A Carne e o Sangue das Palavras
A intensidade do genio poetico de Conceicao Evaristo faz a transformacao dos versos em experiencias linguisticas nos poemas
A intensidade do gênio poético de Conceição Evaristo faz a transformação dos versos em experiências linguísticas nos poemas, densos até demais não poder de Poemas da recordação e outros movimentos (2017), um livro editado pela Malé, em cuja estande fui buscar meu exemplar na Bienal do Livro, em junho do ano passado; a Malé é especializada em fazer vir à luz a literatura produzida por indivíduos negros, e Conceição é um nome central da atual literatura brasileira, por seu rigor, pela dedicação e seriedade de seu projeto literário. Seu romance Ponciá Vicêncio (2003) é um conjunto de achados verbais, sintáticos, metafóricos; os poemas de Conceição são igualmente achados de construção formal que encantam e pressionam a estética de ler.
Fêmea-fênix, poema dedicado à atriz negra, excelente e sensível atriz, Léa Garcia, falecida, é uma experimentação constante, uma invenção da inquietação. “Navego-me eu-mulher e não temo”. “Abraso-me eu-mulher e não temo”. “Deserto-me eu-mulher e não temo”. “Vivifico-me eu-mulher”. Esta mulher-poeta que é Conceição não nasceu agora; ela busca os ancestrais. Há o sangue, a carne, a biologia. “A voz da minha bisavó / ecoou criança / nos porões do navio / Ecoou lamentos / de uma infância perdida.” O sangue, a carne, a biologia podem ser literários, podem ser escrita. “No meio da noite / Carolina corta a hora da estrela”. “No meio do dia /Clarice entreabre o quarto de despejo”. Conceição abre o fundo do baú: Clarice/Lispector e Carolina/Maria de Jesus surgem como personagens da mente de Conceição, Carolina seria a Macabéa de Clarice? “E lá vai Carolina / com os olhos fundos / macabeando todas as dores do mundo”. Ou Clarice, a aristocrata, a burguesa, seria a personagem-alvo deste quarto em despejo onde Carolina escreve seu diário ora tosco, ora assombrado? Deste material antigo Conceição expõe e impõe seus refinamentos poéticos, são instantes criativos em versos.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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