A Crise Espiritualdo Homem Segundo Rossellini
De quando em quando convem retornar a esta viagem italiana para se saber ate onde pode ir a profundidade de um filme. Estamos diante de Viagem a It?lia
De quando em quando convém retornar a esta viagem italiana para se saber até onde pode ir a profundidade de um filme. Estamos diante de Viagem à Itália (Viaggio in Italia; 1953), também conhecido entre nós como Romance na Itália ou Viagem pela Itália. O cineasta Roberto Rossellini, na década anterior aclamado por seu rigor e despojamento neorrealistas próximos do documentário antropológico em obras como Roma, cidade aberta (1945) e Paisà (1946), propõe em Viagem à Itália uma inquietação nova e mais ampla no cinema, vai tratar da crise espiritual do homem do século XX a partir das vivências do casal contemporâneo; desde o início, a narrativa de Rossellini adota os ares duma espécie de turismo da alma. Em cena, um casal da classe média alta inglesa viaja pelos cenários milenares da Península, o homem e a mulher vivem suas crises internas, seus afastamentos, estão em busca de encontrar-se (a si mesmo e ao outro) nesta viagem.
O primeiro movimento do filme é um travelling-para-a-frente por uma estrada de interior, a câmara posta-dentro-do-carro trepida, como o próprio carro, ao longo da passagem do olhar da câmara (ou do carro, que suspeitamos) vemos árvores à beira do caminho. Então há um corte para um travelling lateral junto duma estação de águas, vemos o que talvez seja o Mediterrâneo. Em seguida, corte para o interior do carro, onde vai começar a ação dramatúrgica, pelos diálogos; a mulher dirige, param o carro, o homem assume a direção.
Desenvolvendo com amplitude filosófica as questões de seu filme, Rossellini desnuda os problemas de suas personagens. Durante seus passeios italianos, os ingleses Alex e Katherine poucas vezes estão juntos, mais se afastam nesta procura de si mesmos, neste périplo que é seu turismo espiritual. Há uma cena em que Alex, diante de sua própria esposa, adota estranhos carinhos para com outra mulher; Rossellini filma o olhar perplexo de Katherine. Em outra sequência, saindo sozinho para outra cidade, Alex dá carona a uma torturada prostituta de rua. Katherine está só no hotel em Nápoles. Esta mostra da incomunicabilidade do casal é a matriz do que faria no fim do decênio outro italiano, Michelangelo Antonioni, em A noite (1960), onde também mostraria um casal que ao longo do filme se interessa por outras coisas e outras pessoas para, somente lá no ocaso narrativo, topar, num gramado, meio ao acaso, um ponto de contato, doloroso e inevitável. Em Viagem à Itália o ponto de contato entre Alex e Katherine vem no momento em que, estimulados por um guia, eles topam com os fósseis dum casal abraçado nos destroços arqueológicos duma cidade antiga, Pompeia, destruída pelo vulcão Vesúvio; a emoção da cena e das personagens é profunda. A sequência posterior se dá numa procissão católica: na multidão ela se afasta e perde-se dele, ele corre desesperado no seio do povo, encontra-a e então lhe diz o inevitável, “eu te amo”. O ponto de contato foi impulsionado antes: diante da trágica morte, os amantes de Pompeia se abraçaram. Os rumos da procissão em Viagem à Itália evocam outro diretor influenciado por Rossellini, outro italiano, Federico Fellini, especialmente em As noites de Cabiria (1957), igualmente um olhar terno sobre o universo das meretrizes.
O carro que abre o filme materializa o cenário da alma, e também da linguagem do cinema. Sabe-se que o iraniano Abbas Kiarostami partiu dali, desse turismo metafísico de Rossellini, para construir outras novidades cinematográficas. Sabe-se também que as conversas íntimas a bordo dum veículo, bem antes de Kiarostami rodar e rodar com seus carros fílmicos, estiveram em Morangos silvestres (1958), do sueco Ingmar Bergman, em Elisa, via minha (1977), do espanhol Carlos Saura. A base de todos estes é Rossellini.
A fratura do casal exposta em Viagem à Itália é ampla como retrato de uma situação de contemporaneidade (a década de 50). No entanto, o espectador é tentado a especular as realidades íntimas do homem Rossellini, que então vivia seu casamento com a atriz sueca Ingrid Bergman, casamento que começara em tumultos no fim dos anos 40 quando Ingrid (então casada nos Estados Unidos) debandara de Hollywood para o cinema e para os braços de Rossellini. Ingrid é uma presença magnífica em Viagem à Itália. O observador começa a pensar se a história proposta pelo cineasta em seu filme não seria um pouco a manifestação, em signos, da própria vida de Rossellini, se seu casamento com Ingrid não estaria nas curvas críticas, pois logo no fim dos anos 50, ao filmar na Índia, Rossellini encontrou sua indiana, sua última esposa, deixando Ingrid para trás. Viagem à Itália é a crise espiritual do homem do século XX, certo, mas nasce talvez da própria crise espiritual da genialidade de um artista, Roberto Rossellini.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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