O Pensamento do Come?o do Seculo

A prosa em lingua portuguesa na contemporaneidade abriga um pensador a agudeza de pensador e criador em palavras como Juremir Machado da Silva

08/08/2026 04:12 Por Eron Duarte Fagundes
O Pensamento do Come?o do Seculo

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A prosa em língua portuguesa na contemporaneidade abriga um pensador  a agudeza de pensador e criador em palavras como Juremir Machado da Silva, um gaúcho que vive em Porto Alegre, nasceu em Santana do Livramento e já habitou em outras quadras um dos centros culturais do mundo, Paris, na França. Disfarçado de cronista de jornal, o que Juremir faz é o que todo grande pensador faz de Platão e Montaigne e a Edgar Morin: instar com o leitor para pensar. A orquídea e o serial killer (2012), um antigo livro aqui objeto deste comentário, é uma reunião de crônicas de determinada época de sua trajetória; e, como se vê (ou lê), a escrita de Juremir nada teme, do sentimental do cotidiano (“Uma perda”) às discussões mais sofisticadas e por isso menos abordadas (“Dois polímatas”); volto à base do pensamento inicial de meu texto, a língua portuguesa tem no verbo de Juremir um notável ninho, rigor, beleza, profundidade, elementos que nem as necessidades corriqueiras do jornal e  as transformações que ocasionalmente as décadas possam ter feito em seus textos logram diminuir. O prosador Juremir continua o mesmo poeta tenso e delirante daqueles anos (seus começos) em que escreveu um necrológio tardio para a poetisa  Ana Cristina César. A orquídea e o serial killer abre com “Pós-Drummond”, uma poesia; na verdade, a poesia é a base de todas as construções sintáticas, morfológicas e semióticas de Juremir, um arguto e crítico leitor de gente como Vinicius, Drummond e Rimbaud. Há muitos anos, logo depois duma famosa polêmica jornalística em que Juremir se envolveu, uma velha amiga me disse: “Juremir, chegando da França, se julgava o ‘enfant terrible’ de nossa província e quis pôr em prática este conceito”. Mais recentemente, quando referi elogios habituais e naturais a Juremir diante dum jovem amigo que levava em conta meus chutes literários e cinematográficos, este amigo se surpreendeu, pois, lendo esporadicamente uma crônica ou outra do autor de Cai a noite sobre Palomas (1995) e alguma notícia veiculada por aí sobre o escritor, via em Juremir alguém que se metia puerilmente em broncas com gente famosa. Mas o essencial, ao que parece, o mundo contemporâneo de Juremir não sabe ver: a língua portuguesa à brasileira em Juremir atinge uma profundidade de pensamento que, pela leitura de outros escritores brasileiros da atualidade, pareceria impossível, como ele próprio escreve dos textos do argentino Jorge Luis Borges —“o argentino consegue o que parece impossível”.

P.S.: As notas acima compõem um texto que escrevi quando se deu o lançamento do livro A orquídea e o serial killer. Alterações houve somente para dar uma visão mais atual e de acordo comigo a um livro que já tem mais de uma década, o que, num século como este, representa substanciais modificações na relação autor-leitor.

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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