Ernane: O Ser Metaforico
Ernane se diz (neste livro e tamb?m nos anteriores) incapaz de compreender uma metafora; alude a concretude
No começo de criativaMENTE: autismo e mercado de trabalho (2025) Ernane Alves relata um conselho de seu avô, destacando em negrito palavras como “pessoa”, “cabeça” e “alguém”, usadas nas frases que seu ascendente lhe dizia. E, enfeixando os reflexos destes dizeres antigos, anota: “Eu tinha uns 11 anos de idade e não assimilei bem o que meu Avô queria dizer, o meu pensamento concreto nunca me ajudou a interpretar metáforas.”
Ernane é mineiro, natural da idade de Pedro Leopoldo, a poucos quilômetros de Belo Horizonte. É cineasta e artista plástico. No tópico (deste seu atual livro) a que chamou “Literatura”, ele assevera: “A ‘escrita’ não é, e nunca foi, uma novidade para mim. Escrevo um diário por ano, isso desde os 12 anos de idade.” Ainda aduz, como experiência de sua literatura, as cartas de um “tórrido romance” trocadas com uma namorada que morava em Nova Iorque entre 1994 e 1997. Mais adiante, Ernane lembra ainda: “Todos os roteiros dos filmes que dirigi foram escritos por mim. O dito ‘cinema de autor’.” Sim: Ernane tem o dom da escrita, num jeito particular de escrever; seus filmes, em seus diálogos, anunciam bem isto. O cinema de Ernane prenuncia (ou, mais precisamente, pré-anuncia) a literatura de seu autor: o cinema e a literatura de Ernane se interligam. Se Ernane já escrevia antes de entregar-se a uma carreira de escritor, é a partir de suas relações com sua condição de autista (diagnóstico tardio, segundo ele próprio) que a necessidade de publicar livros dividiu sua personalidade múltipla, contracenando com o cineasta e o pintor. Seus livros tratam disto: sua formação de indivíduo-autista em Colapso azul — um olhar particular (2021), sua sexualidade difusa e complexa em nosso mundo à deriva em O garoto satélite (2023). Agora, em criativaMENTE: autismo e mercado de trabalho ele tateia este complicado processo de raciocinar como inserir um indivíduo neurodivergente na difícil arte de ganhar a vida hoje em dia; Ernane relata a própria trajetória, na vida, nos trabalhos antes de se entregar a uma forma artística, depois no cinema, nas exposições de quadros, finalmente neste deparar com o fazer livros e o inevitável mercado editorial.
Ernane se diz (neste livro e também nos anteriores) incapaz de compreender uma metáfora; alude à concretude. Mas ele próprio, um artista, nas suas próprias condições, é uma metáfora. Que diz criativaMENTE: autismo e mercado de trabalho das condições de trabalho para um autista? Há momentos em que a prosa de Ernane, construída amiúde de uma ortografia curiosamente arcaica ou desusada e feita de sintaxes enxutas e precisas, parece evocar certos signos que remetem a alguns poemas livres do francês Arthur Rimbaud, o anjo devorador e abissal das letras francesas. A metáfora da metáfora vai despontar no fim do livro: “Como já disse antes, sou um acidente, pronto para acontecer...” Entre o cinema, a pintura e a literatura, alguma coisa acontece, urgentemente.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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