RESENHA CRÍTICA: Rei Arthur - A Lei da Espada (King Arthur)

Não que o filme seja ruim, nem tanto, americanos chamam de Hiperativo, barulhento e bombástico, um filme vulgar para uma época vulgar

17/05/2017 00:00 Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CRÍTICA: Rei Arthur - A Lei da Espada (King Arthur)

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Rei Arthur - A Lei da Espada (King Arthur)

Inglaterra, 17. 2h6min. Direção de Guy Ritchie. Com Charlie Hunnam, Jude Law, Djimon Honsou, Eric Bana, Astrid Bergés Frisbey, Aidan Gillen, Freddie Fox, Tom Wu, Annabelle Wallis. David Beckman (o jogador de futebol em ponta como Trigger).

Se fizermos um contagem de quantos “Reis Arthur da antiga Inglaterra” serviram de tema para o cinema, segundo o IMB foram 146 filmes, desde 1909, muitas vezes até como comédia (como Na Corte do Rei Arthur, musical com Bing Crosby e Joan Fontaine, em que faziam uma visita a corte do rei em 1949) ou pioneira aventura em Cinemascope em 1953, Os Cavaleiros da Távola Redonda, com Robert Taylor como Sir Lancelot disputando o amor de Guenevere, a bela Ava Gardner. Teve O Príncipe Valente, baseado em quadrinhos (54), O Espadachim Negro com Alan Ladd, 54, Lancelot, o Cavaleiro de Ferro, 63 com o então astro Cornel Wilde, a animação de Disney A Espada era a Lei (63), o musical da Broadway Camelot, 67 feito no cinema com Richard Harris e Vanessa Redgrave, a comédia Monty Python, Em Busca do Cálice Sagrado, 75, Excalibur, de John Boorman com Nigel Terry e Helen Mirren, 81, Lancelot o Primeiro Cavaleiro, com Sean Connery, 95, muitas, mas muitas séries de TV e até uma ficção espacial em breve Transformers, o Ultimo Cavaleiro. Qual deles é o melhor, possivelmente o vencedor teria sido Excalibur! E dos mais próximos das lendas...

O que não é a proposta do diretor Guy Ritchie, mais famoso como ex-marido de Madonna, bem sucedido realizador de aventuras de Sherlock Holmes (com Downey Jr) e irregular diretor de aventuras policiais, violentas, rápidas mas com frequência divertidas. Entre elas, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, 98, Snatch, Porcos e Diamantes, 2000, Rockn´rolla a Grande Roubada, 2008. É bom lembrar que o filme anterior a este foi um desastroso e patético O Agente da U.N.C.L.E., 15 e se anuncia outro Holmes e um certo Aladdim!

Mas mesmo antes de estrear os críticos americanos já estavam prevenindo que era provável que esta aventura iria ser um desastre de bilheteria, por varias razões, mas principalmente seu auto custo (que teria sido 175 milhões de dólares e que rendeu menos de 15 milhões). A explicação seria, além da concorrência de outros blockbusters, o fato de que já houve filmes demais sobre o tema e este aqui foge bastante do assunto. Embora isso possa ser sua maior qualidade, o diferencial, é meio esquisito já que a sede do que viria futuramente a ser de Camelot e teria os Cavaleiros da Távola Redonda (aqui apenas em formação) são mostradas de maneira sempre muito rápida, velocidade de video game, e direção de arte muito rebuscada e curiosa. Preste atenção então na figura dos elefantes gigantescos (e em chamas), profusão de cobras, um castelo com ponte que parece a do filme Harry Potter e principalmente um elenco feminino extremamente passivo e neutro, até mesmo formas semelhantes a sereias.

Tenho restrições ao ator central Charlie Hunnam que estreou garoto na série de TV britânica e muito detalhada, Queer as Folk e depois muito esforçado foi escalando uma carreira até promissora, principalmente com outra série Cult, Filhos da Anarquia. Por outro lado, não conseguiu emplacar no Circulo de Fogo faltando-lhe carisma e empatia fato que se repete aqui. Também atrapalha bastante o fato da história se situar praticamente em cenários e sets sombrios e decadentes, e quase tudo ser muito previsível. Charlie seria o herói evidentemente que viria a ser futuramente o Arthur, ainda não rei. O problema é que seu fidagal inimigo é o manda chuva local que é um bonitão capaz de tudo (o diretor chamou para o papel de Vortigem, Jude Law, que esta também nos seus Sherlock Holmes, como Dr. Watson, que por mais que se esforce é galã demais para segurar um personagem maquiavélico e delirante como este). Alias fora deles quase não há coadjuvantes e o tom frenético nem faz lembrar como desejariam alguns Game of Thrones.

Não que o filme seja ruim, nem tanto, é o que americanos chamam de “origin story” (história da origem) apenas centrado demais nas mesmas paisagens e situações, sendo que nenhum dos coadjuvantes também tem oportunidade de ter uma presença mais forte ou impressionante. Ainda mais sendo castelos e figurações notavelmente falsas. Os americanos chamam de Hiperativo, barulhento e bombástico, um filme vulgar para uma época vulgar!

 

 

Rei Arthur Vive Em Outras Mídias

Por Adilson de Carvalho Santos

É extraordinário como uma história sobrevive durante tantos séculos quanto às relacionadas ao ciclo arturiano. Historiadores divergem quanto à autenticidade e validade desse mito essencial à matéria Bretanha cujos fatos remontam a Europa medieval entre o final do século V e início do século VI, período em que a tradição oral se encarregava de transmitir o conhecimento de geração a geração.

