Refinamento e Popularidade em Manuel Bandeira

O poeta Manuel Bandeira construiu sua popularidade nos tempos em que o universo cultural brasileiro tinha algum dom de refinamento

12/09/2026 05:06 Por Eron Duarte Fagundes
Refinamento e Popularidade em Manuel Bandeira

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O poeta Manuel Bandeira construiu sua popularidade nos tempos em que o universo cultural brasileiro tinha algum dom de refinamento. Carnaval (1919) foi um de seus livros iniciais de poesia. Mas começa com uma estranha “Epígrafe” que se parece com um destes microcontos-parábola quase kafkianos: “Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente — se eu a reconhecia?” É um flagrante carnavalesco, pois o carnaval mesmo é coisa brasileira. “O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia que do seu ar de extrema penúria.” Mas o Carnaval de Bandeira é esquisito para o mundo brasileiro: “—O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...”.

A despeito de seu rigor, de sua inventividade com as palavras, Bandeira é um de nossos mais recitados homem de versos, talvez se tenha plasmado mesmo numa época favorável a isto e veio vindo décadas afora. Mas dificilmente cairia no gosto popular algo assim: “Era uma estranha vulgívaga.” Embora, por sonoridade, se ouça por aí: “Veste-o uma túnica inconsútil.” Uma vestimenta de época: túnica inconsútil, do substantivo ao adjetivo algumas incógnitas. A dama antiga, a Dama Branca era essa vulgívaga, pré-Rosa, ecos latinos: “A Dama tinha capricho físicos: / Era uma estranha vulgívaga.” Vulgívaga: vulgar e vaga, como em vagabunda, que certa vez uma mulher me definiu como “uma mulher de bunda vaga”. Não sei se esta palavra foi catada pelo poeta em algum alfarrábio ou ele a inventou, hoje a encontro em dicionários, mas fora dali só em dois poemas de Bandeira, um deles traz o título “Vulgívaga” (neste volume de Carnaval), que põe versos de paranoia da linguagem assim:

“E o cio atroz se me não leva

A valhacoutos de canalhas,

É porque teme pela treva

O fio fino das navalhas...” (aqui, sons simbolistas)

Há muito erotismo no universo de Bandeira; mas o erótico nele tem extremo refinamento estilístico, talvez o mais alto alcançado na literatura brasileira.

‘Quando em silêncio a casa adormecia e vinha

Ao meu quarto a aromada emanação dos matos

Deslizantes astuta, amorosa e daninha,

Propinando na treva o absinto dos contatos.”

(In “O súcubo”)

Apontado como um parnasiano tardio, aceito pelos modernistas como um dos seus, Bandeira transita, como os prosadores José Geraldo Vieira e Cyro dos Anjos, na confluência (estilística e linguística) de dois séculos, o mundo das palavras do século XIX e a incipiente convivência com o excesso de imagens já no preâmbulo do século XX. Como poucos, Bandeira sabe dar profundidade e sensibilidade literárias a situações triviais: como neste maravilhoso “Pierrot místico”, onde lemos na quinta estrofe:

“Insensato aquele que busca

O amor na fúria dionisíaca!

Por mim desamo a posse brusca:

A volúpia é cisma elegíaca...”

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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