Valerian - O Heri Esquecido

Conhea a histria deste heri das HQs, por aqui quase desconhecido, que tem muita influncia na Cultura Pop

10/08/2017 09:02 Por Adilson de Carvalho Santos
Valerian - O Her처i Esquecido

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Valerian - O Herói Esquecido

Por Adilson de Carvalho Santos

Os quadrinhos não são apenas povoados por super-heróis. O universo da arte sequencial vai muito além do nicho DC x Marvel. Os europeus nos legaram Asterix, Lucky Luke, Tenente Blueberry, Tin Tin e outros personagens de grande apelo; estando entre eles Valerian, um herói desconhecido do grande público aqui no Brasil, mas cuja influência para a cultura pop é maior do que se supunha.

O personagem título é um agente espaço-temporal saído da mente do escritor Pierre Christin e do desenhista Jean-Claude Mézières, dois amigos franceses que por volta dos 29 anos uniram seus respectivos talentos e interesses para criar uma epopeia futurística, em uma época que a França não se interessava tanto pelo gênero, mergulhando na literatura de Jules Verne, Issac Azimov e Philip K.Dick, autores admirados por Christin e Mézières. A primeira aparição do herói se deu em novembro de 1967, na revista Pilote #420, um exemplar da banda desenhada (bande dessinée - como também são conhecidas as HQs na França) que trazia uma coletânea de personagens como Asterix, o Pequeno Nicolau entre outros. Valerian teve seu primeiro arco entitulado “Les Mauvais Réves” (Bad Dreams) publicado em forma de série entre novembro de 1967 e fevereiro de 1968, se destacando e ganhando a partir de 1970 seu próprio álbum (seguindo a tradição europeia de tratar os quadrinhos como uma forma de literatura desenhada, conforme descrito pelo autor italiano Hugo Pratt). No Brasil, o personagem só chegaria uma década depois, bem no início da década de 80, quando este passou a ser publicado no “Globinho”, o suplemento dominical do jornal “O Globo”. Ao todo foram 22 álbuns, além de sete histórias curtas que saíram quinzenalmente entre 1969 e 1970 na revista “Super Pocket Pilote”, reunidas em volume único em 1997 no volume “Les Chemins De Espace” (Across the Pathways of Space).

A princípio Christin e Mézierès pensavam em criar um personagem do velho oeste americano, pois admiravam muito o período tendo ambos morado por um tempo nos Estados Unidos, frequentando lugares como Texas e Utah. Quando perceberam que já haviam muitos personagens deste tipo, decidiram deixar os espaços abertos das pradarias americanas para o espaço, trocando a figura do cowboy por um agente cuja missão é garantir a integridade do espaço e tempo. Valerian é, portanto, o herdeiro da tradição dos aventureiros espaciais clássicos do início do ´seculo XX como Buck Rogers (de Philip Nowlan & Dick Calkins), Brick Bradford (de William Ritt & Clarence Grey) e – claro – Flash Gordon (talvez o mais conhecido destes, criado por Alex Raymond).

Embora George Lucas nunca tenha admitido, vários elementos de Star Wars são obvias influências das belíssimas páginas criadas por Christin & Mézières, como o design das naves e cidades, a figura do vilão vestido de preto para ocultar seu rosto desfigurado, até mesmo o famoso biquíni usado pela Princesa Léa em O Retorno de Jedi. Em “L'Empire des milles planètes” (O Império dos Mil Planetas), segundo álbum de Christien & Meziezes de 1969, Valerian é congelado em uma espécie de plástico líquido tal qual Han Solo em O Império Contra Ataca (1980).

A arte de Mézières cria painéis lindíssimos de grande apelo visual, colorizados por Evelyn Tranlé, irmã do desenhista, enriquecidos pelo texto onipresente de Christin. Ambos fazem do mundo do século 28 uma utopia sedutora e rica em elementos filosóficos, fazendo questionamentos muito à frente de seu tempo como questões de relevância ambientalista discutidas quando Valerian visita outros mundos, e o próprio empoderamento feminino, discutido à luz da atualidade, através da figura de Laureline, a parceira de Valerian, de extrema importância para o desenvolvimento das histórias. Enquanto Valerian veste o arquétipo do herói leal e corajoso, Laureline é uma personagem auto confiante e independente, cuja beleza e sensualidade são apenas adereços à uma personalidade atuante, não apenas um objeto de desejo, mas a outra metade de uma parceira de iguais. A princípio a personagem, que fora resgatada do século 11, seria usada apenas no primeiro arco de histórias, mas sua popularidade garantiu sua continuidade na série, a tal ponto que a partir de 2007 os autores através da Daugard (a editora que por mais de 40 anos publica o material) rebatizaram a série como “Valérien et Laureline”, reimprimindo os álbuns anteriores com o novo título.

Nesta mesma época, celebrando 40 anos de sua criação, Valerian ganhou uma série animada, uma produção franco-japonesa no melhor estilo dos animes, exibida com relativo sucesso no Canal +Family e que contou com 46 episódios de 26 minutos cada. O cineasta francês Luc Besson sempre foi admirador da HQ e contratou o próprio Mézières como designer do filme O Quinto Elemento (1998). Há muito tempo o diretor alimentava um plano de adaptar o material recorrendo assim a dois álbuns como fonte para seu roteiro, “L'Empire des mille planètes” (O Império do Mil Planetas) e L'Ambassadeur des Ombres“ (O Emaixador das Sombras) de 1975. Com o lançamento do filme, a série finalmente ganha espaço para ser trazida ao público brasileiro pela Sesi-SP Editora que anuncia a publicação de um total de seis volumes.

Hoje, respectivamente com 79 e 78 anos, Christin e Mézières pararam de produzir a série mas permitiram que outros autores criassem novas histórias, desde que não fossem continuações da série, mas releituras dos arcos passados, já tendo dois volumes assim produzidos, um em 2011 e outro em 2017. Vivendo um momento em que vários filmes buscam fonte de material nas HQs, vale a pena ter um espaço reservado para conhecer o trabalho desses fantásticos autores, visionários cuja influência não está sendo devidamente notada, mas que justiça seja feita pois sua contribuição para os quadrinhos, e para a cultura pop, é de grande valia justificando que os quadrinhos sejam considerados a nona arte, não pelo apelo comercial da indústria, mas pela força artística de quem soube expandir o conceito desta arte muito além do espaço e do tempo.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho jornalista formado pela Universidade Catlica de Santos (UniSantos), alm de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados crticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veculos comunica豫o do pas, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de So Paulo, alm de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a dcada de 1980). Seus guias impressos anuais so tidos como a melhor referncia em lngua portuguesa sobre a stima arte. Rubens j assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e sempre requisitado para falar dos indicados na poca da premia豫o do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma cole豫o particular dos filmes em que ela participou. Fez participa寤es em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minissries, incluindo as duas adapta寤es de “ramos Seis” de Maria Jos Dupr. Ainda criana, comeou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, alm do ttulo, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informa寤es. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionrio de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o nico de seu gnero no Brasil.

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