e é tão boa e original quanto o primeiro trabalho atrás das câmeras – e em ambos ela interpreta a protagonista. “Eclipse” estreou nos cinemas brasileiros na semana passada, e é um filme de narrativa ousada, que desafia convenções. Estrutura-se como um mosaico de imagens que se entrelaçam em torno de uma mulher em constante deslocamento e desintegração. Essa personagem é a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla), que está grávida, e no turbilhão das emoções causadas pelo desafio de ser mãe, é surpreendida com a chegada de Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã bem mais nova, de origem indígena. Distantes, Cleo e Nalu iniciam uma fase de reconexão familiar, tomadas por memórias perturbadoras que as levam para uma jornada humana até então desconhecida. No meio disso tudo, Cleo suspeita que o marido, Tony (Sergio Guizé), esteja envolvido com hackers e crimes digitais. Com mistura de sonhos e realidade, o filme independente (produzido pela Mercúrio Produções, com codistribuição da Pandora Filmes) traz para a tela questões importantes da atualidade por meio de uma obra que vai além do drama familiar: fala-se do patriarcado, das falsas aparências no casamento, da violência doméstica e o uso da deep web para aliciamento de crianças. Há subtramas para cada um desses assuntos que se conectam com sobriedade (apesar de serem distantes). O eclipse do título é uma metáfora sobre as inúmeras dualidades do filme: da ciência e ancestralidade (envolvendo as crenças das duas irmãs), e do silenciamento da mulher contra o protagonismo que elas assumem quando passam ao controle de suas vidas. Exibido na 49ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, o filme conta com ótima atuação de Djin e participação no elenco de Sérgio Guizé, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine.
O fim de Saturno
Primorosa continuação de “O caminho para Saturno” (1967), thriller de espionagem soviético que foi rodado um ano depois e segue os acontecimentos do primeiro filme. No capítulo anterior, funcionários da segurança do Estado Soviético infiltraram-se na agência secreta de inteligência nazista “Saturno”, que realizava serviços escusos para Moscou, e obtiveram dados de 127 agentes envolvidos. O que se segue agora é a consequência da descoberta, um caso inspirado em fatos verídicos. O filme se passa na Segunda Guerra Mundial e acompanha os oficiais da inteligência soviética em mais um desdobramento da luta contra agentes alemães infiltrados. Os oficiais soviéticos conseguiram desinformar o inimigo com ajuda de relatórios falsos, uma estratégia de contraespionagem que dá um pontapé para a desarticulação nazista em vários países da Europa. Esse é o motor dramático da obra, que revela não apenas a astúcia dos protagonistas, como também o jogo psicológico que permeava a guerra secreta. É um exemplo clássico do cinema soviético de espionagem, que combina tensão com forte carga ideológica. A direção recorre a uma atmosfera sombria, marcada por cenários austeros e uma excelente fotografia em preto-e-branco que reforça o clima de paranoia e vigilância daquela época. Exalta-se a inteligência soviética e sua capacidade de vencer o inimigo não pela força, mas pela sagacidade – os nazistas são mostrados com vilões cruéis, mas vulneráveis, passíveis de derrota. Rodado em ambientes fechados que reconstroem salas de reunião sigilosas e escritórios da Segunda Guerra Mundial, o filme é um achado impressionante do desconhecido (por muitos) cinema soviético feito no auge da Guerra Fria. Conta com o mesmo grupo do filme anterior: elenco (com destaque para Mikhail Volkov, Georgi Zhzhyonov e Evgeniy Kuznetsov), direção de Villen Azarov, roteiristas e produtores. O filme está disponível para ver gratuitamente na plataforma da CPC-Umes no Youtube até amanhã, dia 18/05, em cópia restaurada pelos estúdios da Mosfilm – em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23
