ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING

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21/04/2026 04:07 Por Felipe Brida
ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING

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ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING

 

A tragédia de Moriah Wilson

Documentário da Netflix em formato de true crime sobre o assassinato da ciclista profissional norte-americana Anna Moriah Wilson, de 25 anos, ocorrido em maio de 2022, em Austin, Texas. Seguindo a linha de docs investigativos que a Netflix se especializou, o filme explora o caso policial que mobilizou toda uma comunidade, desde o desaparecimento da jovem até ela ser encontrada morta na casa de uma amiga. O assassinato rapidamente ganhou repercussão internacional, não apenas pela violência, mas também pela narrativa midiática que cercou o crime. Além da investigação, o documentário traz os diários íntimos de Moriah, cedidos pela família, dando oportunidade ao público de uma visão sobre sua personalidade, ambições e sonhos, transformando o filme num tributo àquela vítima. O resultado é um filme que combina investigação jornalística com sensibilidade, principalmente nos depoimentos de familiares, como a mãe de Moriah, e de amigos próximos, até hoje abalados com a tragédia. Um filme que também serve como denúncia e alerta para a sociedade, já que tantas mulheres acabam mortas de maneira torpe.

Tatame

Raramente vemos um filme de arte persa sobre mulheres no esporte, e esse drama é uma oportunidade única, uma fita de grande beleza artística em um roteiro formidável, conduzido por uma dupla de cineastas de origens diferentes, o israelense Guy Nattiv (vencedor do Oscar de curta-metragem por “Skin”, em 2019) e a iraniana Zar Amir Ebrahimi (também atriz do filme, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por “Holy spider”, em 2022). Eles transformam o esporte em palco para discussões políticas. A história acompanha Leila Hosseini (Arienne Mandi), judoca iraniana que em pleno campeonato mundial é obrigada a escolher entre obedecer ao regime dos aiatolás e abandonar a competição ou fingir uma lesão para não enfrentar uma rival israelense. A decisão carrega peso pessoal e coletivo, já que sua treinadora Maryam (Zar Amir Ebrahimi) também traz consigo duras marcas de experiências semelhantes. Filmado em um bonito preto-e-branco, com câmera próxima e inquieta, em que capta grandes lances de treinos e luta, o longa é uma metáfora da luta por liberdade e dignidade. A protagonista tem de treinar de véu (hijab), já que o Irã restringe mulheres no esporte, e as poucas que vão precisam seguir as leis do país. E o tatame deixa de ser palco esportivo para se converter em arena emocional, onde cada hesitação revela a opressão que sufoca as personagens. Além do drama pessoal, o filme tem toques de suspense, numa das primeiras coproduções Irã e Israel, dois países hoje em guerra. Exibido nos festivais de Tóquio e Munique e na mostra Horizons do Festival de Veneza, onde recebeu um prêmio humanitário, “Tatame” é um filme simbólico sobre luta, respeito e empoderamento feminino, que abre fortes discussões políticas sobre o regime autoritário do Irã quanto a restrição às mulheres. Estreou semana passada nos cinemas brasileiros, pela Kajá Filmes.

