A Pompa e a Dissimulacao
Anchieta Jose do Brasil (1978) padece de uma pomposidade literaria e de um ritmo narrativo truncado
Admirador confesso do italiano Roberto Rossellini, o cineasta brasileiro Paulo Cezar Saraceni presta uma homenagem a seu mestre em Anchieta José do Brasil (1978), igualmente com uma dedicatória final a outro mestre de Saraceni, o crítico de cinema brasileiro Paulo Emilio Salles Gomes; ao mergulhar numa figura importante da história brasileira, o jesuíta José de Anchieta (1534-1597), Saraceni tenta um traçado mais ou menos didático das curvas do pensamento nacional, assim como Rossellini, em sua fase televisiva, fez ao recapturar aspectos de pensadores em Sócrates (1970) e Santo Agostinho (1971); igualmente Saraceni simula um certo rigor formal. Mas Anchieta José do Brasil padece de uma pomposidade literária e de um ritmo narrativo truncado, repleto de imagens plásticas mas absolutamente desprovidas de textura fílmica mais agudas.
O desenho das primeiras relações humanas no Brasil é caricato. Jesuítas, índios, portugueses e até um francês são estereótipos sem vida em cena. Saraceni não teve o dom de Joaquim Pedro de Andrade que, em Os inconfidentes (1972), foi ao nosso passado histórico para falar da vida presente. Nota-se em Anchieta José do Brasil este mesmo esforço de trazer dos arcaísmos lições contemporâneas; mas estas lições, assim expostas cinematograficamente, assomam arcaizantes, anacrônicas, pedantes. Tanto o filme de Saraceni quanto o de Joaquim Pedro se filiam a uma corrente de investigação histórica feita pelo vigiado cinema brasileiro dos anos 70; o que o sistema exigia dos cineastas era tratar com reverência episódios da história brasileira; Joaquim Pedro deu a volta por cima e fez um filme contundentemente crítico, enquanto Saraceni se perdeu nas bordas de seu formalismo, longas imagens de um país povoado por silvícolas, precários colonizadores e alguns jesuítas idealistas, estes os primeiros educadores do país. Costurado pela abundante narrativa-over na voz de Ney Latorraca no papel central, Anchieta José do Brasil se torna numa dispersão contínua e vai concluir-se com uma batucada brasileiríssima final para o enterro de José de Anchieta, buscando ecos do filme anterior de Saraceni, Amor, carnaval e sonhos (1972).
Para além de suas limitações cinematográficas, Anchieta José do Brasil é um ponto de inflexão importante da história de nosso cinema. E traz uma plêiade de atores que circularam bastante pelas telas nacionais da época: além de Ney como Anchieta, vemos Luiz Linhares como Manoel da Nóbrega, Maurício do Valle, Joel Barcellos (como um índio amigo de Anchieta), Hugo Carvana, Maria Glayds, Ana Maria Magalhães, Carlos Kroeber, Wilson Grey, Paulo César Pereio, Maria Sílvia.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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