Martin Short: Uma vida de comédia
O diretor norte-americano Lawrence Kasdan, de “Corpos ardentes” e “Silverado”, dois filmes aplaudidos dos anos 80, realiza seu primeiro documentário em 45 anos de carreira. E justamente uma homenagem ao ator Martin Short, com quem trabalhou apenas uma vez, em “Dr. Mumford: Inocência ou culpa?” (1999) - mas de lá para cá desenvolveu forte amizade com o astro da comédia. Ganhador de dois prêmios Emmy, Martin Short (hoje aos 76 anos) consagrou-se como um dos grandes nomes do Saturday Night Live, icônico programa de humor da TV americana, além de participações engraçadíssimas em inúmeros outros programas, sem contar os filmes (como “Três amigos” e “Os três fugitivos”). No documentário, Martin Short é a estrela principal, num filme em que ele relembra a trajetória marcada por altos e baixos, a relação com a família e os amigos, suas viagens e a recepção de colegas de elenco em sua casa de veraneio, que ficou famosa pelos encontros regados a música, vinho e piadas (frequentavam lá amigos pessoais dele como Steven Martin, Eugene Levy e Catherine O’Hara – que falam ao filme também). É uma obra afetuosa, com certa melancolia, que celebra a versatilidade de Short, que transitou por décadas entre o palco, a televisão e o cinema com uma energia radiante, sempre disposto a criar novos personagens. O filme explora também seus dramas pessoais, o homem por trás das máscaras, com as fragilidades e perdas (em fevereiro deste ano, durante as gravações do doc, sua filha Katherine, de 42 anos, cometeu suicídio, o que o abalou profundamente e o fez terminar seu relacionamento de quase dois anos com a atriz Meryl Streep – eles se conheceram nas gravações da famosa série com Steve Martin “Only murders in the building”). O filme tem ritmo ágil, pontuado por imagens de arquivo bem pessoais, como gravações de vídeos caseiros de festas e encontros do ator, bastidores e making of, além de cenas de filmes, séries e esquetes em programas humorísticos. O documentário, da Netflix, equilibra irreverência, drama e autocrítica, expondo com delicadeza a vida de um ator que é dos mais completos e queridos tanto do público quanto dos colegas de cena.
Alma negra - Do quilombo ao baile
Realizado em 2024, com exibição em diversos festivais no Brasil e no mundo, como Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival de Havana, Fest Aruanda (na Paraíba), Mostra de Cinema de Tiradentes e In-Edit Brasil, o excelente documentário é uma das melhores estreias do ano, que acaba de chegar aos principais cinemas do país. Com roteiro de Mariana Pamplona e Flavio Frederico (que dirige o filme), o longa reúne dezenas de nomes da música negra para celebrar a soul music no Brasil, percorrendo da década de 60 até agora. Shows históricos de Tim Maia, Cassiano e Gérson King Combo trouxeram a black music para o repertório nacional, com músicos pretos utilizando os palcos para performances descoladas e engajamento político. O filme foca nos bailes black que dominaram os espaços coletivos a partir dos anos 70, principalmente no Rio e em SP e RJ, reverenciado como uma força de resistência e reforço da identidade preta. Misturando cenas de shows e de entrevistas antigas (de músicos como Tim Maia e intelectuais como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez) com depoimentos atuais (de Carlos Dafé, Nelson Motta, Toni Tornado, Zezé Motta, Seu Jorge e Sandra Sá), o filme tem um ritmo dançante, montagem super ágil, cuja trilha sonora é assinada por Eduardo Bidlovski, DJ conhecido pelo nome artístico de BiD que produziu álbuns de Chico Science e Nação Zumbi. Com produção da Kinoscópio, em coprodução com a SoulCity, e distribuição da Synapse, o documentário é um amplo mergulho na cultura afrobrasileira a partir de um estilo de música que virou ato político e de pertencimento em um país marcado pela desigualdade social e discriminação contra pessoas pretas.