À paisana

Primeiro longa dirigido e roteirizado por Carmen Emmi, jovem cineasta americano, mas de origem italiana, cuja trama lembra um filme polêmico do comecinho dos anos 80, que até foi censurado em alguns países, “Parceiros da noite”, de William Friedkin, com Al Pacino. Em ambos há um diálogo aberto da perseguição e vigilância contra homossexuais – enquanto o primeiro trazia a cena underground da Nova York suja, “À paisana” tem o ar moderno e jovial dos shoppings centers, onde boa parte da história se centraliza. Nela vemos o jovem policial Lucas (Tom Blyth, da série “Billy the Kid”) relembrando um passado recente que gostaria de esquecer, quando trabalhava disfarçado em um shopping, seduzindo homens dentro de banheiros, para prendê-los por “exposição indecente”. Ele estava sempre à paisana, de boné para esconder o rosto, flertando com os indivíduos para laçá-los numa armadilha. O problema é que num desses casos, aparentemente comuns, ele se apaixona pelo alvo, o bem intencionado, afetuoso e mais maduro Andrew (Russell Tovey, de “A grande mentira”). Entre os dois haverá uma relação sigilosa, que fará com que Lucas se divida entre o dever e o desejo. O filme começa com uma subtrama sem muito a ver, que depois se explica, de Lucas, no Ano Novo, buscando uma carta na casa da mãe (Maria Dizzia, muito bem no filme, atriz de “Martha Marcy May Marlene”). A incessante busca o levará para memórias sufocantes (ou seja, o filme é contado por flashbacks, mostrando o peso do passado de um personagem no limite). Com um misto de drama e thriller de forte tensão psicológica, o longa foi super comentado no circuito independente de cinema em 2025, quando ganhou o prêmio especial do Júri no Festival de Sundance. Agora entra com exclusividade no streaming do canal Filmelier+.

Ruas da Glória

O cineasta carioca Felipe Sholl escreve e dirige esse seu segundo filme, sete anos depois de se lançar com o bom drama “Fala comigo” (2017), que tratava dos obstáculos do relacionamento entre um garoto de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Sholl agora se volta ao submundo da noite das ruas do bairro da Glória, no Rio de Janeiro, onde a prostituição é palco e trânsito de pessoas de diferentes idades. Ali, o jovem professor de literatura Gabriel (Caio Macedo) conhece Adriano (Alejandro Claveaux), garoto de programa uruguaio que auxilia na chefia dos pontos. A paixão entre os dois é avassaladora, que se transforma em obsessão. Eles passam a viver juntos, até o dia em que Adriano desparece, sem deixar vestígios. Gabriel sai pelo Rio na tentativa de obter um paradeiro que o leve ao seu amor. A interpretação dos dois atores centrais é o ponto alto desse filme de classificação 18 anos, que traz cenas fortes de sexo e revela um Rio pouco registrado no cinema, da prostituição noturna. O longa é uma espiral de emoções na vida de um garoto que acaba de se mudar para aquela cidade e em poucos dias se vê preso num relacionamento cansativo e abusivo, até ser acolhido pela nova família, o dos meninos de programa. Temas como solidão, necessidade de conexão, identidade, rejeição e amadurecimento estão entrelaçados em uma história que passa longe de romance tradicional e final feliz; é um drama duro, realista, em um contexto de insegurança e violência, com imagens marcantes (a estética noturna é outro tom maior do filme). Além dos atores mencionados, completam o excelente elenco a cantora trans Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini e participações especiais de Daniel Rangel, Ernesto Piccolo, Edmilson Barros e Wilson Rabelo. Depois da carreira em festivais mundiais, como Tallinn, Rio e Mostra de SP, o filme, assinado pela Syndrome Films, com produção de Daniel van Hoogstraten, em coprodução com RioFilme e Telecine, estreia nos cinemas com distribuição da Retrato Filmes.

