A Mulher Sem Dono
Em A Mulher de Todos o diretor Sganzerla faz uma ode ao fisico e a personalidade extasiante de sua musa e esposa, Helena Ignez
A mulher de todos (1969) é a resposta feminina a O bandido da luz vermelha (1968). São os dois primeiros filmes de Rogério Sganzerla, aquele impulso inicial de cinema em que o realizador estabeleceu as bases de sua estética: planos que se fragmentam por dentro, cortes ríspidos que fragmentam o próprio controle de linguagem de Sganzerla, então no auge do frescor criativo. Ambos os filmes pugnam por personagens boçais, não há aí espaço para o refinamento dos temperamentos. O bandido do primeiro filme é grosso, e sabe disto, e o diretor-criador o incorpora para a edificação duma certa linguagem. A mulher que domina de maneira até mais impositiva o segundo filme entrega seu corpo ao exibicionismo da câmara, e a todo o momento se afirma dizendo frases como “nasci para os boçais”, “eu preciso de boçais”. No entanto, o exibicionismo da personagem feminina, namorando a vulgaridade, exibe um êxtase do corpo que traz uma depuração; em A mulher de todos o diretor Sganzerla faz uma ode ao físico e à personalidade extasiante de sua musa e esposa, Helena Ignez, mas como artista a estaticidade de Rogério parece muito mais dirigida do que dirige o corpo elétrico, dançando, transbordante de desejo e sexo de Helena.
Desde o início, A mulher de todos estampa em suas conturbadas e agressivas imagens o hino à mulher grandiloquente, dominadora. Ela é Ângela Carne e Osso, a voz off do narrador masculino a apresenta quase como um espetáculo circense, “as aventuras sexuais de Ângela Carne e Osso, uma das dez mais megalomaníacas”. Helena Ignez corporifica com exuberância esta personagem; a voz da atriz aparece ora off, ora in para sublinhar a riqueza de movimentos de seu corpo. Enquanto os créditos iniciais descem sobre as imagens, primeiro o título em letras garrafais, vemos o Doktor Plirtz (composição de Jô Soares) caminhando primeiro na areia, depois correndo para o mar, entrando na água, agarrando e mordendo um grande balão, sobre este gesto esquisito, desfocado de Plirtz ouvimos o narrador masculino dizer: “será este o marido nacional do século vinte e um? Do dezesseis ou do vinte e um?” O filme joga com o futuro então longínquo e mergulha este futuro no passado remoto. Plirtz é o marido da mulher de todos, da Ângela Carne e Osso, ele é corno em série.
Na primeira sequência após a apresentação dos créditos, Ângela bate na personagem de Stenio Garcia. “Aleijado! Paulista!” Mais adiante Helena contracena com a personagem de Antônio Pitanga, a criatura do Vampiro. Helena dança como uma cobra, retorcendo-se, esgueirando-se, os planos decupam-se num experimentalismo visual atroz. Ela diz, agarrando-o por trás, voraz: “Safado! Você deveria estar na senzala.” Como aqui a página não dá a cor de um nome, devo escrever que Pitanga é um ator negro, é a personagem/Pitanga quem sofre as investidas verbais e corporais e as visões dos torneios físicos de Ângela/Helena. Ângela Carne e Osso impõe o feminismo de Helena Ignez construindo agressões ora xenófobas, ora racistas para sua criatura. Mas, lembremos, a boçalidade é uma natureza necessária à construção da estética de Sganzerla desde seus inícios.
“Tem que viver muito, amar muito... ainda”, exclama lá pelas tantas Helena. Após dizer isto, a personagem dança um rock, exibindo com vigor o corpo da atriz, um corpo dançando diante do espelho e também diante da câmara, e do espelho-câmara.
Mas nem só de Helena e sua Ângela vive A mulher de todos. Rogério refaz a certa altura uma cena clássica de A um passo da eternidade (1953), de Fred Zinnemann, aquela em que Deborah Kerr e Burt Lancaster se abraçam e beijam na areia duma praia. Em A mulher de todos é um casal de turistas (Thelma Reston e Abrahão Farc, se não me engano) que rola na areia, depois dentro d’água, ela insta com ele que dê a ela uma cuba.
“Ela era muito perigosa”, revela, circunspecto, o cornudo seriado, no fim do filme, depois de amarrar sua esposa Ângela para a morte. “Nós não gostamos de gente”, lembra ela, em voz off, antes de ser envolta em cordas pelo marido. A mulher de todos é um jogo de simetrias devastador; ao propor a grande simetria com seu antecessor O bandido da luz vermelha, A mulher de todos dilacera-se.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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