A Cria da Orgia
Orgia ou O Homem que Deu Cria se estrutura um pouco como uma caravana que esta sempre andando pelo interiorzao do pa?s, estradas perifericas perdidas numa especie de sertao
João Silvério Trevisan acabou tornando-se um escritor. No entanto sua fama dentro de nossa estética terceiro-mundista ainda está ligada a um clássico de nosso cinema marginal, Orgia ou o homem que deu cria (1970), obra muito pouco vista, perseguida pela censura dos militares (que a tirou de circulação) e inédita em Porto Alegre até um certo sábado de 24 de maio de 2014. Trevisan como escritor é bastante apreciado por seu romance Ana em Veneza (1994), que trata da mãe brasileira do escritor alemão Thomas Mann, entre outras evocações. Mas o cinema de Trevisan, no único filme longo que ele realizou, é outra coisa: tem o comportamento da precariedade das coisas do Brasil e utiliza esta precariedade como um trunfo de sua rebeldia desbocada.
Orgia ou o homem que deu cria se estrutura um pouco como uma caravana que está sempre andando pelo interiorzão do país, estradas periféricas perdidas numa espécie de sertão. Vários indivíduos ficam andando a esmo e dizendo coisas. “Alguma coisa estava acontecendo!” exclama alguém em cena. Em Bang Bang (1970), de Andrea Tonacci, alguém resmunga algo parecido: “Alguma coisa se passa. Mas não se sabe ao certo.” Algo diferente havia no ar. Era tão esdrúxulo que um homem engravidara e ao cabo do filme daria à luz uma criança nos espaços dum cemitério. Trevisan parodia uma minúscula primeira missa no Brasil para gatos pingados de selvagens e brucutus. Sintomaticamente o padre é Ozualdo Candeias, diretor de A margem (1967), considerado a matriz de nosso cinema da margem. Trevisan põe em cena igualmente outros nomes comprometidos com as vanguardas de nossa sétima arte de então, os críticos Jean-Claude Bernardet e Jairo Ferreira.
“Falo como um louco no manicômio”, proclamava Trevisan na época de Orgia. E é bem isto sua aventura visual. Uma pequena procissão de doidos. Uma alegoria duvidosa e duvidante. Transita por Glauber Rocha, evidentemente, mas o funde com Rogério Sganzerla.
Talvez Trevisan tenha feito Orgia porque nos anos 60 ou 70 a literatura que ele queria fazer, ou que viria a fazer, não tivesse sentido. Teria de esperar algumas décadas. O que interessava então ao escritor era mostrar na tela alguém como ele (um intelectual) que comia livros (literalmente numa cena do filme) e gritava impropérios indecifráveis. Orgia ou o homem que deu cria é um impróprio que o tempo finalmente pôde decifrar.
P.S.: Pode-se dizer também que o estado de cineasta de Trevisan influenciou um pouco seu lado de escritor. Sua literatura não chega a ser tão rude e vomitativa quanto sua Orgia com a câmara. Mas ao escrever, por exemplo, Ana em Veneza, o romancista não esqueceu a câmara. Lá pelas tantas anota: “A zoom abre. Câmera vai descrevendo uma panorâmica sobre o ambiente pasteurizado do café, que é um círculo de proporções medianas. Paredes vermelhas e azuis. Azuis também as mesas estilo coisa-nenhuma-lanchonete, os assentos das cadeiras e o chato acarpetado. Câmera continua em panorâmica pelo centro do local.” Escrever pensando no cinema, redigir como se fosse um roteiro do filme o que é na verdade uma narrativa literária, sentir falta da câmara diante das palavras. Quem fez ou faz cinema ou vê muitos filmes e pensa sobre eles, depara com este problema ao escrever.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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