A cronologia da água

Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, e no Brasil no Festival do Rio do ano passado, “A cronologia da água” marca a estreia da atriz Kristen Stewart na direção, uma atriz que começou bem jovem em filmes teenagers bobocas, com o tempo amadureceu bem e agora atinge o ápice da carreira atrás das câmeras. Seu trabalho é uma adaptação do livro de memórias da escritora norte-americana Lidia Yuknavitch, reconhecida por sua escrita visceral, sem meio termo, com obras amargas que exploram temas como sexualidade, traumas e desejos. O filme procura uma relação direta com o livro, cujo tom é forte, difícil, já que traz experiências intensas de Lidia que envolvem abusos e inseguranças. Kristen faz uma obra extremamente sólida e madura, transformando violências em matéria artística. Como é uma obra autoral e biográfica, quem interpreta Lidia é a inglesa Imogen Poots, de “Sala verde” (2015), num papel complexo e de insuportável dor. Ela é uma mulher que vive se autossabotando e pensa em suicídio, por ter sido atravessada por abusos na infância e adolescência (um deles foi o abuso sexual do próprio pai). Ela tem uma relação conflituosa com o próprio corpo e por vícios que marcaram a fase adulta. Prostrada em uma banheira, ela reflete o passado – e o filme explora por dentro da mente dela, aparecendo flashes, luzes, cenas disformes e apagadas de uma criança assustada, de uma adolescente triste, os lapsos vêm e somem. Na natação, Lidia encontra um jeito de superar a realidade, uma espécie de conforto momentâneo para enfrentar o caos interno. Não é uma cinebiografia tradicional, com começo, meio e fim; tudo é fragmentado, com esses lances e flashes que aparecem na tela, tipicamente uma linguagem experimental, até com poucos diálogos. Tudo é sensorial no filme, rodado em 16 milímetros, cuja fotografia é marcada por uso intenso de closes. Kristen Stewart confessa que é uma obra autoral de difícil acesso, com ritmo rápido e sons minimalistas, aproximando-se da forma como lembranças surgem e desaparecem. Incômodo, impactante, pode ser uma experiência aflitiva para parte do público, porém é inegável o talento e o domínio da forma e do conteúdo de Kristen. Está em exibição nos cinemas com distribuição do Filmes do Estação.

Relay: Contrato perigoso

O novo trabalho do diretor David Mackenzie, de “Sentidos do amor” (2011) e “A qualquer custo” (2016), é um thriller cabeça, cheio de peças embaralhadas que vão se juntando ao longo da trama, cujo elenco é liderado pelo ganhador do Oscar Riz Ahmed (de “O som do silêncio”). Ele faz Ash, um corretor que atua em empresas acusadas de corrupção, cujo trabalho é resolver seus problemas (um “fixer”). Nos bastidores desse submundo do crime, pessoas e corporações estão sob vigia e ameaça, e também por isso Ash precisa manter a identidade em segredo. O trabalho para ele é bem lucrativo no final das contas, por não ter concorrentes. Até que tudo vira um caos quando conhece uma nova cliente que precisa de proteção, mesmo que para isso Ash tenha de se envolver em uma complexa trama que colocará sua vida em risco. A narrativa se desenrola entre ele e o trabalho que realiza diante do computador, num jogo de cena de um personagem só em meio a um negócio de perigo constante. O trabalho de Riz Ahmed é central para o filme: sua interpretação transmite a frieza calculada de um homem que vive de segredos, e ao mesmo tempo confrontado com dilemas éticos. Lily James, Sam Worthington, Matthew Maher, Victor Garber e Willa Fitzgerald completam o elenco de peso, trazendo densidade às interações que cercam o protagonista (que é um típico anti-herói). “Relay” tem uma atmosfera de suspense psicológico que se sustenta na tensão entre anonimato e exposição, mostrando como o poder pode depender de escolhas silenciosas. Exibido no Festival de Toronto em 2024, chega agora no streaming da HBO Max.

