Os Mitos do Cotidiano
O conto chegou a gerar um belo filme homonimo de Andr? Ristum em 2014
Em seu conto O outro lado do paraíso, incluído na reunião de praticamente toda a sua obra que é o volume Trevas no paraíso (2004), Luiz Fernando Emediato se vale dos mitos do cotidiano geracionais com extrema veracidade. O irônico tom bíblico do parágrafo inicial traz algo duma construção narrativa que busca uma forma de construir o próprio cotidiano sem mimetizar necessariamente o cotidiano: mimetiza antes um conto bíblico. “No princípio era tudo escuro, vão e vazio. As trevas cobriam a face do abismo e eu era muito criança para entender as coisas. Mas ainda assim eu percebia que nosso pai não era um homem comum. Ele chegava e saía como se fosse o vento, as águas, o fogo ou o próprio Deus em busca de um sentido para a sua existência.”
A história é narrada pelo olhar de um menino, o narrador. Emediato sai na trilha de capturar, pela linguagem, o lado ingênuo deste olhar, alguém que está descobrindo o mundo, que ainda não entende o completo das situações que o cerca mas recebe o impacto destas situações em suas vivências familiares e indelevelmente será este impacto que descortinará as explicações de que o menino precisa. A família do narrador (pai, mãe, irmãos, ele) saem de um lugarejo de Minas em busca do Eldorado brasileiro, Brasília, a nova capital do país. Brasília, diz a narrativa, é a Evilath bíblica: o mito se insere no cotidiano como realidade da mente da criança. Mas ao lado do mito e do cotidiano o conto traz a história brasileira, uma época. “—O Jango vai fazer a reforma agrária.” Jango, o sonho brasileiro e, logo, o golpe militar. “O país de Evilath tornava-se, a cada dia, um país triste e sombrio.”
A família exposta pelo texto de Emediato é uma família de época, patriarcal mais arragaidamente que hoje. “Um dia papai chegou em casa pulando e rindo. Beliscou a bunda de mamãe, como sempre, deu um piparote no pinto de Tuniquinho e perguntou pra Silvinha onde ela tinha arrumado aquele namorado de sardas e dentuço que ele tinha visto na porta de casa, sábado passado.” Este hedonismo patriarcal é rompido, em certos setores da sociedade, quando se dá o golpe militar. O pai do narrador passa um tempo na prisão e volta de lá desanimado de viver e amar à sua maneira. “Mas não era o mesmo homem. Não ria, não falava os palavrões de costume, não beliscava a bunda de mamãe nem discorria sobre os seus grandes projetos. Concordava com tudo o que vovô dizia e até aceitou trabalhar com ele na roça, plantando uma lavoura de milho sem ser dono.” Este retrato diz, em parte, do que foi o mergulho de muitos num certo conformismo depois do golpe de 1964. Mas o conto também aponta para a ressurreição de ânimo nas relações entre o filho e seu pai. A dedicatória final de Emediato aponta para seu pai, Antônio Trindade, o que é também um apontamento metamorfoseando-se em ficção, das memórias do próprio ficcionista.
O conto chegou a gerar um belo filme homônimo de André Ristum em 2014. Mas quem viu o filme sabe que o texto de Emediato para um realizador como Ristum serve como apontamentos literários para cinema, onde a palavra escrita é o esqueleto da imagem.
{O filme O outro lado do paraíso (2014), de André Ristum, começa pela mesma epígrafe que abre o conto de Luiz Fernando Emediato de onde foi extraído o roteiro: refere-se a um lugar mítico, Evilath, o local bíblico, o lugar do sonho, o paraíso, é um signo de Brasília, a capital do país para onde a família do filme de Ristum se dirige, saindo de Minas, em busca do sonho brasileiro, o patriarca da família estimulado pelo desenvolvimentismo dos anos JK e depois pela paixão discursiva das reformas de base de Jango, dois presidentes exponenciais daqueles anos. Se o roteiro toma este impulso inicial do conto e no fim também repete o conto, dedicando a realização ao pai de Emediato, agora (em 2014) em memória, o mais do filme O outro lado do paraíso toma liberdades para com o texto de Emediato para, no fim de tudo, dizer coisas próximas. Há a história das memórias de infância (Luis Melo, em over, diz o texto narrativo), mas há também um retrato de época que nunca envelhece: alguns cinejornais que mostram o comício da Central do Brasil de João Goulart e depois o golpe militar e a posse do primeiro presidente da ditadura militar e a pose do primeiro presidente da ditadura militar vão sublinhar o andamento do aprendizado político, histórico, sentimental de Nando, o alter ego do escritor Emediato.
Ristum tem a sensibilidade de filmar, como sabemos de Meu país (2011) e A voz do silêncio (2018). Em O outro lado do paraíso ele excuta com absoluta profundidade o rigor plástico e interior de seu cinema, cuja origem tem algo do francês Robert Bresson. As imagens de seu filme são tão belas quando despojadas; ele não busca reproduzir a espontaneidade literária de Emediato mas cria uma espontaneidade cinematográfica por alguns achados de direção que são próprios do cinema de Ristum, ao associar o comportamento dos intérpretes a algumas ideias de personagens. Ristum tem o dom de aproximar uma “estrela” como Eduardo Moscovis da natureza mais bruta de outros atores (Davi Galeano como Nando, Maju Souza como Iara, ambos adolescentes) sem descaracterizar a consistência narrativa. No elenco, ainda se é brindado com a aparição (brevemente) de um ator intérprete extraordinário, Jonas Bloch, como o avô de Nando, a personagem central, o centro que em adulto (Luis Melo na narração-over) conta as reminiscências.}
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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