O Anjo no Demonio: Plantas e Outras Circunstancias
A Visao das Plantas tem muito disto em seus torneios de linguagem: a arte literaria como imaginacao pura
A visão das plantas (2019) é uma descoberta por aqui do mais inventivo da literatura lusa. Sua autora, a ficcionista Djaimilia Pereira de Almeida, nascida em Angola, parte de um livro português que ela estima muito, Os pescadores (1923), de Raul Brandão, que são crônicas em torno do universo dos pescadores. Brandão é um autor lusitano que teve seu prestígio histórico e ao menos no Brasil de hoje diz pouco ao leitor brasileiro, ainda o mais culto e obcecado por mergulhar em obras do passado literário das literaturas de nossa língua. É preciso escavar bastante em certas anotações mnemônicas muito antigas de nosso cérebro para ter vestígios de nossas leituras de Brandão ou em torno dele. Mas não há necessidade, em primeira mão, de ter lido o antigo luso para chegar bem à leitura de A visão das plantas: embora a alusão de Djaimilia a seu predecessor possa levar à redescoberta de Brandão. Em A visão das plantas Djaimilia dá estatura ficcional a um dos seres observados pela velha pena de Brandão, o truculento Capitão Celestino, que “tendo começado a vida como pirata a acabou como um santo”. A frase faz parte da epígrafe retirada de Os pescadores para o frontispício de A visão das plantas.
Na narrativa de Djaimilia o passado criminoso de Celestino é uma evocação-impulso que agora está cercada do amor das plantas. “Noite abençoada. Acabou em casa, restaurado, após uma vida cheia.” Os capítulos (sem nome, sem números) de A visão das plantas são instantâneos pictóricos expostos com plasticidade pela escritora, esta plasticidade conduz uma sedução da linguagem no mover-se do texto que se espalham lentos na página. “Quereis amoras? A sombra abatera-se sobre o quintal. O vento arrastava folhas secas pelos ladrilhos. As rosas retiraram-se para dormirem. As margaridas apanharam os cabelos ao alto. De que lhe valia a plateia, se tudo inventava? Os olhinhos dos pequenos a suplicarem pela faca, a curiosidade como uma erva daninha a entranhar-se nos músculos. Antes valia como um mergulho para acordar de vez da bebedeira.”
Há uma transcendência ecológica em A visão das plantas, obtida pela textura de rigor e concisão de suas orações, numa sintaxe cerebral e observadora. Artista plena, Djaimilia descortina-nos. “As plantas viam o jardineiro como as plantas veem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora.” E mais: “Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.”
Celestino morre. As plantas –as suas plantas—seguem a vida. “As palavras escondiam cobiça. Nas suas mãos pias, todas as plantas morriam.” Djaimilia esteve na Festa Literária de Paraty, em julho de 2026, onde dividiu uma mesa com o escritor franco-argelino Kamel Daoud, para dizer deste instante de concepção, embrionária mesmo, duma narrativa literária, onde um livro é primeiro imaginação e pode mesmo existir antes de se materializar, ou até sem nunca se materializar na página de papel, pode estar por aí somente como imaginação. A visão das plantas tem muito disto em seus torneios de linguagem: a arte literária como imaginação pura; pré-escrita.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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