Histórias de Taipei

Está disponível de forma gratuita na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026, um grande trabalho do falecido cineasta chinês Edward Yang (1947-2007), nome fundamental da Nouvelle Vague daquele país. O filme está na versão restaurada em 4K pela The Film Foundation (organização sem fins lucrativos criada por Martin Scorsese em 1990, dedicada a proteger e preservar a história do cinema mundial, e que já restaurou mais de 1.100 filmes em parceria com arquivos e estúdios), juntamente com o Taiwan Film Institute. É um retrato melancólico da transição de Taiwan nos anos 1980, marcado pela tensão entre tradição e modernidade. Ah-chin (Chin Tsai) é uma mulher que busca um futuro em meio ao labirinto urbano de Taipei, a capital de Taiwan, uma ilha considerada pela China como território dela. O namorado Lung (papel do ator e diretor Hsiao-Hsien Hou) é um ex-jogador de beisebol que atualmente trabalha em uma loja de tecidos, muito ligado à família. Ele vive de memórias, enquanto ela visualiza o futuro. O contraste entre o desejo de avançar e a incapacidade de romper com o passado reflete a própria cidade de Taipei em ampla transformação, acelerada pela globalização. O filme é de 1985 e o retrato é daquele período mesmo, quando Taiwan passava por uma mudança radical em suas estruturas, evoluindo de uma sociedade agrária que ficou sob lei marcial por 40 anos, num regime ditatorial de partido único, para alcançar uma das posições de “Tigres Asiáticos” (com grandioso desenvolvimento econômico e industrial). O filme acompanha esse momento e abertura política de Taiwan, marcando o fim de décadas de regime autoritário e o início da democratização política – no filme os personagens dançam sob o som de Tina Turner, consomem produtos americanos, ou seja, a globalização entrou de vez no país. A fotografia de Wei-Han Yang, indicada ao Golden Horse Award, reforça a atmosfera de desencanto e mudanças. O longa foi celebrado pela crítica como um marco estético e temático, tendo Edward Yang como um dos mentores da Nova Onda do Cinema de Taiwan, em uma obra que trazia temas recorrentes de sua carreira, como choque entre gerações, a fragmentação das relações humanas e a busca por identidade em uma nova sociedade. Exibido no BFI London e nos festivais de Locarno, Edinburg, Tóquio e São Francisco. Disponível no Sesc Digital, em https://sesc.digital/home

Aisha não pode voar

Falado em árabe e coproduzido em sete países (Egito, Tunísia, Catar, França, Arábia Saudita, Sudão e Alemanha), o poderoso filme de arte é um drama que expõe a vulnerabilidade de uma imigrante sudanesa no Cairo, que trabalha como cuidadora de idosos e se torna vítima atroz de todas as mazelas da sociedade, como pobreza e exploração sexual. A direção do jovem cineasta egípcio - e estreante, Morad Mostafa, transforma o cotidiano de uma mulher em denúncia social, cuja interpretação de Buliana Simon (também estreante), a Aisha do título, transmite a resignação da personagem, que pouco fala e mais observa seu redor. A personagem de 26 anos sofre com problemas financeiros, e para complicar inicia um relacionamento tumultuado com um rapaz egípcio (que logo descobre ser de uma gangue). A relação respinga em ameaças de bandidos locais e assédio de clientes. O título simboliza a impossibilidade de Aisha em escapar de uma realidade sufocante, onde cada tentativa de mudança parece bloqueada – em determinado momento, ela brinca com uma máscara do Batman (que é o pôster do filme), alusão à transformação dela em super-heroína para escapar das amarguras. O filme mostra não apenas a luta individual de uma mulher sob risco, mas também o retrato dos imigrantes africanos vítimas de injustiça social. Mostafa dirige uma história nua e crua, apostando em uma estética realista, com fotografia que mistura penumbras do interior da casa que Aisha trabalha com paisagens noturnas do submundo de uma Cairo opressora. Exibido em Cannes nas mostras Golden Camera e Um Certo Olhar, está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.