Fanon
Muito se aguardou por uma cinebiografia de Franz Fanon (1925-1961), psiquiatra martinicano que se tornou um pensador crítico do colonialismo - e transcorridos 55 anos de sua morte, continua uma das vozes mais estudadas sobre a decolonialidade (eu, por exemplo, o estudei no meu Mestrado na PUC, especialmente seus dois livros-chave, “Os condenados da Terra” e “Pele negra, máscaras brancas”). O filme não é uma biografia completa de Fanon (da infância à morte), e sim de parte de sua trajetória, com foco no período que viveu e trabalhou na Argélia colonial, entre 1953 e 1956, e lá sua prática médica se entrelaçou com a luta política e o engajamento revolucionário. O longa apresenta Fanon (interpretado brilhantemente por Alexandre Bouyer, em seu terceiro longa e o primeiro como protagonista) em sua chegada ao hospital psiquiátrico de Blida, na Argélia sob domínio da França. Ali, seus métodos humanistas e inovadores entram em choque com a rigidez institucional, revelando tanto sua visão avançada sobre a saúde mental quanto a postura ética diante da opressão colonial. À medida que a Guerra da Argélia se intensifica, Fanon se aproxima da Frente de Libertação Nacional (FLN), movimento nacionalista de libertação do país. Fanon torna-se um militante ativo contra o domínio francês, e seu posicionamento influenciaria em seguida outros movimentos de libertação, como o dos povos sufocados na África e os da América Latina sob regime de ditaduras. O filme mostra como a vida pessoal de Fanon, ao lado da esposa Josie (papel de Déborah François, de “A datilógrafa”), foi atravessada por dilemas e violências que o tragaram para dentro do centro da resistência na FLN. Fanon defendia que a descolonização não era somente um processo político, mas cultural e subjetivo, que ampliava a libertação também dos corpos e das consciências – por isso sua voz ecoa nos tempos de hoje. Coprodução França, Luxemburgo, Canadá e Bélgica rodada na Tunísia e Martinica, tem uma direção interessada de Jean-Claude Flamand-Barny (que assina como Jean-Claude Barny), que dá um tratamento digno para o personagem em seu roteiro ao lado de Philippe Bernard. Como espectadores, vemos o percurso de um intelectual que rompeu fronteiras entre medicina, filosofia e política, tornando-se referência mundial no pensamento decolonial. O filme foi realizado em celebração ao centenário de nascimento de Fanon, em 2025, e infelizmente não teve o devido reconhecimento em festivais tampouco em premiações (só exibido em festivais menores). Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Fênix Filmes.
Colisão: Acidente ou homicídio?
Documentário de true crime da Netflix sobre um acidente de carro fatal que aos poucos virou um extenso caso policial que terminou em acusação de homicídio. A produção se destaca por sua abordagem investigativa e pela tensão constante entre versões conflitantes – da condutora sobrevivente e da família das duas vítimas que morreram. O caso ocorreu em julho de 2022, em Strongsville, Ohio (EUA), quando a jovem Mackenzie Shirilla, de 17 anos, bateu seu automóvel contra uma parede de tijolos, na área urbana da cidade, matando o namorado Dominic Russo e o melhor amigo dele, Davion Flanagan. Em 2023, Mackenzie foi considerada culpada por homicídio doloso e outros 11 crimes, recebendo pena de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. O que inicialmente parecia um acidente de trânsito logo fervilhou em uma investigação complexa, levantando dúvidas sobre motivação, responsabilidade e verdade. O documentário segue com entrevistas, registros policiais e análises jurídicas, bem como vídeos do acidente flagrado por câmeras de vigilância e depoimentos de várias pessoas à época para a polícia, além de mensagens de celulares e depoimentos atuais de familiares das vítimas. O público é conduzido a refletir sobre como a percepção de um evento pode mudar quando novos elementos vêm à tona. O título é provocador, nos perguntando até que ponto a linha entre acidente e homicídio pode ser tênue, e como a justiça lida com essa ambiguidade.
Surda
Nesse delicado drama espanhol sobre maternidade e inclusão acompanhamos Ângela (Miriam Garlo), uma mulher surda que acaba de se tornar mãe e compartilha com afinco essa experiência ao lado de seu marido, que é ouvinte, Héctor (Álvaro Cervantes). A chegada do bebê expõe os desafios universais da maternidade e, no caso de Ângela, as barreiras para uma mulher surda em uma sociedade pouco preparada para acolher pessoas com deficiência. O filme nasceu de um curta-metragem de mesmo nome, “Surda” (2021), indicado ao Goya - nele contracenam a atriz surda Miriam Garlo sob direção da irmã, Eva Libertad – e agora ambas retornaram no longa (que venceu três prêmios Goya, consagrando Miriam Garlo como a primeira surda a receber o prêmio de atriz revelação). O roteiro é inspirado na própria trajetória de Miriam, escrito pela irmã Eva, ou seja, um projeto autoral feito em família. A obra trabalha sons alternados com momentos de profundo silêncio para mostrar as relações da personagem na sociedade, explorando de forma sensível temas como autonomia, maternidade, isolamento e comunicação. A própria câmera, com movimentos sutis, privilegia silêncios e gestos, num trabalho primoroso da equipe técnica. O trabalho de Álvaro Cervantes como o marido de Ângela, premiado como melhor ator coadjuvante no Goya, complementa a performance de Miriam com naturalidade, reforçando a dinâmica de um casal que precisa reinventar sua comunicação diante das exigências da vida com um bebê. O longa também recebeu o Prêmio do Público na Mostra Panorama do Festival de Berlim, além de exibições em festivais como Guadalajara, Seattle e Málaga. Estreou no último fim de semana nos cinemas do Brasil, com sessões que contam com legenda descritiva, audiodescrição e Libras via aplicativo ‘Conecta’, reforçando o compromisso da obra com a acessibilidade. A distribuição nas salas é pela Retrato Filmes.
