Investigar a Mente em Termos Cinematograficos

Conta o proprio realizador Eduardo Escorel que se decepcionou (mais consigo mesmo?) ao ler a critica que Jean-Claude Bernardet lhe fizera ao filme Licao de Amor (1975)

16/02/2026 04:58 Por Eron Duarte Fagundes
Investigar a Mente em Termos Cinematograficos

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Conta o próprio realizador Eduardo Escorel que se decepcionou (mais consigo mesmo?) ao ler a crítica que Jean-Claude Bernardet lhe fizera ao filme Lição de amor (1975). Quem leu o ácido texto de Bernardet sobre o filme compreende o espírito de desolação de Escorel. É ainda Escorel quem diz: cinco anos depois, faria Ato de violência (1980), uma narrativa que se opunha esteticamente a Lição de amor, como uma resposta ao crítico que (o diz Escorel) todos os cineastas de empenho cinematográfico da época queriam ouvir, o crítico, ele, Bernardet. A reação do crítico foi ainda mais desdenhosa: uma não-reação, nenhuma linha, nada, o filme não existia. Ato de violência foi rejeitado para a competição do Festival de Gramado e, até hoje, permanece uma maldição estética de nosso cinema; talvez ele se mantenha como um filme de culto de espectadores como este que aqui escreve, interessado num certo processo cinematográfico que visa a investigar a mente (os disparates dessa mente, especialmente) das pessoas. É o mais foucaultiano dos filmes brasileiros; o que indica sua nobreza filosófica e antropológica que ainda hoje parece demasiada para o mundo do cinema.

O roteiro acompanha um homem que, sem razão de ser, sem que ele próprio saiba por quê, mata uma prostitua durante um programa num quartinho no centro de São Paulo.  Preso, condenado, depois com pena comutada, finalmente é solto, em liberdade condicional: noivo, ele se casa. Separa-se da esposa, atritado, e volta a vagar nos prostíbulos escusos. E torna a cometer quase o mesmo crime: leva ao apartamento dum amigo uma prostituta e a estrangula durante o ato sexual, da mesma maneira que fizera com a outra mulher anos antes. Na sequência final, um primeiro plano em que o matador é entrevistado por repórteres, reitera que não sabe por que matou as duas mulheres. Ao longo do filme, a Justiça, a sociedade, os psiquiatras tentam enquadrar seu comportamento em categorias prontas, mas algo foge ao espaço lógico da ciência. Quase pela mesma época, apareceu nos cinemas Da vida das marionetes (1980), do sueco Ingmar Bergman, onde um homem matou inexplicavelmente uma prostituta, um curto-circuito cerebral, como escreveu Bergman na época, determinou a inesperada ação. Com facilidade os observadores sobrepuseram um filme ao outro. Mas o cinema espiritual proposto por Escorel é muito brasileiro para ser misturado com os pesos nórdicos; há, na condução de imagens e movimentos de Escorel um rigor plástico próximo do francês Robert Bresson, mas a desglamurização  bem paulistana de Ato de violência é algo original, não-bressoniana.

Nuno Leal Maia como o matador de prostitutas chega aqui  a sua mais densa interpretação. Selma Egrei, habitual rosto dos filmes de Walter Hugo Khouri, também narrativas do espírito porém mais vagas e sinuosas que esta de Escorel, é o outro nome mais conhecido do elenco. Revisto numa sofrível cópia no youtube (gravação sobre imagens do Canal Brasil), descoberta grande cinéfila Cristina Paraguassu, Ato de violência é, de qualquer maneira, o reencontro com uma obra-prima de nosso cinema, ainda que se precise adivinhar a beleza das imagens, puxando pela memória (só se viu o filme em 1981), dum diretor cuja essência plástica é um dado.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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