O Caravaggio perdido

Documentário precioso que procura desvendar um novo mistério no mundo das artes plásticas: a localização em uma casa de um quadro possivelmente assinado por um dos grandes nomes da pintura mundial e expoente do Barroco italiano, Michelangelo Merisi da Caravaggio, o Caravaggio. Intitulada “The sleeper”, a obra esteve por décadas na parede da sala de estar de uma casa comum em Madrid, como utilitário; de um tempo para cá, aos poucos, historiadores da arte do mundo inteiro se debruçam em estudos sobre ela. Será mesmo de Caravaggio aquele Cristo com semblante triste, empurrado por dois homens? O doc investiga passo a passo detalhes daquela pintura, da textura ao “motivo”, passando pelas imperfeições da tela e desgastes da tinta. Busca uma relação com o mestre do barroco que revolucionou as artes plásticas ao introduzir o uso dramático do claro-escuro e ao retratar figuras religiosas e mitológicas com realismo cru. O filme é envolvente, dá voz a vários estudiosos e pesquisadores da área, mergulhando nos bastidores do mercado de arte, universo marcado por disputas de poder, com colecionadores e falsificadores se cruzando em torno de obras de valor incalculável. Por fim, o filme explora tanto a descoberta daquele quadro quanto as discussões no circuito de arte quando uma peça aparentemente banal se revela um tesouro artístico. Está em cartaz nos cinemas pela Pandora Filmes.

O silêncio de Eva

Em seu novo trabalho, que acaba de estrear nos cinemas (produzido pela Persona Filmes e distribuído pela Encripta), a cineasta mineira Elza Cataldo revisita a trajetória de uma mulher pouquíssimo lembrada hoje, Eva Nil (1909-1990), atriz do cinema mudo brasileiro que brilhou nos anos 1920 e recebeu a alcunha de “Greta Garbo brasileira”. Nascida no Cairo, Eva participou de produções de Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, mas abandonou a carreira cedo demais, dedicando-se à fotografia ao lado do pai, Pietro Comello, em Cataguases (MG), onde viveu até morrer, em 1990. Eva atuou, pelo que se sabe, em dois curtas, dentre eles “Valadião, o Cratera” (1925), de Humberto Mauro, e em dois longas, como ‘Barro humano” (1929), de Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia). O documentário reconstrói a trajetória dela a partir de fotos antigas, reportagens de jornais antigos e entrevistas atuais de críticos de cinema e professores. Também há encenações das atrizes Inês Peixoto e Bárbara Luz que recriam fases da vida de Eva - e nesse ponto elas mesmas discutem o ofício da atuação. A mescla de documentário com ficção preenche lacunas para entender quem foi Eva e provoca reflexão sobre como histórias de mulheres foram apagadas do cinema nacional – ela, por exemplo, desapareceu da memória coletiva, raramente citada ou estudada. A roteirista e diretora Elza Cataldo, ao recontar a carreira esquecida de Eva, abre espaço para refletir os obstáculos persistentes do cinema brasileiro, como financiamento, distribuição, restauração de obras e formação de público. Gostei demais desse filme independente brasileiro e recomendo.

Com causa

Documentário do cineasta carioca Belisario Franca em mais uma parceria com o diretor Pedro Nóbrega, desta vez sobre ativismo ambiental, e não mais tratando de figuras ou cenas políticas como costumam fazer. Aqui eles fazem uma colcha de retalhos com depoimentos de ativistas do mundo todo em torno de seus projetos, visando a construção de um mundo menos violento, que cuide do meio ambiente para as futuras gerações. Com imagens belas e nítidas das águas, das florestas e do solo, seguindo da Amazônia à África e passando pela Europa e Ásia, o filme é um apelo para o despertar da conscientização humana, trazendo depoimentos de figuras notórias do ativismo mundial, como Ailton Krenak, Paul Watson, Carmen Silva e Muzoon Almellehan. Um filme para ver, sentir e refletir, tanto contemplativo quanto de crítica social. Produzido pela Giros Filmes, teve exibição no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP, e está em exibição nos principais cinemas brasileiros desde semana passada. Distribuição da Bretz Filmes.