Um dia de sorte em Nova York
É a estreia da semana do Filmelier+, streaming que apresenta ao público filmes de vários países e épocas. Exibido no Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Camera, o longa, de 2025, é um íntimo retrato sobre a imigração numa das maiores cidades do mundo, Nova York. O filme acompanha 48 horas na rotina de Lu (Chang Chen), jovem chinês que acaba de se instalar em Manhattan e consegue um emprego como entregador de comida. Nas primeiras horas nas ruas, sua bicicleta elétrica é furtada, e ele então corre contra o tempo para localizar sua principal ferramenta de trabalho. Está para chegar na cidade sua família (esposa e a filha), e Lu acaba de ter uma séria discussão com o proprietário do apartamento que alugou – ou seja, seu dia não pisca para a sorte. O filme acompanha esses momentos angustiantes e decisivos na vida de Lu, que luta por dignidade e reconhecimento. É uma visão amarga de Nova York, da cidade que não dorme, focando na figura de um homem dividido entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando sob chuva e frio para propiciar condições mais dignas para a família. Partindo da ideia central do clássico neorrealista “Ladrões de bicicleta” (1948), o primeiro longa do diretor coreano-canadense Shi-Zheng Chen é uma adaptação para o cinema de seu curta-metragem premiado em Cannes e Toronto, “Same old” (2022), sobre a rotina de um entregador em Nova York. Conta com um ótimo trabalho de Chang Chen, de “Duna”, nua interpretação sem exageros ou melodrama – ator e diretor foram indicados ao Film Independent Spirit Awards deste ano pelo filme. Assisti, gostei e recomendo.
Mortal Kombat 2
Está nos cinemas desde semana passada (e indo bem de bilheteria) a continuação de “Mortal Kombat” de 2021, com assinatura do mesmo diretor, produtor e elenco. E o filme supera o anterior, em um longa empolgante, enérgico, que não dá fôlego nem um só minuto. Prepare-se para ação e adrenalina até dizer chega nessa sequência que prossegue no novo universo da franquia de jogos de videogame dos anos 90 “Mortal Kombat”, trazendo finalmente o torneio oficial de Mortal Kombat para o centro da trama. Com a chegada de personagens aguardados como Kitana e Quan Chi, o filme mergulha fundo na mitologia dos reinos orientais, explorando Outworld (a Exoterra) com cenários grandiosos e um design que mistura fantasia épica e brutalidade. A estética é marcada por efeitos visuais de última geração, que tornam os poderes dos lutadores mais impactantes e por figurinos que equilibram fidelidade aos jogos com uma abordagem cinematográfica sofisticada. A história se concentra na preparação dos guerreiros da Terra para enfrentar Shao Kahn (um vilão sinistro, com sua armadura fortificada e capacete de esqueleto), elevando o nível de ameaça e tensão. O filme é uma sucessão de batalhas, coreografadas com atenção ao detalhe, incluindo fatalities que homenageiam o clássico jogo. Kitana, Sonya Blade, Liu Kang, Kano, Shang Tsung, Jax e Raiden retornam à trama (interpretados por outros atores), e aparece agora em destaque Johnny Cage (que não aparecia no anterior e aqui é interpretado por Karl Urban), além de Baraka, um guerreiro feroz da tribo Tarkatan, conhecido por sua agressividade, boca enorme com dentes afiados e lâminas nos braços. Diferente da primeira parte, a narrativa é mais coesa, dando protagonismo aos personagens já conhecidos, e tudo num ritmo frenético. Outras homenagens são diretas ao jogo clássico dos anos 90: a trilha sonora e cenários como a ponte cercada por ácido verde. Bom entretenimento para se ver na tela grande.
