Aprender Portugues com Joao Guimaraes Rosa
Para onde acena a literatura de Joao Guimaraes Rosa?
A austríaca (que vive e escreve hoje em dia no Brasil) Kathrin H. Rosenfield aprendeu português lendo o romance de João Guimarães Rosa. Corpo de baile (1956), um conjunto de novelas para lá de exemplares do espírito estético de Rosa, foi publicado no mesmo ano de Grande Sertão: Veredas (1956), o livro que ensinou o português a Kathrin; imagina-se que os textos foram escritos quase simultaneamente e, pelo que se sabe, o escritor, um minucioso da palavra, levou pelo menos uma década para estes dois conjuntos de textos, o romance e as novelas. Campo geral abre as narrativas de Corpo de baile: “Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm.”
No Brasil, em termos linguísticos, à altura da criatividade de Rosa, somente um outro ficcionista, José Geraldo Vieira. Ambos são barrocos e tergiversam nos torneios do idioma. Mas são barroquismos que se opõem. O intelectualismo urbano de Vieira se afasta inteiramente da paródia rural e arcaica que sai das sintaxes de Rosa — certos pleonasmos, como o uso da negativa dupla (“nem não podia acreditar!”). Sabe-se que há no Brasil um paralelo entre certas formas arcaicas e o uso da língua pelos povos da roça. Rosa trabalha estilisticamente essas aproximações: ele nunca é pernóstico nem fotógrafo ao pôr em movimento o carro das linguagens. O que aparece no texto é a alma fonética, aquilo que pode ter encantado uma aprendiz estrangeira da língua portuguesa (como Rosenfield).
Miguilim e suas divagações, seu irmão Dito que morreu de repente, as sabedorias da Vovó Izidra, Tio Terêz, a Mãe, aqueles cenários de Mutúm, um universo linguístico-humano que o leitor não encontrará em lugar algum. Escrita muito como se fosse um destes textos arcaicos que empeçam a rápida fluência de ler, a narrativa de Campo geral traz a cada passo o desovar de coisas inesperadas. “e Miguilim desengolia da garganta um desespero.” O antigo de linguagem não deixa de trazer sua contemporaneidade. “E vai, veio uma notícia meia triste” (o advérbio que aqui se flexiona, “meia triste”, arcaico e popular). Pouco a pouco, oração a oração, o leitor depara com a sensação mágica de que a prosa de Rosa é um poema, um poema na forma de prosa, “Vagalume. Mãe gostava, afagando os cabelos de Miguilim: ‘O lumeio deles é um acenado de amor...”. Para onde acena a literatura de João Guimarães Rosa?
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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