Vidas entrelaçadas

Angelina Jolie é a estrela do novo filme da cineasta francesa Alice Winocour, de ‘Transtorno’ (2015) e ‘A jornada’ (2019), que estreou no Festival do Rio – eu o assisti lá, ainda com o título original, “Couture” (termo que significa ‘Alta costura’). Angelina está lindíssima e bem fotografada, interpretando o papel de uma diretora de cinema que viaja a Paris para filmar a temporada do Fashion Week. Enquanto prepara o estúdio e as modelos, aguarda ansiosamente os resultados de um exame médico que fez nos Estados Unidos (de câncer). Os fragmentos da trajetória dessa mulher se entrelaçam com os de outras duas personagens femininas: uma modelo sul-sudanesa de 18 anos (Anyier Anei), que está no mesmo evento, em seu primeiro trabalho na passarela, e uma maquiadora (Ella Rumpf) que trabalha sem descanso. Cada uma a seu modo enfrenta os incansáveis dias da Semana de Moda ao mesmo tempo em que lidam com questões íntimas. Um bonito e correto filme sobre o universo feminino no mundo da moda, energicamente interpretado pelo trio central de atrizes. No elenco vemos ainda Vincent Lindon como um médico e Louis Garrel como o par romântico de Angelina. Selecionado para a competição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2025, foi exibido nos festivais de Toronto e Roma. Estreia hoje em oito cidades brasileiras, como SP, RJ, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba, com distribuição da Synapse.

Família de aluguel

Dirigido pela cineasta japonesa Mitsuyo Miyazaki, que assina apenas como Hikari, o emocionante “family film” é ambientado na Tóquio atual e traz um papel luminoso de Brendan Fraser como Phillip Vanderploeg, um ator americano em solo japonês que enfrenta uma crise profissional e tenta reencontrar-se após anos de carreira estagnada. A idade também pesa sobre ele. Descobre, por acaso, uma agência japonesa especializada em “famílias de aluguel”, que contrata intérpretes para desempenhar papéis de parentes, parceiros amorosos ou amigos em situações cotidianas. É uma agência inovadora, e ele, ator, por ter encarnado muitos papéis em sua vida, decide arrumar um emprego lá. Após assinar o contrato, o solitário Phillip passa diariamente a assumir diversas identidades na vida de desconhecidos, como marido, irmão e pai, tornando-se companheiro conforme a necessidade do cliente. O que ele não imaginaria era ser pego numa armadilha do coração: em um dos papéis sociais que assume, como o pai de uma garota rebelde chamada Mia (Shannon Mahina Gorman) que retorna ao seio familiar, ele se verá preso numa relação impossível de ser distanciada ou desvinculada. Phillip encontrará em Mia vínculos genuínos que o ajudarão a redescobrir o valor do afeto e da conexão humana. O roteiro foge do melodrama fácil, mas usa e abusa de cenas que nos aflora a emoção, em uma narrativa intimista que discute a solidão e a necessidade de afeto em um mundo fragmentado por relações vazias (ou líquidas, segundo o filósofo Zygmunt Bauman). Fraser, hoje com 57 anos, voltou a carreira com tudo após uma década e meia entregue ao relento – foi astro nos anos 90 (mas apenas um rosto bonito em fitas abobalhadas de comédia), teve depressão, sofreu assédio sexual na indústria de Hollywood e se afastou das telas; até entrar de cabeça num dos papeis mais incríveis do cinema e ganhar o Oscar por ele, em “A baleia” (2022). Esteve em seguida em “Assassino da Lua das Flores” (2023), de Martin Scorsese, e agora nesse filme adorável e sentimental de Hikari, demonstrando vitalidade e recuperação do tempo perdido. A estreante Shannon Mahina Gorman, de 10 anos, é outro destaque, e pelo papel recebeu indicação ao Critics Choice de 2026. O elenco japonês conta com mais de 25 nomes, como Mari Yamamoto, das séries “Pachinko” (2022-2024) e “Monarch: Legado de monstros” (2023-), e Takehiro Hira, indicado ao Emmy e ao Critics Choice de ator coadjuvante pela série “Xógum: A gloriosa saga do Japão” (2024-2026), o que reforça a autenticidade cultural da trama. Exibido nos festivais de Toronto, Zurique, Tóquio e Rio de Janeiro, é escrito, produzido e dirigido por Hikari (ela dirigiu o lindo drama “37 segundos”, de 2019, e é uma das criadoras e produtoras da série da Netflix “Treta”). O filme passou nos cinemas brasileiros em janeiro de 2026, e estreia agora no streaming Disney+.

