Bressane e as Tensoes do Plano Cinematografico
N?o parece aleatorio que o cr?tico Jean-Claude Bernardet, em seu livro O Voo dos Anjos (1991), que trata dos cinemas de Bressane e Rogerio Sganzerla, se vale da psicanalise para a analise de filmes
Os planos (unidades de imagens) dos filmes do cineasta brasileiro Júlio Bressane conduzem o olhar do espectador a uma espécie de hipnose; e produzem algo como uma psicanálise cinematográfica. Não parece aleatório que o crítico Jean-Claude Bernardet, em seu livro O voo dos anjos (1991), que trata dos cinemas de Bressane e Rogério Sganzerla, se vale da psicanálise para a análise de filmes. O plano de abertura de Leme do destino (2023), o novo filme de Bressane, recebido com frieza até por habituais afeiçoados ao estilo de filmar do diretor, é um longo plano fixo (a câmara é fixada numa angulação da plano médio e nunca se mexe, por um bom tempo não há cortes, a montagem praticamente se suspende ou abstrai) onde deparamos (vemos, ouvimos, mais ouvimos que vemos) duas amigas que estão a uma mesa (provavelmente em um bar, o cenário são somente as duas mulheres, a mesa, as bebidas), estão bêbadas e tergiversam em torno de coisas obscuras da filosofia, da psicanálise, da arte como psicanálise, relações tensas entre palavras que camuflam a enviesada objetividade de um plano fixo observador e distanciado. Mesmo depois deste exasperante exercício com a atenção e a capacidade de ver/ouvir do observador, em todo o restante do filme Bressane mantém o rigor de seu cinema único, sem concessões, construindo um ritmo lento, cerebral, denso, problemático, à maneira do que tem sido seu cinema em tempos recentes, em Capitu e o capítulo (2021), em Sedução da carne (2018), sua extrema maturidade topa uma forma de dar sequência a uma revolução estilística iniciada nos tempos de Cara a cara (1967).
Há uma exigência nas narrativas de Bressane que o tornam sempre uma pedra no caminho do olhar do espectador habitualmente estimulado a ver filmes. Mas esta exigência se torna o prazer de ver e pensar quando se sobe a montanha de raciocínios (estéticos, temáticos, antropológicos) dum criador como Bressane em Leme do destino. O Leme carioca que aparece no filme não é o Leme habitual: é um Leme recriado de uma forma mais tensa formalmente, é a transposição dum universo (o Rio real) para outro (o Rio que um artista carioca como Bressane é capaz de recriar muito originalmente), o Leme através duma lente particular, este olho-cinema de Bressane.
O plano de encerramento de Leme do destino é uma pose-para-a-câmara de todo o elenco e a equipe do filme, um novo plano fixo, no início as pessoas vão chegando e se põem numa posição dentro do plano, após uma longa tomada da pose, os indivíduos saem um a um como chegaram no início. Entre todos que aparecem, sobressai, claro, a figura do diretor Bressane, com sua atual grande barba branca, como a patriarca duma estranha comunidade. No elenco, Simone Spoladore, como uma das duas amigas, é o nome mais conhecido; e Simone está extraordinária em cena, apostando num desafio complexo à maneira daquele que já propusera como interpretação em O livro dos prazeres (2022), filme de Marcela Lordy.
O lado frio e neuronial de Leme do destino, que pode ter desassossegado o espectador em algum momento, é levado para uma sanguinidade de filmar que Bressane persegue com sua longeva vitalidade de filmar.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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