RESENHA CRÍTICA: Além das Palavras (A Quiet Passion)

O espectador vai ter a chance de conhecer melhor aquela que é considerada a maior poetisa da Língua Inglesa

20/04/2017 00:10 Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CRÍTICA: Além das Palavras (A Quiet Passion)

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Além das Palavras (A Quiet Passion)

EUA,17. 125 min. Direção e roteiro de Terence Davies. Com Cynthia Nixon, Emma Bell, Duncan Duff, Jennifer Ehle, Keith Carradine, Johdi May, Joanna Bacon, Miles Richardson.

É muito difícil se contar a história de uma poetisa, ainda sendo de dois séculos atrás (Emily Dickson faleceu em 1886 aos 55 anos e teve a honra de ser inteiramente desconhecida em vida e apenas consagrada após sua morte). Sua vida foi adaptada para o teatro com muito êxito nos EUA (já que é muito difícil se traduzir poesia) principalmente com interpretação da lendária atriz teatral Julie Harris (1925-2013), com um recorde de 10 indicações ao Tony e 5 vitórias em The Belle of Amherst. No Brasil, o texto chegou a ser estrelado (e muito bem) por Beatriz Segall.

A ousadia aqui é chamar para o papel de protagonista uma atriz (ainda não estrela) conhecida como a Miranda, Cynthia Nixon, a simpática ruiva de Sex and the City (1998-2004) de tal forma que não provocou muita polêmica quando pouco tempo depois do fim da série ela assumiu uma relação lésbica que deve pelo jeito permanecer até hoje, já que foi digerida sem muita polêmica pela imprensa. Certamente prova também do talento de Ms. Nixon. Esta composição de personagem lhe valeu indicações em três festivais (mas o filme só está sendo lançado agora, simultaneamente com o Brasil). Outro fato importante para se gostar do filme é lembrar que ele foi realizado por um cineasta inglês de muito prestigio, um polêmico artista chamado Terence Davies (1945-) que ficou famoso no festival de Cannes quando apresentou dois trabalhos muito autobiográficos de muita beleza, ambos exibidos aqui, Vozes Distantes (88) e O Fim de um Longo Dia (92). Eu o entrevistei nos dois filmes, ambos muito sensíveis e delicados, fora do padrão comum, ou seja, pessoais, com muita música de fundo. Ou seja, é preciso estar afinado para gostar deles (eu particularmente embarquei inteiramente).

Novamente o encontrei quando realizou Memórias (The Neon Bible, 95), que certamente quis fazer como uma chance de dirigir a musa de Cassavetes, a grande Gena Rowlands (adolescente recorda a tia que o protegeu). Infelizmente não foi sucesso e só cinco anos depois ele retornou com outra estrela, em um drama romântico de época A Essência da Paixão (The House of Mirth, 2000, com outra estrela até talentosa, mas cuja talento não explodiu como deveria, Gillian Anderson). Fez depois um documentário (Sobre o Tempo e a Cidade, 2008), o esquecido O Amor Profundo (The Deep Blue Sea, 11, que deu merecida indicação ao Globo de Ouro de Rachel Weisz e a melhor adaptação de um texto de Terence Rattigan). Fez ainda A Canção do Por do Sol (Sunset Song,15, um drama rural de época com elenco quase desconhecido como Peter Mullan que teve menções apenas locais). O clima rural e primaveril continua neste novo filme (filmado no próprio lugar onde a poetisa viveu na Nova Inglaterra) com orçamento de 6.900 milhões de libras.

Ou seja, para apreciá-lo é preciso atenção e sensibilidade (talvez feminina de preferência) capaz de enfrentar temas como morte, tempo, eternidade. Até porque ela nunca se casou, e provavelmente era virgem. Os seus quase romances eram por correspondência. E com a idade foi se tornando reclusa, quase sem sair do seu quarto. Seus poemas não eram fáceis e quando faleceu era inteiramente desconhecida! Ainda assim sobrevieram cerca de 1900 poemas!

É muito difícil traduzir poesia e Davies é um cineasta sensível que respeita a beleza da palavra e do sentimento que Emily sabia expressar, sempre fugindo do óbvio. Na verdade a peça que a deu origem de William Luce era mais sentimental, se bem que no filme ela tenha a oportunidade de desfilar todos os tipos de sabores e emoções. O que quero dizer com certa vergonha é que não é um filme para muita gente, mulheres em especial devem entender melhor sua leitura e lentidão. Emily desde pequena era uma grande figura, céptica sobre Deus de quem não negava a existência, mas a quem questionava as intenções. Depois de forma, retorna para Amherst para viver com os pais (Keith Carradine, assumindo sua idade madura) e Joanna Bacon, a irmã Austin (Duff) e a irmã Vinnie (a encantadora atriz inglesa Jennifer Ehle), no que seria uma mistura de austeridade e extravagância. Mas o espectador vai ter a chance de conhecer melhor aquela que é considerada a maior poetisa da Língua Inglesa (alguns ousam dizer, maior poetisa e ponto final).

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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