OSCAR 2014: Os Prêmios Especiais - Parte 3

Na terceira parte, Piero Tosi, o figurinista de Luchino Visconti

10/02/2014 17:41 Por Rubens Ewald Filho
OSCAR 2014: Os Prêmios Especiais - Parte 3

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Piero Tosi, o figurinista de Luchino Visconti

Por que se lembraram dele? Porque era dos mais injustiçados da Academia, já havia sido indicado 5 vezes ao Oscar® sem levar nada.  Concorreu por O Leopardo, 64, Morte em Veneza, 72, Ludwig, 74, todos os três de Luchino Visconti, mais ainda La Traviata, 83 de Zeffirelli, Gaiola das Loucas (o primeiro) de Edoard Molinaro, de 1980. Houve outras premiações em 2003, o prêmio pela carreira do Sindicato dos Figurinistas, o David de Donatello especial em 2006 (já tinha dois), dois Baftas e muitos prêmios do Sindicato dos Jornalistas da Itália. Ainda assim não é fácil encontrar material biográfico sobre ele, mesmo tendo sido o figurinista de outros grandes diretores (De Sica, Pasolini, de praticamente todos os trabalhos de Mauro Bolognini, Liliana  Cavani) e ter sido descoberto pelo amigo Franco Zeffirelli, que foi quem o apresentou a Visconti.

Chamado por todos como “O Maestro”, Piero é um gentleman, muito educado e polido, naturalmente extremamente elegante. Nascido na Toscana, em Firenze, em 10 de abril de 1927, já sonhava com cinema quando ajudava o pai (que trabalhava com ferro). Desenha figuras e roupas inspiradas nas peças que lia secretamente de Shakespeare. Assim para ele cada roupa tem uma história, que foi meticulosamente investigada. Usa as pinturas quase sempre como fonte, o pintor Macchiaioli para figuras pobres, Monet para paisagens tão caras a Visconti e para as cores, Boldini, Fattori, Hayez, Lega. Por isso em sua carreira podia desenhar palácios de príncipes até o mais realista dos desempregados.

Contam que Piero quando era rapaz era tão magro que no set do seu primeiro filme, a estrela Anna Magnini o chamava de San Luigi, o Segaiolo (o fracote). ”Sempre fui um Gato, logo que sinto que estão me segurando pelo rabo, escapo.  Luchino sempre respeitou essa minha natureza”.  Quem o conhece muito bem é Franco Zeffirelli, ambos são da mesma cidade (Zeffirelli um pouco mais velho) e foi quem o apresentou a Visconti  (no  livro de Vergani D'Amico, "Piero Tosi, Costumi e Scenografie", o figurinista exprime gratidão ao diretor (“Devo muito a Franco”), "O conheci em Firenze”, conta Franco,  “ele era do 'Istituto d'Arte e eu fazia a faculdade de Architettura. Piero desenha muito bem e na mesma classe deles estavam também Anna Anni e Danilo Donati. Indiquei Piero para  Visconti para ‘Troilo e Cressida’ mas estou mandou eu dar um jeito, chamando-o para meu assistente. Depois quando fomos fazer o filme ‘Bellissima’ sugeri Piero como figurinista, mas ainda era desconhecido, não sabia se valorizar. Então eu fiz esse papel.  Mas no final tive que dividir com ele meu salário”. Um dos últimos trabalhos de Tosi foi justamente com  Zeffirelli, em  Storia di una Capinera. O fato é que com a morte de Visconti houve um desânimo geral entre sua equipe. Zeffirelli explica: “Visconti deixou uma herança dura: perseguir a qualidade a qualquer preço.  E Piero leva isso ao pé da letra, o resultado nunca é suficientemente rigoroso, exato, belo. A impossibilidade de alcançar a perfeição,  o faz viver o trabalho como se fosse uma danação.  Mas só esta feliz quando esta trabalhando. Entendo que depois dos setenta anos tem direito a ócio.  Mas tudo nasce porque não aceita compromissos”. Quais seriam as cores favoritas de Tosi? "Eu diria”, acrescenta Zeffirelli, “que tem uma predileção por meios tons. Na histórica montagem de Locandiera, de Visconti, usou os  tons pastéis, da terra, da vida". Os dois brigam muito? É como afirma Zeffirelli... “Piero grita, foge e quando esta perdendo bate os pés. Parece um grande bailarino como Nureyev”.

