As Coisas Contidas no Interior de Pierre Rivière

O desconhecimento por aqui de boa parte da obra do cineasta francês René Allio não impede a grandeza de seu cinema

12/01/2015 12:27 Por Eron Duarte Fagundes
As Coisas Contidas no Interior de Pierre Rivière

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Antes do escrito: Em 1835, em Aunay, no interior da França, um jovem camponês, Pierre Rivière, degola sua mãe, sua irmã e seu irmão. Em seus depoimentos alega basicamente que o fizera por amor a seu pai, que tinha problemas com as brigas de sua mãe. 179 anos depois, em Albi, um bucólico lugarejo da mesma França, se vê outro estranho crime. Noticia o jornal francês, enquanto no Brasil se desenrola a Copa do Mundo: “Uma educadora de 34 anos foi apunhalada até à morte pela mãe dum aluno, nesta sexta-feira, 4 de julho, em Albi”. Dizem que ouviram a assassina gritar: “Eu não sou uma ladra!” Que caminho da mente francesa vai do parricida à matadora da mulher que educava?

 

O desconhecimento por aqui de boa parte da obra do cineasta francês René Allio não impede a grandeza de seu cinema. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (Moi, Pierre Rivière, ayant ma mère, ma soeur et mon frère...; 1976) é uma grande reflexão cinematográfica sobre a instalação sofisticada da loucura numa mente primitiva, um jovem camponês que amava tanto a seu pai que se sentiu instado a matar sua mãe, sua irmã e seu irmão, crime que chocou uma pequena cidade francesa na primeira metade do século XIX. O ponto de partida do filme de Allio é um “estudo coletivo” do pensador francês Michel Foucault, um especialista nas relações entre psiquiatria e justiça penal na França. Foucault ajudou o realizador a roteirizar seu filme. Para a carga de veracidade da narrativa, Allio filmou tudo onde, mais de um século antes, ocorrera o crime de Pierre e utilizou atores não-profissionais catados no lugarejo e provavelmente muitos deles descendentes das mesmas criaturas que assistiram às sanguinárias ações do protagonista em 1835.

O primeiro filme de Allio, A velha dama indigna (1965), já apaixonava os que tratavam o cinema como algo maior do que banalidades comerciais. Eu, Pierre Rivière leva adiante o processo de desglamurização do cinema por parte de Allio. A fotografia é despida de artifícios, contenta-se mesmo com uma iluminação precária: evita-se a beleza fácil, os quadros parecem produzir uma opacidade relativa. Os gestos dos atores seguem um ritual desdramático, porém sem perder de vista a construção do drama. Como se, no século XIX, um documentário cinematográfico estivesse sendo rodado, mas impossivelmente: é chegada a narrativa que mimetiza o documento. O documento, na verdade, está em Foucault, que todavia também é um ponto-de-vista de escritor, pois, como um diretor de cena, monta o material encontrado. Pierre Rivière parece ter existido para que Allio e Foucault expressassem suas artes.

Para se entender melhor o lado complexo da simplicidade narrativa de Eu, Pierre Rivière,é bom olhar para algumas frases espalhadas pelo cineasta em suas notas sobre a realização. Diz ele, inicialmente: “Eu, Pierre Rivière deveria responder, numa só vez, às necessidades de um filme documental e de uma ficção dramática.” Responde, de fato: funde as coisas. E sobre a escolha dos intérpretes amadores: “A filmagem com os atores não-profissionais de Eu, Pierre Rivière foi para nós uma experiência apaixonante.” Explicitando o processo: “Há duas escolas principais de atores não-profissionais, a bressoniana: o não-profissional é uma forma vaga, interiormente investida pelo realizador e pelo espectador, e a escola documentarista, do tipo do cinema-verdade. Mas aqui, com a distância do tempo, da ficção, nós trabalhamos precisamente como se lidássemos com profissionais. É isto que foi formidável, é esta a cumplicidade à qual chegamos com os atores.”

Depois, no título em francês (do livro e do filme) há um andamento verbal que escapa ao título dado em português. Há as reticências, e antes dela, aquele particípio passado composto, “ayant egorgé”, tudo indicando que a degola dos familiares é somente o começo dum processo mental que existirá mesmo nos interrogatórios, no automemorial, na fuga pela floresta. Pierre Rivière, saído da vida real do século XIX, convertido em livro por um filósofo do insocial, é uma das grandes personagens do cinema no século XX. E a atualidade de seu gesto é cada vez mais assustadora, neste pórtico do século XXI, como se vê pelos noticiários criminais internacionais.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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