Séculos depois, quando se desenvolve a escrita, autores como Geoffrey de Manmouth, Chrétien de Troyes e Thomas Mallory entre outros assumiram a função dos antigos trovadores, perpetuando o romance de cavalaria e o amor cortês, reunindo contos de forma mais consistente, e adicionando novos elementos à jornada de um herói que unificou a Bretanha. O avanço da humanidade não apagou o fascínio pela lenda, mas a popularizou ainda mais com diversos autores, cada um focando os diversos elementos românticos, aventureiros e místicos como Howard Pyle, T.H.White, Mary Stewart, Marion Zimmer Bradley, Bernard Cromwell entre outros. O teatro e, em seguida, o cinema não tardaram a adaptar o ciclo, conforme já falado pelo Rubens. Vejamos as outras mídias.

 Em 1937, o artista norte americano Hal Foster, que havia adaptado “Tarzan” de Edgar Rice Burroughs para o formato de comics (histórias em quadrinhos) criou o “Príncipe Valente” para as tiras dominicais. Foster não desenvolvia diálogos nos tradicionais balões de fala, mas criava belíssimos painéis com o texto encerrado abaixo desses. Valente é um honrado guerreiro cujas histórias são ambientadas na corte do Rei Arthur. No Brasil, suas histórias foram publicadas nas páginas do suplemento juvenil de “O Globo”, alem de luxuosos álbuns publicados pelas editoras Ebal, RGE, Nova Sampa e mais recentemente pela Pixel.

 Caso curioso ocorreu em 1972 quando o renomado artista Jack Kirby (co-criador de vários personagens Marvel), sob contrato com a DC Comics, usou uma máscara de demônio utilizada em uma das histórias do Príncipe Valente como inspiração para criar “Etrigan, o demônio” na revista “The Demon” #1. Na história Etrigan é o meio-irmão de Merlin, um demônio milenar aprisionado no corpo do demonologista e antiquário Jason Blood, residente em Gotham City. A concorrente Marvel Comics também usaria as lendas arturianas como fonte de inspiração para criar um herói, no caso o “Capitão Britânia”. Na década de 70, a Marvel procurava expandir sua área de atuação, e assim como tinha um “Capitão América”, encomendou a criação de um herói que fosse um símbolo para a Gran-Bretanha. Assim, surgiu nas páginas de “Captain Britain Weekly” #1, datada de Outubro de 1976, da mente criativa de Chris Claremont e Herb Trimpe, o herói Brian Braddock, o escolhido pelo mago Merlin para ser o detentor de grandes poderes. Mais tarde, em 1988, Claremont inseriu o personagem no universo mutante da Marvel, tonando-o líder do grupo “Excalibur”.

 Em todos esses casos, alguns elementos das lendas arturianas eram adaptados a personagens originais. Entre 1982 e 1983, a DC comics foi mais ambiciosa investindo em novas ideias para acirrar ainda mais a competitividade no mercado: e assim publicou a mini-série “Camelot 3000”, de Mike W.Barr e Brian Bolland. Nesta, megulhada no clássico texto de Thomas Mallory, o Rei Arthur cumpre a profecia de seu renascimento em um futuro distópico com a terra sob domínio alienígena. Despertado, Arthur traz de volta Merlin e os cavaleiros da távola redonda renascidos. A série estava muito à frente de seu tempo tratando assuntos como política, sexualidade e reencarnação, atípicos na época para o gênero. No Brasil, foi inicialmente publicado pela Editora Abril e mais tarde Panini Comics.

 Mesmo a cultura oriental se rendeu ao apelo da lenda como no mangá “Nanotsu no Taizai”, rebatizado em inglês “The Seven Deadly Sins”. Publicado desde 2012, escrito por Nabaka Suzuki, a história trata de um grupo de cavaleiros bretões (releituras de Arthur e Merlin, sendo aqui retratado como uma mulher) dispersos depois de serem acusados injustamente de tomar o poder do reino de Lione. Anos depois, estes precisam se reunir para defender o reino de usurpadores.O mangá gerou um anime, disponibilizado pela Netflix. Mais fiel foi o anime “Entaku no Kishi Monogatori: Moero Arthur”, exibido entre 1979 e 1980, com 52 episódios, adaptando a saga aproveitando elementos literários como a predestinação de Arthur, o misticismo, a távola redonda, mas deixando de lado o triângulo amoroso “Arthur-Guinevere-Lancelot”. No Brasil, esse anime foi exibido na primeira metade da década de 80 pelo SBT e teve um animado tema de abertura em Português. (https://youtu.be/8KwJWY1ONgI).

 A Disney também fez uma adaptação do material do primeiro livro de T.H.White, na animação clássica “A Espada era a Lei” ( The Sword in the Stone) de 1963, a última produção do estúdio a ter o envolvimento pessoal de Walt Disney, que morreria no ano seguinte. A Tv também aproveitaria a história com a sitcom “Mr.Merlin”, de 1981 com Barnard Hughes fazendo o mago imortal que vive nos tempos modernos como um mecânico. O maio dos magos ainda foi interpretado por Sam Neill na mini série de 1998 “Merlin”, que ainda trazia Helena Bohman Carter como Morgana. O canal inglês Starz também adaptou a saga no formato de série com “Camelot” em 2011, exibido no Brasil pela Band anos depois, e que trazia a bela atriz Eva Green como a sedutora feiticeira Morgana.Na Tv, no entanto, a mais notável adaptação feita foi a mini série “As Brumas de Avalon” (The Mists of Avalon) de 2001 com Angelica Huston, Juliana Margulies e Joan Allen encenando o Best-seller de Marion Zimmer Bradley.

 Certamente o filme de Guy Ritchie não será a versão definitiva dessa saga que através de gerações tem estado ligado a várias culturas, não importando idade ou etnia e provando que, real ou não, Arthur é definitivamente o rei no passado e no futuro.

 

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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