ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS

Confira a opiniao e os destaques dos filmes em cartaz pelo nosso colaborador Felipe Boso Brida

06/06/2026 03:35 Por Felipe Brida
ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS

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Diamantes

Fenômeno de bilheteria na Europa, o novo trabalho do cineasta turco naturalizado na Itália Ferzan Özpetek, de “O primeiro que disse” (2010) e outros 25 curtas e longas, é uma homenagem ao universo da moda visto por dentro do cinema. Retrata duas histórias distintas, mas que se complementam, divididas entre presente e passado, cuja força feminina é a base desse drama de estética vibrante, que exibe com detalhes os bastidores da transformação de tecidos em figurinos elegantíssimos que serão destinados a celebridades que os usarão nas gravações de um filme. O enredo traz um diretor de cinema, no tempo atual, planejando a execução de um longa-metragem com suas atrizes preferidas, pensando no figurino ideal para a obra; isto os transpõe para 50 anos antes, na década de70, em um ateliê comandado por duas irmãs da família Canova, Alberta (Luisa Ranieri, de “A mão de Deus”) e Gabriella (Jasmine Trinca, de “O quarto do filho”), cujas personalidades são conflitantes. Cada uma tem um modo de pensar e agir. Com elas, trabalham funcionárias que enfrentam dilemas universais: violência doméstica, luto, paixões e maternidade. No ateliê, aquele grupo de mulheres trocam segredos em conversas reservadas (um espaço de sororidade), trabalham arduamente com o tempo contado e se unem em torno de um ideal comum: elaborar os figurinos mais bonitos do cinema. Özpetek costura as historietas com referências cinematográficas aos montes, como uma cena da escadaria que remete à “Crepúsculo dos deuses”. O filme também é especial para o cineasta, uma espécie de memórias do seu primeiro trabalho, nas décadas de 70 e 80, como assistente de direção na Sartoria Tirelli, uma antiga casa italiana de figurinos para o cinema. Além de Luisa e Jasmine, no elenco há outras mulheres carismáticas que trazem vivacidade para a história, como Sara Bosi, Elena Sofia Ricci, Anna Ferzetti (filha do falecido ator italiano Gabriele Ferzetti), Paola Minaccioni e participação do ator Stefano Accorsi. Sucesso estrondoso na Itália, onde liderou bilheterias por quase dois anos (o filme é de 2024), passou em cinemas de mais de 40 países, chegando agora ao Brasil pela Pandora Filmes, depois de ter sido exibido no Festival de Cinema Italiano no Brasil.

Hokum: O pesadelo da bruxa

Estamos em uma boa temporada de filmes de horror que vem levando muita gente para as salas de cinema. Somente em maio estrearam no Brasil sete do gênero: “Exit 8”, “Dolly – A boneca maldita”, “Love kills” (este brasileiro), “Passageiro do mal”, “Obsessão”, “Backrooms: Um não-lugar” e “Hokum”. Os três últimos assisti numa tacada, no último fim de semana, e gostei. Vamos para “Hokum”, um baita terror atmosférico com um personagem só, trancado em uma pousada mal-assombrada. Nesse folk horror inspirado em uma lenda urbana irlandesa, o ator Adam Scott (de “Krampus: O terror do natal”) interpreta Ohm Bauman, um escritor de livros de aventura conhecido, mas egocêntrico, que viaja para o interior da Irlanda com o objetivo de cumprir o último desejo dos pais falecidos recentemente: espalhar as cinzas deles no local onde se conheceram, uma floresta de sequoias. Ele também está lá para terminar seu próximo livro, portanto se hospeda por alguns dias em uma antiga pousada. Escuta de duas pessoas histórias funestas sobre o lugar, de que num dos quartos nupciais uma bruxa foi aprisionada. O cômodo é mantido em segredo, isolado por portas maciças reforçadas com cadeados. Inicialmente ele não dá bola para o caso, mas quando uma funcionária do hotel, com quem ele conversava, desaparece, Bauman resolve explorar os cantos da misteriosa pousada. O escritor não imagina no que está se metendo, até se enfurnar em um pesadelo interminável. O filme é assustador, conduzindo o espectador por uma narrativa de luto, segredos e forças sobrenaturais, com momentos de angústia e sustos de pular da cadeira. O longa anterior do cineasta Damian McCarthy, “Oddity: Objetos obscuros” (2024), mexia com temas parecidos (como isolamento, figuras míticas amaldiçoadas, resolução de crimes do passado), e agora reúne tudo isso em um terror mais explícito e de ambiguidades (aqueles dias de terror são reais ou está na mente do protagonista?). A figura da bruxa aparece nas penumbras, o que gera dúvidas e mais medo no espectador, sendo uma metáfora inevitável da morte. O roteiro tem uma boa construção, com um desfecho regular e cenas bem fotografadas de ambientes escuros (que provocam a tensão necessária para esse tipo de filme). Está nos cinemas pela Diamond Films.

