Costa-Gavras e a Teoria das Videiras
Z ainda hoje, o mais potente dos filmes de Costa Gavras, aquele em que seu estilo de filmar, de montagem agitada e inquieta
A sequência inicial de Z (Z; 1969), feito na França por Constantin Costa-Gavras, com ambientação no meio político grego daquela década, é uma sequência-holofote de toda a narrativa proposta pelo realizador. Ela faz um resumo, com simbolismos naturais, daquilo que o espectador verá nas ações das personagens ao longo do filme. O que vemos neste início? Primeiro, um professor expõe para uma plateia sobre a necessidade de sulfatar as vinhas, para exterminar os fungos que geram a doença e matam as uvas. Ao terminar sua exposição, o professor passa a palavra a um militar que desenvolve a tese da sulfatagem dentro da sociedade; a parte boa da sociedade (os homens à direita) são anticorpos que previnem o mal, o lado doente da sociedade (os seres à esquerda) deve ser curado com “sulfato”, este lado é logo identificado com os “ismos”, especialmente o comunismo. Ao cabo do discurso do militar, o holofote de Gavras cai em seu lugar-comum: é preciso sulfatar as vinhas e a sociedade, e vamos em frente.
Z é, ainda hoje, o mais potente dos filmes de Costa Gavras, aquele em que seu estilo de filmar, de montagem agitada e inquieta, aqui acentuado pela fotografia esquiva de Raoul Coutard e pela música incisiva de Mikis Theodorakis, atingiu seu ponto mais forte esteticamente. A mestria de Gavras faz com que um universo tão característico da década de 60, ideológica e formalmente, possa sobreviver tantas décadas depois no coração do espectador; as questões ali encenadas e os jeitos das personagens não são da atualidade do século XXI, ainda que possam ser embriões da ressurreição de muitas coisas hoje em dia, mas o conservadorismo de hoje, um dos alvos de Gavras em seu tempo, tem outra feição em seu delírio.
Em Z Gavras faz uma aliança que se tornou sua marca de filmar. O filme político e o filme policial. O filme político, isto é, preocupado com a realidade. O filme policial: um gênero o mais das vezes voltado para o cinema só como entretenimento. Ele não realiza politicamente os filmes, como o francês Jean-Luc Godard; Gavras submete-se ao modelo de olhar do público para o fazer meditar. Se Godard utiliza o gênero policial para o subverter em Acossado (1959), Gavras, numa obra como Z, vai ao policial para tornar a aridez política mais palatável. As linguagens diferem, os conteúdos vão acabar diferindo. Historicamente, a sisudez da esquerda nos anos 60 rejeitou a Gavras sua aliança com o cinema comercial, tão descarada; dizia-se que sua forma não tinha a dialética de A batalha de Argel (1966), do italiano Gillo Pontecorvo, e de fato era distante disto, e abastardava a denúncia política. Z nada tem de documental, embora seus fatos, relatados originalmente num livro de Vassilis Vassilikos, nasçam de coisas de fato acontecidas; Z assume sua ficção com a energia cinematográfica de Gavras em grau máximo.
O assassinato de um parlamentar de oposição grego, por manobras dos militares gregos, apesar de todo o seu cheiro de época, rende em Z um filme para além de seu tempo. O elenco é um dos suprassumos da grande produção de Gavras: Yves Montand como o deputado morto, Irene Papas como a esposa do deputado, Jacques Perrin como o jornalista bisbilhoteiro, Renato Salvatori como o sujeito do serviço sujo do poder. E, acima de tudo, Jean-Louis Trintignant como o juiz de instrução, que primeiro manda prender os figurões militares pelo homicídio e depois é pelos militares destituído para que a ditadura exerça seu papel. A breve vitória da verdade se dá na encenação: imagens. Nos letreiros finais se informa a destituição do juiz e a volta dos milicos. Como escreveu o crítico Tuio Becker num texto de 1980, quando o filme, até ali proibido pela ditadura militar brasileira temerosa com a presença de militares autoritários diante das câmaras, foi lançado por aqui, “um dia é da caça; os outros, do ditador”.
Z é uma obra cinematográfica solta, que usa de um humor sarcástico para coisas que muitas vezes, nos anos 60 e 70, eram tratadas com sisudez por um certo cinema. Este paradoxo de comportamento fílmico trouxe historicamente dissensões para a vida do filme ao longo das décadas. O que não se pode negar é sua permanência e que esta permanência se deve integralmente ao esplendor formal de Costa-Gavras.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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