Aqui não entra luz
Estreando no cinema, a diretora Karol Maia realiza um documentário que nasce de uma experiência íntima e profunda: filha de uma ex-empregada doméstica, ela transformou memórias pessoais em investigação sobre o trabalho das domésticas no Brasil. O documentário independente reúne relatos de diversas mulheres que atuaram ou atuam no setor, e seu filme abre reflexões de como marcas da escravidão ainda aparecem nos lares contemporâneos. Com a câmera em punho e enfoque nos rostos das personagens, ela percorre São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, colocando as entrevistadas em lugares de destaque; elas falam sobre a profissão de doméstica, do preconceito, da relação com patrões e com a família. A ideia do “quarto de empregada” (aquele quartinho pequeno, isolado, com pouca ventilação, que muitos apartamentos e casas possuíam) simboliza no filme a velha lógica colonial da senzala e a Casa Grande – algo com frequência citado no doc. A pesquisa de Karol, de abordagem antropológica e sociológica, iniciou-se em 2017; agora pronto, a obra revela como a arquitetura e o cotidiano naturalizam desigualdades históricas. Karol narra em primeira pessoa, articula histórias pessoais, outras de pesquisa e reportagens lidas, e escuta atentamente às experiências de várias mulheres e seus familiares. Filmes como este servem de estudo sobre trabalho informal, exploração e precarização na sociedade atual, por isso indico todos e todas a assistirem. Produzido pelo Apiário Estúdio Criativo, com coprodução da Surreal Hotel Arts, venceu dois prêmios especiais no Festival de Brasília de 2025, e agora está nos cinemas, distribuído pela Embaúba Filmes.
Artacho Jurado: Sinfonia de um arquiteto
Nos últimos três anos foram produzidos três documentários brasileiros sobre arquitetura, tanto sobre a história por trás de edifícios imponentes, como “Pele de Vidro” (2023) e “Copan” (2025), quanto sobre as personalidades criadoras, no caso este que acaba de estrear nos cinemas, “Artacho Jurado: Sinfonia de um arquiteto” (2026), com direção da dupla Pedro Gorski e Teresa Eça. Assisti sem pretensão e saí com a impressão de ter visto um dos melhores documentários do ano, um filme vivo, didático, imersivo e com boas histórias ali contadas, que ensina sobre a arquitetura no Brasil pelos olhos de um genial esteta do ramo, João Artacho Jurado (1907–1983). Autodidata, sem formação acadêmica, filho de anarquistas espanhóis, levantou edifícios icônicos em São Paulo, que ainda são objetos de estudo, como o Bretagne, o Viadutos, o Louvre, o Saint Honoré e o Cinderela, prédios que desafiaram o modernismo com cores, formas orgânicas e espaços de convivência incomuns. Com ampla visão publicitária (área que seguiu por um período), Jurado deixou marcas profundas na paisagem urbana de São Paulo. Foi com sua construtora Monções, a partir de 1946, que desenvolveu projetos de estilo modernista com referências clássicas e art déco, voltados à classe média. O filme acompanha seu processo de criação, com uma montagem sinfônica, juntando arquitetura, cinema, música clássica (que Jurado adorava) e poesia, em depoimentos de familiares, jornalistas, pesquisadores no assunto, arquitetos e amigos, além de moradores de edifícios que ele projetou, que abrem seus lares para mostrar na prática o que Artacho havia elaborado e que deu muito certo (como as vistas contemplativas, entradas de ar com cobogós, arquitetura com desenhos ousados etc). O filme foi realizado pela Pink Flamingo, com coprodução do Canal Curta!, patrocínio do Itaú e distribuição nos cinemas pela Kajá Filmes.
Tambor sem fronteiras
Documentário da gaúcha Adriana Gonçalves Ferreira que trata do candombe, manifestação afro-uruguaia marcada pelo som dos tamboriles (tambores) de pele única, composto por três instrumentos fundamentais - piano (grave), repique (tenor) e chico (contralto), profundamente enraizada na história do Uruguai, onde é considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2009. Criado no período colonial (entre os séculos XVIII e XIX) por populações escravizadas de origem bantu, o candombe é um cortejo com dança e ritmos carnavalescos, que inclui figuras como a Mama Vieja (matriarca), o Gramillero (curandeiro) e o Escobero (quem abre caminho), muito visto em Montevidéu e no interior do Uruguai, mas também em regiões dos pampas do Rio Grande do Sul. Por isso o documentário acompanha músicos dos dois países, na fronteira Brasil e Uruguai - as filmagens ocorreram em cidades gaúchas e uruguaias, fruto de intercâmbio cultural iniciado em 2015 pelo projeto Pampa Sem Fronteiras; e dessa troca nasceu um grupo importante de resistência que leva o candombe para todos os lugares, Grillos Candomberos de Bagé, que aparece no filme. Produzido pela Finish Produtora, o filme estreou em duas cidades do Rio Grande do Sul após exibição no 17º Festival Internacional de Cinema da Fronteira (em Bagé), Bagé e Porto Alegre, e no próximo dia 19 será exibido em Santa Maria (RS), com sessão gratuita e comentada pela equipe do longa. Um documentário musical independente de grande valor artístico/cultural.