O próprio Tosi fala da influencia de Visconti: “era um homem de grande rigor e determinação. Era muito seguro no trabalho porque tinha uma grande limpeza  de pensamento. Podia passar um dia inteiro discutindo a escolha de uma cor para um tailleur. Criou uma grande polêmica num roupa para Laura Antonelli, ele queria o bege, eu preferia o cinza. Discutimos muito e segui meu instinto.  Visconti, quando a viu de cinza, virou sua cadeira de rodas para atender visitantes ao set. Quando cheguei em casa, tinha um bilhete dele onde dizia que pela primeira vez em 25 anos, eu o tinha desiludido. Algumas semanas depois Luchino morreu”.  

 

Filmografia

2009- Omaggio a Roma de Zeffirelli (CM). 2004-  As Chaves da Casa (Le Chiavi di Casa de Gianni Amelio). 2003- La Bohème de Carlos Battistoni (TV). 1995- Bambola di Carne de Andrea Bianchi. 1993- Sonho Proibido (Storia de uma Capinera de Zeffirelli), Albert Savarus (TV, de Alexandre Astruc), Estasi de Maria Carmela Cincinati e Peter Exacoustus. 1991- Vendetta: Secrets of a Mafia Bride (TV) de Stuart Margolin. 1985- A Gaiola das Loucas 3 - Elas se Casam (La Cage aux Folles 3 - Elles se Marient de Georges Lautner). 1982- La Traviata (Idem de Zeffirelli), Atrás Daquela Porta (Oltre la Porte de Liliana Cavani). 1981- A Pele (La Pelle de Liliana Cavani), Giochi Del Diavolo (TV Minissérie, Epis. L´uomo della Sabbia), A Dama das Camélias (La Storia Vera della signora dalle Camelia de Mauro Bolognini). 1979- Il Malato Immaginario de Tonino Cervi. 1977- Al di Lá Del Bene e del Male de Liliana Cavani. 1976- L´Età della Pace de Fabio Carpi, O Inocente (L´Innocente de Visconti). 1975- O Segredo das Velhas Escadas (Per Le Antiche Scale de Bolognini), Libera, Amore Mio... de Bolognini. 1974- O Porteiro da Noite (Il Portiere di Notte de Liliana Cavani). 1973- Golpe de Estado à Italiana (Vogliamo i Colonelli de Monicelli). 1972- Ludwig (Idem de Visconti). 1971- Morte em Veneza (Morte a Venezia de Visconti), Bubù de Bolognini. 1969- Medéia, a Feiticeira do Amor (Medea de Pasolini), Os Deuses Malditos (La Caduta degli Dei de Visconti). 1967- Fantasmas à Italiana (Questi Fantasmi de Renato Castellani), Arabella (Idem de Bolognini), O Incomorável Espião (Matchless de Lattuada), O Estrangeiro (Lo Straniero de Visconti), As Bruxas (Le Streghe de vários – entre eles Visconti, Bolognini, De Sica). 1966- O Fino da Vigarice (After the Fox de Vittorio De Sica). 1964-1965- Il Giornalino di Gian Burrasca (série de teve, 8 episódios). 1964-  La Visita de Antonio Pietrangeli. 1963- Ontem, Hoje e  Amanhã (Ieri, Oggi , Domani de De Sica), Os  Companheiros (I Compagni de Monicelli), Adultero Lui, Adultera Lei de Raffaello Mattarazzo, O Leopardo (Il Gattopardo de Visconti). 1962- Desejo que Atormenta (Senilitá de Bolognini). 1961- A Cavallo della Tigre de Luigi Comencini, Caminho Amargo (La Viaccia de Bolognini). 1960- Um Amor em Roma (Um Amore a Roma de Dino Risi), La Contessa Azzurra de Claudio Gora, Rocco e Seus Irmãos (Rocco i Suoi Fratelli de Visconti), Namoros de Marisa (Marisa La Civetta de Bolognini), O Belo Antonio (Il Bell´Antonio de Bolognini). 1959  Policarpo (Policarpo, Ufficialle di Scritura de Mario Soldati), A Casa Intolerante (Arrangiatevi! De Bolognini). 1958- Jovens Maridos (Giovanni Mariti de Bolognini). 1957- Férias  no Paraíso (Vacanze a Ischia de Mario Camerini), Um Rosto na Noite ( Le Notti Bianche de Visconti). 1956- Irmã Letizia (Suor Letizia de Mario Camerini). 1955- Il Padrone  sono me... de Franco Brusati. 1954- A Arte de Dar um Jeito (L´Arte di Arrangiarsi, de Luigi Zampa), Sedução da Carne (Senso de Visconti). 1953- Musoduro de Giuseppe Benati. 1952- Belissima (Idem de Visconti).

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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