A Tentacao de Scorsese
Habitualmente conhecido por retratos urbanos sombrios, o realizador norte-americano Martin Scorsese deu algumas vezes vaz?o a sua vertente religiosa
Habitualmente conhecido por retratos urbanos sombrios, o realizador norte-americano Martin Scorsese deu algumas vezes vazão à sua vertente religiosa, nascida de sua formação familiar. Em novembro de 1988, enquanto se acompanhava, no Rio, o FESTRIO, uma mostra não comercial de cinema, o barulho nas salas habituais era a curiosidade de um filme de provocação católica que já vinha do exterior com alguns tumultos. Tratava-se do mais recente trabalho de Scorsese, A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ; 1988), com roteiro de Paul Schrader (que escrevera na década anterior, para Scorsese, o soturno e sinuoso Motorista de táxi, 1976, cuja ética calvinista se escondia nas ruas de Nova Iorque) a partir dum romance do grego Nikos Kazantzákis. Antes de chegar ao Brasil, o filme topou protestos nos Estados Unidos (em frente dos estúdios da Universal) e na França (fundamentalistas religiosos lançaram em Paris, num teatro que exibia o filme, coquetéis molotov). Naquele Rio de novembro de 1988 não se podia resistir à curiosidade e à irreverência de ver tal filme; na correria do Festival, uma pausa para atender aos interesses comerciais ou jornalísticos.
Passados muitos anos, a oportunidade de rever a obra de Scorsese num serviço de streaming. A impressão retorna quase sem alteração. Os cristãos fizeram barulho por pouca coisa e venderam um filme que só existe na cabeça deles; quem for ao cinema, esperando uma contestação católica furiosa (como aquela da Ave-Maria profana que a personagem de Isabelle Huppert diz no fim de Um assunto de mulheres, 1988, de Claude Chabrol, exibido naquele FESTRIO de 88 e que causou uma inquietação intelectual diversa do comercialismo apresentado pela mídia para o filme de Scorsese), não a encontrará. Os espectadores que, movidos pela excitação das notícias, buscassem na narrativa americana uma estética digestiva, também se decepcionaram, pois Scorsese propõe uma lenta e plástica reflexão sobre Cristo como uma certa essência da própria natureza humana. É verdade que Scorsese não entrega, em A última tentação de Cristo, tudo o que pode como cineasta; mas os admiradores de seu cinema (tanto os que se deliciam com suas parábolas neuróticas ao estilo de Depois de horas, 1985, quanto aqueles que compreenderam as nuanças de época em A época da inocência, 1993, como uma sutileza subterrânea das neuroses antes filmadas pelo diretor) vão topar em A última tentação de Cristo a intensidade formal que fascina, a grande agudeza de ideias (humanas e dramatúrgicas) vazadas num “texto cinematográfico” de alguém que sabe bem o que está fazendo, que tem o senso fílmico em grau máximo. Trilhando vários universos da humanidade ao longo de sua filmografia, Scorsese permanece essencialmente isto: Scorsese.
A última tentação de Cristo diz em seu letreiro inicial que sua história não é a do Evangelho. Pode ser. Mas há um respeito religioso de artistas religiosos como Schrader e Scorsese para com aventura de Cristo entre nós. Em boa parte da narrativa, a história contada no filme é uma recriação, em cores modernas, do que está nos Evangelhos, basicamente a idade adulta de Cristo, as relações com o poder, os apóstolos, seu povo, até a crucificação por não coadunar-se às leis de sua época. Onde o conto de Scorsese e Schrader e Kazantzákis se desvia é num sonho/delírio de Cristo na cruz, à beira da morte: tratado no filme como uma pessoa comum que não sabe bem de sua natureza divina, Cristo, ensanguentado, crucificado, tem um sonho, o de que se casou com Maria Madalena, a meretriz que ele salvou da ira popular, teve filhos, morta Madalena se casou com Maria irmã de Lázaro, teve mais filhos, envelheceu, iria morrer de idade acamado. Em A última tentação de Cristo sobressaem as relações (humaníssimas) entre Cristo e Judas num dueto não muito bem compreendido em seu lançamento, as interpretações de Willem Dafoe e Harvey Keitel. Entre as curiosidades, uma esfuziante Barbara Hershey como Madalena e o músico pop David Bowie (na pele de Pilatos) discutindo transcendência religiosa com Jesus. Cruzadas as décadas, A última tentação de Cristo, certamente um clássico do cinema em sua autenticidade, ainda está à procura de seu lugar na história e no especifico universo de Martin Scorsese.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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