A Personagem e os Espacos Interrompidos em Carax
O espaco cinematografico criado em Sangue Ruim radicaliza a descontinuidade, que se estende a construcao psicologica da personagem
As referências críticas ao cinema do francês Leos Carax estão hoje bastante abaixo das ambições do cineasta. Pouco conhecido entre nós, Carax desenvolve uma forma de filmar irrequieta em sua estrutura. Um antigo filme de Carax, o segundo que ele realizou, Sangue ruim (Mauvais sang; 1986), pode fornecer algumas chaves essenciais para a compreensão de suas complexas e aparentemente irregulares construções narrativas. Aquilo que fica em aberto em obras como Holy motors (2012) e Annette (2021) se materializam bem em Sangue ruim, expondo as origens do processo fílmico de Carax. Estas origens estão no grande movimento francês de revolução formal, a nouvelle vague, especialmente o grande mentor das inovações de estilo, o franco-suíço Jean-Luc Godard. Sangue ruim paga um certo tributo a Acossado (1960), de Godard, mas vai além: a corrida final da personagem duma jovem Juliette Binoche, com sua voz ainda de muito menina, pode nascer daquela corrida que Jean-Paul Belmondo faz no cabo do filme de Godard, mas tem um outro desenvolvimento, é um outro tipo de alegria de filmar. Em momento algum Carax glamuriza o rigor experimental de sua imagem. Esta vontade de ir para algum lugar, rumo do mar como se verá, remete também à corrida final do pequeno ser vivido por Jean-Pierre Léaud em Os incompreendidos (1959), de François Truffaut. De Truffaut as múltiplas relações sentimentais, cruzando sexos, há também algo de Jules e Jim (1961). Em Carax, com a Binoche, há uma outra coisa que surge nestas alusões: algo original, sem a pasteurização dos plágios.
Sangue ruim, cujo título original francês saiu do poema de Arthur Rimbaud, uma leitura de influência no cinema de Carax, como agora se pode perceber, traz coisas de sua época, metade dos anos 80. Ao longo do filme, as personagens referem a passagem do cometa Halley em torno da terra: de fato, era motivo de conversa o tal Halley. Este cometa, no filme, e também na vida de então, trazia algumas premonições: o amor sem sentimento, só sexual trouxe um vírus para entre as pessoas. Naquele ano de 86 havia por aí a AIDS, a terrível doença sexual, então mortal, mas não estava tão espalhada como ocorreria mais para o fim da década. Sangue ruim lida com estes dados com muita criatividade, e o filme, visto hoje, está longe de dar os aspectos datados destas coisas; é tudo transformado em alegorias ou parábolas que sobrevivam à passagem dos anos. Como num filme de Godard, o roteiro em Carax tem pouca importância, é quase um antirroteiro. A essência do cinema de Carax, observada pelos filmes que se puderam conhecer por aqui e apresentada como chave de compreensão em Sangue ruim, são os espaços e as personagens interrompidos pelos bruscos sistemas de corte do realizador; o cineasta justapõe imagens que se vão bifurcando ao ponto de propor um diálogo —entre as imagens— que parece feito de estilhaços-cinema. O espaço cinematográfico criado em Sangue ruim radicaliza a descontinuidade, que se estende à construção psicológica da personagem. O resultado é uma obra única: a despeito de suas origens na nouvelle vague.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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