Pompeia: Sob as nuvens

Gianfranco Rosi, premiado diretor e produtor de cinema italiano, reafirma sua posição como um dos maiores documentaristas contemporâneos ao construir um retrato poético (e bem multifacetado) de Nápoles, cidade localizada a 25 quilômetros da histórica Pompeia, que foi dizimada pelo vulcão Vesúvio há 1950 anos. O filme, rodado em preto-e-branco, traz, em pequenos fragmentos, a vida cotidiana de uma comunidade que convive com a presença constante de dois vulcões vizinhos, o Vesúvio e o Campi Flegrei, símbolo de ameaça permanente. Pompeia virou um sítio arqueológico e parada para turismo, que movimenta a economia da região de Nápoles. Rosi, de “Fogo no mar” (2016 - indicado ao Oscar), articula um mosaico que transita entre o íntimo e o universal, revelando gestos simples da rotina dos moradores e os ecos de séculos de cultura e tragédia. Ele evita o formato tradicional de documentário: não há entrevistas, nem narrações didáticas ou guiada, tudo são passagens contemplativas, de escavadores procurando vestígios, esculturas preservadas da época, pessoas ligando para bombeiros por causa da sensação de terremotos, imagens de sobrevoo sobre os vulcões. A narrativa se desenrola como um fluxo de imagens belamente fotografadas (em um PB estonteante) que alternam o extraordinário e o banal, criando uma atmosfera de contemplação. A trilha sonora de Daniel Blumberg, compositor britânico ganhador do Oscar por “O brutalista” (2024), intensifica essa sensação, funcionando como contraponto emocional às cenas de ruas, rostos e paisagens. O título remete à sombra das nuvens que pairam sobre Pompeia e Nápoles, metáfora da convivência entre beleza e risco, passado e presente. Vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Veneza de 2025, onde concorreu ao Leão de Ouro, a fita de arte está disponível na plataforma da Mubi.

Betty Blue

E retorna para os cinemas brasileiros neste final de semana um de meus filmes de arte preferidos, que consagrou o falecido cineasta Jean-Jacques Beineix, bem como foi o ponto de partida da carreira dos principais nomes do elenco. O filme está de volta em uma excelente cópia com novo master em 4K pela Pandora Filmes, em edição comemorativa de seus 40 anos. A envolvente trama acompanha Zorg (Jean-Hugues Anglade), um jovem pintor que restaura casas de praia na Riviera Francesa e que pretende ser escritor. Certo dia aparece pelo bairro uma bela moça, de nome Betty (Béatrice Dalle), que desperta a atenção de Zorg. Os dois iniciam um tórrido relacionamento, mas aos poucos o rapaz percebe que Betty é neurótica e violenta. Drama e romance erótico entram com tudo nesse road movie melancólico, de cores quentes vivas, e uma interpretação intensa da atriz Béatrice Dalle, estreante no terceiro filme do diretor Jean-Jacques Beineix (1946-2022), criador do movimento Cinema du Look (“Cinema do Olhar”), ao lado de Leos Carax e Luc Besson. Tal movimento explorava a juventude marginalizada da França das décadas de 80 e 90, por meio de filmes estilizados e de visual elegante. Beineix dirigiu antes, dentro do “Olhar”, “Diva – Paixão perigosa” (1981) e “A lua na sarjeta” (1983), porém “Betty Blue” tornou-se especial no coração dos cinéfilos. Betty entrou para a galeria de personagens marcantes do cinema, uma protagonista de espírito livre, ao mesmo tempo instável e temperamental, que vai enlouquecendo, brigando com quem está ao redor em seus acessos explosivos. Béatrice é uma atriz de estranha beleza, perfeita para o papel dessa jovem irritada quando contrariada, e que depois faria vilãs no cinema francês (dá medo sua interpretação no terror francês “A invasora”, por exemplo). A trilha do libanês Gabriel Yared (vencedor do Oscar por “O paciente inglês”) é inesquecível, com arranjos ecléticos de sax, gaita e música circense, que caem como uma luva nessa fita de arte sensual - na época recebeu classificação 18 anos (há cenas de sexo selvagem, incluindo a abertura de um minuto). Indicado ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, “Betty Blue” foi exibido nos festivais de Toronto e Edimburgo e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Montreal. A produção e o roteiro são de Beineix, e a obra é uma adaptação do livro de Philippe Djian, escritor de outros livros eróticos que viraram filmes, como “Elle” (com Isabelle Huppert). A versão que volta aos cinemas é a original apresentada em 1986, de 119 minutos – existe uma versão do diretor, de 185 minutos (ou seja, 66 minutos a mais que a de cinema) que saiu no Brasil em DVD em 2004 pela Columbia Pictures, que recomendo caso não conheçam (versões do diretor, com grande duração, valem a pena pois se tornam outro filme, com cenas extras e até novo corte).