Obsessão

Filme de terror do momento, que está na boca do público jovem, vem lotando sessões nas salas de exibição e causando uma série de sentimentos controversos – eu, por exemplo, fiquei baqueado, pois aquilo tudo mexeu comigo, já que é um filme de pura tensão psicológica que causa mal-estar. Realizado em 2025 por um cineasta independente desconhecido, Curry Barker (que o escreveu e dirigiu), o filme foi exibido no Festival de Toronto e, após um ano, entrou no circuito mundial, incluindo no Brasil, com distribuição da Universal Pictures. É um terror psicológico inquietante, com roteiro original trazendo jumpscares eficazes, assustadores, que faz com que até desviemos o olhar nas cenas em que sabemos que o horror explodirá na tela. Um aparente romance juvenil vira um pesadelo sobrenatural de raízes profundas. O enredo acompanha Bear (Michael Johnston), um rapaz solitário, que procura um novo amor após o término com a namorada. Um dia, em uma loja de souvenirs, compra um brinquedo misterioso chamado One Wish Willow (Salgueiro da Sorte), capaz de realizar um único desejo. Ao pedir para ser amado por sua melhor amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette), ele vê seu sonho se concretizar de forma imediata. Eles iniciam um romance descomunal, só que o amor de Nikki se converte em obsessão. O comportamento de Nikki oscila, como se fosse duas pessoas diferentes: a garota cuidadosa, afetiva, vira em poucos segundos uma pessoa histérica, amarga, capaz de loucuras para ter o namorado por perto. Bear descobre que o desejo escolhido terá um preço sombrio e irreversível. A premissa, aparentemente simples, é engenhosa, dando ao filme uma originalidade rara no gênero, que explora os limites entre desejo, paixão e destruição. Há momentos tensos que deixarão o público de cabelo em pé, tamanho o clima sombrio que o diretor conseguiu instaurar. O roteiro mescla drama íntimo com terror sobrenatural, sem recorrer a clichês, e tudo muito pessimista, incluindo o desfecho arrasador. O filme é de puro clima de paranoia, perseguição, loucura e claustrofobia, com tensão crescente – prepare o coração, já adianto. Há toda uma discussão crítica sobre os relacionamentos sufocantes, principalmente os da atualidade, dos tempos das redes sociais, fugazes e passageiros, que corroem o casal; de um lado, um jovem inseguro que necessita ser amado a qualquer custo, e de outro, uma garota consumida pela necessidade de ter o namorado por perto, não o deixando sair sozinho, nem falar com os amigos. Michael Johnston e Inde Navarrette entregam personagens difíceis de interpretar, dando um show de performance. Eu curti o filme, um dos melhores de terror do ano. Assista, se possível, no escurinho do cinema (para quem gosta de levar sustos) e preste atenção em todos os detalhes.

Dolores

O diretor pernambucano Marcelo Gomes, de “Cinema, aspirinas e urubus” (2005), traz para a tela um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido há seis anos, que seria o término de uma espécie de trilogia, intitulada de Trilogia dos Afetos, iniciada por ele com “A casa de Alice” (2007) e “Ausência” (2014). Utilizando a obra de Teixeira como base, Gomes realizou um drama tocante, feminino, que trata de sonhos e perspectivas futuras, entrelaçando a rotina de três mulheres em histórias que se cruzam. Dolores acaba de comemorar 65 anos (papel da sempre deslumbrante Carla Ribas) e botou na cabeça que quer comprar um cassino para mudar de condição financeira. Ela frequenta bingos, gastando muito dinheiro nos jogos, e trabalha vendendo roupas íntimas em frente a penitenciárias. A filha, com quem não se dá bem, espera a saída do namorado da cadeia; e a neta, integrante de um clube de tiros, pretende se mudar para os Estados Unidos. Todas elas anseiam por um futuro melhor, planejando mudanças decisivas. Um filme de mulheres fortes, feito por elas e voltado ao público feminino. São grandes interpretações em uma história singela, humana e sem pieguice. Destaque no elenco de Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Teca Pereira e participação de Tuna Dwek, Zezé Motta e Roney Villela. Exibido no Festival de San Sebastián e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2025, estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da California Filmes.

