ESTREIAS DO MES - NOS CINEMAS E STREAMINGS

Varios filmes num cinema perto de voce ou na sua casa!

16/09/2026 05:08 Por Felipe Brida
ESTREIAS DO MES - NOS CINEMAS E STREAMINGS

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A quinta portuguesa

Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura, jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer). Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros), uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade. Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica, no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil” (2022).

 

Não existe almoço grátis

Chega aos cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas. Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza, Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória.

 

Viva Marília

Fantástico documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra (1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV), também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté – Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta, filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.

 

Gonzaguinha – Da maior liberdade

Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution.

 

Anistia 79

Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Nos cinemas pela Embaúba Filmes.

 

Nem tudo é paz e amor

Documentário brasileiro que retorna para a itinerância do festival In-edit nesse mês, ao mesmo tempo em que estreia nos principais cinemas pela Pandora Filmes. O filme é uma conversa com os filhos dos músicos da Contracultura no Brasil, reunindo entrevistas inéditas com os primogênitos de oito deles: Caetano Veloso (Moreno Veloso), Rita Lee (Beto Lee), Baby Consuelo (Sarah Sheeva), Paulinho Boca de Cantor (Maria "Buchinha"), Itamar Assumpção (Anelis), Moraes Moreira (Cecília), Gilberto Gil (Nara Gil) e Rogério Duarte (Areia Duarte). Com momentos de descontração, mas também de lembranças pesadas e de sofrimento, o doc é um recorte da contracultura na música e no cinema no Brasil, em que os entrevistados recordam dos traumas e das delícias de viverem aquele tumultuado período. Ainda crianças na virada dos anos 60 para 70, os entrevistados cresceram e se formaram sob a influência direta dos movimentos de contestação comportamental, artística e política do período, uma geração de homens e mulheres criados em comunas, acampamentos e núcleos alternativos e hippies que questionavam as estruturas tradicionais da família e o autoritarismo da época (o Brasil viva sob os desmandos da Ditadura Militar). Há cenas antigas de filmes caseiros em super-8, cenas de shows e bastidores, trechos de filmes que marcaram aqueles anos, como “A mulher de todos”, “Deus e o diabo na Terra do Sol” e “A idade da Terra”, e muitas fotos pessoais dos acervos dos referidos cantores, cantoras e compositores, reunindo ainda depoimentos de Helena Ignez, Baby do Brasil, Marilia de Aguiar e Paulinho Boca de Cantor (estes dois pais do diretor do filme, Betão Aguiar). O filme foi dedicado à memória da produtora Jasmin Pinho, também filha da contracultura, que iniciou o projeto do documentário, mas faleceu em 2020 - ela era amiga pessoal de Betão, o diretor, então o filme ficou para ele dar continuidade. Um grande documentário em exibição no In-edit e nas salas de cinema.

 

O delator

Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang” (informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades, manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de "tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas, aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play.

 

Amelia Toledo – Lembrar de não esquecer

Documentário brasileiro de Hélio Goldsztejn que, pra mim, foi um dos melhores lançados em festivais de cinema em 2025 (o assisti na Mostra de SP). A obra joga luzes sobre a carreira da artista plástica e escultora Amelia Toledo (1926-2017), uma artista inquieta, que esteve à frente de seu tempo com seu ousado trabalho, considerado por alguns controverso, que reunia elementos da land art e do ready made com ecologia e sustentabilidade, recorrendo a linguagens e estilos variados, como instalações, intervenções, arte interativa e arquitetura moderna. Amélia inovou o ‘fazer artístico’ com materiais como pedras, metal e conchas; foi professora no Mackenzie, na FAAP e na UnB, formando um grupo de alunos pensadores em torno da nova arte que se ergueria no Brasil a partir dos anos 60. O doc reúne entrevistas antigas e recentes dela para emissoras de TV, de depoimentos dos filhos, dentre eles o pintor Moacyr Toledo, e de amigos artistas. É um compilado de histórias fabulosas em que conhecemos a fundo a alma dessa mulher sonhadora e autêntica, que transformou sua casa em ponto de encontro de intelectuais e bateu de frente, como muitos de sua geração, com a Ditadura Militar. O longa estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Bretz Filmes.

 

Champagne - Uma viagem de pai e filho

Simpático road movie holandês sobre reconexões familiares, que parece ter saído das antigas sessões da tarde de semana da Globo. Espirituoso, apoia-se em um roteiro simples, de narrativa delicada sobre a relação entre pai e filho, marcada por diálogos bem humorados, além de reflexões existenciais. Na história, um homem maduro chamado Maarten (Leo Alkemade) descobre que o pai, Hans (Huub Stapel), está com câncer em estágio avançado. Aconselhado por um amigo, Maarten convida o idoso para uma última viagem: levá-lo para a região francesa da Champanhe, lugar que Hans sempre quis visitar. Os dois partem para lá de carro, cruzando a Holanda e a França, rumo à famosa província mundialmente famosa pelos vinhos espumantes (bebida preferida do idoso). A viagem, inicialmente estranha, já que nunca ficaram tanto tempo juntos, torna-se uma jornada de celebração à vida e de profundas conexões humanas. A comédia dramática tornou-se uma das maiores bilheterias na Holanda desse ano, marcando um novo rumo na trajetória do astro comediante de lá Leo Alkemade, interpretando um dos poucos papeis dramáticos. Tanto ele quanto o veterano ator Huub Stapel estão muito bem, cada um com seu peculiar papel. Alkemade também é o roteirista do filme, cuja história é baseada na própria relação que teve com o pai, e em uma viagem que faria com ele para a França (mas que não deu certo, pois o pai morreu). Agora, na ficção, a viagem entre os dois existiu, viagem esta que funciona como metáfora para o percurso interno dos dois personagens, envolvendo reconhecimento mútuo, acertos e confrontos que revelam fragilidades e afetos. Um filme bonito, fácil de se emocionar e ser conquistado por ele, que está nos principais cinemas brasileiros pela Autoral Filmes.

 

Coração partido

Produção russa, com equipe praticamente toda de lá (como direção e elenco), o filme romântico é uma adaptação do best-seller “Your heart will be broken”, de Anna Jane. É um drama juvenil morno, piegas, sobre uma adolescente, Polina, que se muda para outra cidade após a mãe iniciar um novo relacionamento. No colégio (o filme quase todo se passa nesse mesmo ambiente), ela se torna alvo de bullying - até que o jovem misterioso Bars, aluno temido, decide protegê-la fingindo ser seu namorado. O que começa como um namoro de fachada evolui aos poucos para um amor genuíno, porém de altos e baixos, marcado por vulnerabilidade e amadurecimento. No livro e no filme exploram-se dilemas da juventude, conflitos, ciúmes, questões afetivas e desarranjos no romance, para manter o público envolvido na evolução daquela relação. Para mim não funcionou, não me envolveu e achei tudo forçado, sem harmonia. O elenco é liderado pela russa Veronika Zhuravleva (Polina) e pelo inglês Daniel Vegas (Bars), um casal sem química, que faz das tripas coração para agradar os jovens românticos que estão na poltrona dos cinemas. Estreou nas salas brasileiras com distribuição da Paris Filmes.

 

Queda livre: As consequências do Caso Boeing

Novo documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre: A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves: portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019 - o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro, outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos, muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014) e que havia realizado o filme anterior.

 

Song Sung Blue – Um sonho a dois

Drama musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina (1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista). Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond, Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora, um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am... I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição no Brasil pela Universal Pictures).

 

 

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com

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