Leitura Bilingue: Rimbaud/Juremir

Juremir Machado da Silva faz sua Uma temporada no inferno: delirio agressivo no coracaoo da lingua

05/04/2026 03:46 Por Eron Duarte Fagundes
Leitura Bilingue: Rimbaud/Juremir

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Juremir Machado da Silva é um desafiador. Ao expor-se à tradução de dois poemas centrais do francês iconoclasta Arthur Rimbaud, Juremir desnuda-se esteticamente: o escândalo não é moral nem sexual, o escândalo são as inquietações que dominam Rimbaud e levam um tradutor um século e meio depois a visitar em língua estrangeira aquele universo muito francês do mais delirante artista ocidental do século XIX.

Une saison en enfer (1873) é um poema sem volta em seus mergulhos verbais descontrolados e ferinos.  Illuminations (1886) é feito de muitos trechos escuros e perversos. A leitura no português de Juremir pode conduzir à releitura nos versos franceses de Rimbaud: uma leitura bilíngue, pois ao ler não deparamos com problemas de espaço editorial. Juremir faz sua Uma temporada no inferno: delírio agressivo no coração da língua. “Mas a orgia e a convivência com as mulheres me eram proibidas. Nem mesmo um companheiro. Eu me via diante de uma multidão desesperada, face ao pelotão de execução, chorando a infelicidade de eles não terem conseguido me compreender, e perdoar! Como Joana d’Arc! — ‘Padres, professores, patrões, vocês erram me entregando à justiça. Nunca fui desse povo. Sou da raça que cantava no suplício; não compreendo as leis, sou um bruto. Vocês se enganam...’”. Em Rimbaud: “Mais l’orgie et la camaraderie des femmes m’étaient interdites. Pas même un compagnon. Je me voyais devant une foule exaspérée, en face du peloton d’éxecution, pleurant du malheur qu’ils n’aient pu comprendre, et pardonnant! —Comme Jeanne d’Arc! — ‘Prêtres, professeurs, maîtres, vous vous trompez en me livrant à la justice. Je n’ai jamais été de ce peuple-ci; je n’ai jamais été chrétien; je suis de la race qui chantait dans le supplice; je ne comprends pas les lois; je n’ai pas le sens moral, je suis une brute: vous vous trompez...”. Há um parentesco original entre o poeta e seu tradutor: orgia que se estende da carne ao verbo. “Eu amava as pinturas, iluminuras populares, a literatura fora de moda, latim  de igreja, livros eróticos sem letras, romances de nossos avós, contos de fadas, livrinhos de infância, velhas óperas, refrões medíocres, ritmos ingênuos”. A literatura terrivelmente jovem e irregular. “J’aimais les peintures idiotes, dessus des portes, décors, toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires; la littérature démodée, latin d’église, livres érotiques sans orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits livres de l’enfance, opéras vieux, refrains niais, rhythmes naifs.”

Que sobra depois? “Illuminations”, com o título em inglês mesmo, como explicou o prefácio de Paul Verlaine. “Eu sou o caminhante da grande estrada na floresta nanica”. “Je suis le piéton de la grand’route par les bois nains”. Certa vez um historiador que vivia da razão, que amava a literatura, que na juventude tivera como é hábito a veleidade poética, logo desistiu de ser poeta quando descobriu que um menino de dezessete anos escrevera aqueles versos: isto não pertence ao mundo da razão. Este o  escândalo: que agora Juremir busca perseguir em sua tradução para, como ele próprio o escreve, reescandalizar. Ou, quem sabe, movimentar os tempos “mortos” que “vivemos”.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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