O Mandaloriano e Grogu

 A chegada de “O Mandaloriano e Grogu” às telas de cinema representa um marco para o universo de Star Wars, franquia consolidada que completa 50 anos em 2027. Enérgico, envolvente do começo ao fim, que deixa um gosto de “quero mais”, o filme surpreende ao transportar para o grande público os protagonistas mais carismáticos da série da Disney+ “O Mandaloriano” (foram três temporadas entre 2019 e 2023, e do mesmo universo Star Wars a Disney+ produziu outras séries spin-off, como “Ahsoka”, “Andor” e “Obi-wan Kenobi”). A direção de Jon Favreau, que é ator e já teve contato com o mundo Disney, responsável pela direção de filmes como o live-action de “O rei leão” (2019), episódios de “O Mandaloriano” e filmes de super-herói como os dois primeiros “Homem de Ferro” (2008 e 2010), dá o tom do longa:  uma obra eficiente, com roteiro dinâmico e repleto de efeitos visuais de cair o queixo, seguindo o nível do seriado, que gosto muito. Ampliando a mitologia criada desde a queda do Império Galáctico, o filme se passa na Nova República, após os acontecimentos de “O retorno de Jedi” (1983), em um período de reconstrução, quando há uma busca para consolidar a paz enquanto remanescentes imperiais semeiam desordem pela galáxia. Pedro Pascal é Din Djarin, um guerreiro apelidado de “mandaloriano” (sempre com um capacete fortificado, que faz com que nunca vemos seu rosto). Seu companheiro de jornada é Grogu (o “Baby Yoda”), e os dois são convocados para a missão crucial de resgatar Rotta the Hutt (o único filho de Jabba the Hutt), a mando de seus tios. Rotta (voz de Jeremy Allen White) negou-se a herdar o trono, fugindo para uma lua próxima, Shakari, onde hoje é um gladiador - e está lá para levantar fundos para pagar uma dívida mortal. Ao mesmo tempo, a coronel Ward (Sigourney Weaver) obtém informações valiosas sobre um ex-comandante do Império e faz um novo trato com Mandaloriano assim que terminar o resgate de Rotta, para tentar manter a paz na galáxia. O longa se estabelece como continuação direta da terceira temporada de “O Mandaloriano”, funcionando como ponte narrativa para futuros capítulos da saga. A produção preserva a identidade visual do seriado, escalonando situações e trazendo novos personagens – alguns adoráveis, outros sinistros. O longa tem pontos altos que seguem a uniformidade da série: a trilha sonora do sueco Ludwig Göransson, três vezes ganhador do Oscar; o figurino, que é uma tradição da série; a deslumbrante fotografia entre lugares áridos e ambientes tecnológicos, evocando o espírito épico de Star Wars; e os efeitos especiais, que seguem as premissas da Lucasfilm, com uso intensivo da tecnologia StageCraft, que revolucionou a série e agora ganha proporções mais impressionantes no cinema. Apesar de liderar a bilheteria norte-americana em seu fim de semana de estreia (em 20 de maio), registrou a abertura mais modesta da franquia Disney, e até agora no mundo arrecadou US$ 252 milhões (sendo o orçamento de US$ 165 milhões, ou seja, não explodiu como imaginavam). Ainda assim, os fãs demonstram entusiasmo pela expansão da jornada de Mando e Grogu, consolidando-os como ícones contemporâneos da saga galáctica. PS: Até Martin Scorsese entrou na brincadeira: ele empresta sua voz para um personagem engraçadíssimo, o macaco cozinheiro Hugo, de quatro braços, que mora em Shakari e ajuda Mando a localizar Rotta.

 

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com

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