O Livro-Resposta de Levi-Strauss
Em varias partes da construcao de seu pensamento antropologico, Levi-Strauss responde a varios opositores e questoes contraditorias
O francês Claude Lévi-Strauss exaspera-se ao expor o pensamento crítico. Lúcido e feroz, se há um antropólogo, é ele. Fundador, ele publicou Antropologia estrutural (Anthropologie sctructurare; 1958) poucos anos depois de seu clássico Tristes trópicos (1955), uma exaustiva e árida pesquisa de campo no Brasil dos indígenas. Em várias partes da construção de seu pensamento antropológico (que praticamente ali se fundava), Lévi-Strauss responde a vários opositores e questões contraditórias e multiformes daquela época. Neste sentido, nascendo como um livro-resposta, Antropologia estrutural é a edificação dum sistema de ideias, nascido, como em tudo no autor, de suas idas a campo.
Diz Lévi-Strauss, respondendo (a pergunta, o oponente parece oculto, mas estaria no cotidiano dos anos 50 no meio intelectual). “O princípio saussureano, invocado aqui por nossos autores, é incontestável se nos situarmos unicamente no nível da descrição linguística; teve um papel considerável na ciência das línguas, permitindo à fonética emancipar-se das interpretações metafísicas naturalistas. Contudo, representa apenas um momento do pensamento linguístico e, desde que se tenta perceber as coisas de um ponto de vista mais geral, seu alcance é limitado e sua precisão esfuma-se.”
Estudioso das sociedades humanas não como um sociólogo (observações diretas ou mais lineares e lógicas) mas como um etnólogo (e, naquele momento, um antropólogo, um termo que quase se tornou sinônimo do indivíduo Strauss), o minucioso e preciso esgrimista de achados de Antropologia estrutural está atrás da complexidade etnológica, de certas dinâmicas não muito simples à primeira vista. “Estas máscaras com postigos, que apresentam alternativamente vários aspectos do ancestral totêmico, ora pacífico, ora irritado, ora humano e ora animal, ilustram de modo notável o elo entre o desdobramento da representação e o mascaramento. Seu papel é oferecer uma série de formas intermediárias, que asseguram a passagem do símbolo à significação, do mágico ao normal, do sobrenatural ao social. Têm por função, pois, ao mesmo, mascarar e desmascarar. Mas quando se trata de desmascarar, a máscara que —por uma espécie de desdobramento ao contrário— abre-se em suas metades, enquanto o próprio ator se desdobra, na splits representation, que visa, nós o vimos, fazer, própria e figuradamente, exibição de máscara às custas do portador.”
Para além de sua abrangente capacidade de criar um denso sistema antropológico para observar os grupos humanos diversos, o que abre-se de maneira original no texto de Lévi-Strauss é uma aliança entre seu objeto direto de estudo e as figuras de linguagem-imagem que remetem ao objeto direto do estudo. É onde a máscara se desmascara, abrindo-se, que a grandeza deste etnólogo se aprofunda.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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