O Real Transformado: O Cinema Mistificado
Close-up nunca deixa de, em sua forma, direta, objetiva, parecer reproduzir a realidade
Em Close-up (Nomay-e Nazdik; 1990) o cineasta iraniano Abbas Kiarostami atinge, sem que o espectador perceba o esforço de sobrepor a imagem à realidade, quase filmando como se estivesse captando o real ao vivo, uma câmara oculta desconhecida dos elementos da ação, ao modo do francês Jean Renoir, a mistificação da realidade cinematográfica. A história “acompanhada” pela lente fílmica de Kiarostami em Close-up parte duma mistificação, uma falsidade mesmo: despertado pela notícia de que um anônimo se fizera passar pelo conhecido cineasta Moshen Makhmalbaf (talvez o nome mais festejado do cinema iraniano depois do próprio Kiarostami), o realizador vai atrás das pessoas que viveram tal história tão esquisita quanto ingênua (parece uma daquelas brincadeiras, não de adultos, mas de crianças) e se propõe reencenar os episódios ao mesmo tempo em que filma os eventos atuais, ou reencenados, não importa, a prisão, o julgamento.
A prestidigitação de Kiarostami no uso de seus artifícios em Close-up chega ao ponto máximo na sequência em que Sabzian, o falso Makhmalbaf, sai da prisão, encontra o modelo real de sua personagem (Makhmalbaf), e a câmara finge de esconder-se para os ver nas ruas, e (suma das sumas) o som finge de falhar, aquilo que o crítico Jean-Claude Bernardet chamou de “golpe do microfone”, evocando, por semelhança, o mesmo recurso utilizado pelo também iraniano Jafar Panahi em O espelho (1997), câmara pretendidamente às ocultas, falso som truncado e falho, para simular um (falso) documentário. Em Close-up o artista (Kiarostami) retrata-se em Sabzian, o homem comum: ambos mistificam, são golpistas, adulam a representação duma realidade que não é bem assim, há uma impostura de natureza estética em ambos os casos. Diz Kiarostami: “Por isso gosto mais de Close-up que de qualquer outro filme meu, seja porque a maior parte do tempo sou Sazbian, seja porque mensura o poder do amor.” Em seus profundos ocultos, expressos assim, seria a obra de arte sempre um autorretrato do artista? Quem é Madame Bovary?
Close-up nunca deixa de, em sua forma, direta, objetiva, parecer reproduzir a realidade. Na linha dos aspectos documentais do neorrealismo italiano, influência central de todo o cinema iraniano conhecido por aqui. Em momento algum os gongorismos formais de Jean-Luc Godard fazem das suas no cinema do Irã. As inquietações estilísticas de uma obra como Close-up (que assomam três anos depois das obsessões de busca de Onde fica a casa do amigo?, 1987) ficam no subterrâneo, ocultam-se sutilmente, não desmancham a sensação de realidade que se sobrepõe ao lado de filme-ensaio que a narrativa contém em grau máximo.
Orson Welles discutiu a arte como uma mistificação em Verdades e mentiras de Orson Welles (1973): era uma proposta grandiloquente, à maneira de Welles. Tratava-se de ver o artista como alguém que burla, por sua natureza mesmo: o verdadeiro mistificador —no filme de Welles, os falsificadores de quadros famosos — não deixa de praticar uma forma de arte. Em Close-up volta-se para algo parecido: “nesse caso —como aliás, acontece em muitas outras situações—, o duplo parecia ainda mais original que o original, por ser mais fiel à ideia.”, assevera Kiarostami sobre a relação Sabzian-Makhmalbaf. Welles indaga: o que é arte, o que é um autor em arte, ele existe mesmo? Kiarostami responde com Close-up: a arte é tudo, mesmo o que não parece e acaba sendo revelado pelo engenho de um filme como este, que expressa mesmo certa ideia de seu diretor para o qual são preferíveis “suas mentiras às verdades dos outros, porque as mentiras de Sazbian refletem melhor a sua realidade interior do que a verdade superficial que os outros personagens exprimem a respeito dele”.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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