Nino de sexta a segunda
Em exibição nos cinemas (pela distribuidora Filmes do Estação), o drama francês premiado no César e exibido nos Festivais de Cannes e Toronto acompanha quatro dias na vida de um jovem que é diagnosticado com câncer após um exame de rotina devido a uma dor de garganta. Nino recebe a notícia numa sexta-feira e fica perplexo; ele passa o fim de semana, até segunda-feira, preparando-se para o tratamento e lidando com expectativa, ansiedade e medos. A ficha demora a cair, Nino não compreende a situação delicada em que está (mas a única coisa que resta a ele é aceitar e fazer o tratamento). Nino resolve contar para as pessoas próximas, como a mãe e alguns amigos. O filme é uma jornada de emoções de um personagem solitário cruzando ruas e distritos de Paris refletindo uma dor que o atravessa. É um filme íntimo, que capta o que acontece ao redor daquele protagonista vagando pela cidade – pessoas dançando em boate, a agitação das ruas da capital, ele de bike olhando pela paisagem, enquanto sua mente tenta abstrair a notícia da doença. Serão dias decisivos para Nino nessa caminhada de descobertas e reflexão sobre morte, vida, e tudo o que ele cultivou até então. Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2025, deu a Théodore Pellerin o prêmio de ator revelação (realmente um trabalho impressionante desse jovem ator canadense nascido na parte francesa, em Quebec, num filme todo dele). Lembra, mas é menos amargo que “É apenas o fim do mundo” (2016, de Xavier Dolan), uma fita que gosto muito, também sobre um jovem com doença terminal visitando família e amigos para contar a notícia estarrecedora. Exibido ainda nos Festivais de Toronto e do Rio, venceu o César de melhor primeiro filme (para a diretora Pauline Loquès) e também de ator revelação.
Era uma vez minha mãe
Novo título da California Filmes que entra nos principais cinemas brasileiros, a dramédia francesa coproduzida no Canadá é um bonito filme familiar, baseado na autobiografia do advogado francês Roland Perez, hoje um importante jurista. O título faz referência à mãe dele, Esther, uma mulher judia agarrada a princípios que a levaram até o fim a cuidar do filho – Roland nasceu com uma deficiência no pé que dificultava sua locomoção, e com auxílio da mãe, superou preconceitos e conseguiu estudar e se formar em Direito. São décadas na relação entre os dois, dos anos 60 até o presente; em uma família falante e agitada, Roland nasceu sob proteção daquela mãe que não media esforço em integrar o filho aos amigos do condomínio onde moravam e levá-lo no colo para passear pela cidade (já que ele não conseguia andar bem). O menino tem como fã a cantora popular da época Sylvie Vartan – ele canta suas músicas, tenta dançar como ela e sonha em encontrá-la (na trilha sonora do filme, há várias músicas da cantora, como “Irrésistiblement”, e Sylvie aparece numa rápida ponta como ela mesma, além de cenas dela antigas de TV). São vários atores interpretando Roland nas diferentes fases da vida do personagem (Gabriel Hyvernaud o faz dos 3 aos 5 anos, Naim Naji, dos 5 aos 7, Noé Schecroun, dos 11 aos 13, até a fase adulta, interpretado pelo bom ator Jonathan Cohen, de “Bastardos inglórios”). A mãe é encenada por Leïla Bekhti, atriz francesa de origem argelina, de “O profeta”, num papel acolhedor e reluzente, alternando momentos de drama e humor (a atriz foi indicada aqui ao César na categoria). É escrito e dirigido por Ken Scott, do filme inspirado em fatos reais “Meus 533 filhos” (2011, depois adaptado para uma versão americana com Vince Vaugh, “De repente pai”). Conta com bom trabalho de direção de arte, que refaz as décadas de 60 e 70 com todo aquele brilho, cores vibrantes e roupas extravagantes. Um filme sensível e agradável sobre uma mãe lutando contra tudo e todos para dar o melhor a seu filho.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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