O mago do Kremlin

O diretor, produtor e roteirista (e que trabalhou muito tempo como crítico de cinema) Olivier Assayas intercala em seu cinema filmes de arte independentes com dramas históricos com figuras reais ou contextos notórios. “O mago do Kremlin” está na lista de seus filmes de base histórica, assim como “Wasp: Rede de espiões” (2019) e a minissérie “Carlos, o Chacal” (2010) - e todos eles trazem a espionagem como ponto de partida, tema explorado pelo cineasta desde sua estreia na década de 80. Novamente Assayas reúne elenco americano em um filme crítico e de trama altamente complexa, cheia de nomes, lugares e situações. Paul Dano interpreta o protagonista do drama, Vadim Baranov, personagem fictício inspirado no empresário russo Vladislav Surkov, ex-conselheiro de Putin que atuou no gabinete do presidente por mais de 10 anos. O longa escancara os bastidores do poder do governo russo durante os anos 1990 e 2000, período marcado pelo colapso da União Soviética, pelo fim do socialismo e a ascensão de Vladimir Putin. Baranov, antes produtor de TV e homem do teatro, é recrutado para ser o arquiteto da propaganda do Kremlin, moldando a imagem de Putin como o líder ideal que iria recriar o país. Por ser da mídia, ele sabia como mexer os pauzinhos para manipular percepções em escala nacional, utilizando a TV, o rádio e os jornais em prol da propaganda russa. Baranov se torna o ideólogo de Putin, o mago do governo, numa relação primeiramente fiel e subordinada, depois instável entre os dois – Jude Law encarna o presidente russo a partir da metade do filme (já que antes disso Putin não “existia” na história inicial, que foca em Surkov). Law entrega uma interpretação marcada por exageros, mas olhando a fundo são as caretas e trejeitos do próprio Putin, com sorrisinho de lado, biquinhos, olhar compenetrado. O filme é um drama histórico mesclado com thriller político, com diálogos difíceis, que explicam os bastidores sombrios do governo Putin, passando pelas alianças e as crises. É uma fábula moderna sobre disputas pelo poder e pelas narrativas, fazendo uma reflexão da Rússia autoritária de Putin, uma figura temerária que governa o país com mãos de ferro desde 1999. Assayas mistura ficção e documentário, com muitas imagens de arquivo, reportagens da época e vídeos reais, fazendo um trabalho coeso, que vale a pena ver. O elenco reúne também a ganhadora do Oscar Alicia Vikander, Jeffrey Wright e Tom Sturridge. Adaptado do livro do italiano Giuliano da Empoli, o filme teve estreia mundial no Festival de Veneza de 2025 e está em cartaz nos cinemas pela Imagem Filmes.

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com

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