Tudo Eh Fisica na Natureza

Iluminacao ora se trata uma autobiografia intelectual e moral de Zanussi, ora um documentario de ideias que animiza personagens

06/06/2026 03:26 Por Eron Duarte Fagundes
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Um filósofo, falando diante da câmara, introduz a ideia que deve orientar o rumo narrativo de Iluminação (Iluminacja; 1973), uma revolução cinematográfica erigida pelo cineasta polonês Krzysztof Zanussi. O filósofo, o polonês Wladyslaw Tatarkiewicz (1896-1980), tergiversa em torno do conceito de “iluminação” como um elemento central do pensamento humano ao longo dos anos: iluminar, quer dizer, dar claridade às coisas. Tendo de fazer filmes depois de seus anos de encucado estudante de física, Zanussi vai lidar com suas personagens a partir das ideias de física, os conceitos da física montam o interior das criaturas que o espectador vê; mais ou menos como o fez o francês Jean-Luc Godard ao aplicar a teoria econômica aos rebeldes dos anos 60 em Duas ou três coisas que eu sei dela (1967), o também francês Alain Resnais ao fazer da biologia e de um biólogo) o móvel de seus seres de cinema em Meu tio da América (1980) e, o mais radical de todos, o alemão Alexander Kluge ao cruzar várias teorias estéticas e científicas para fazer seu mosaico intelectual em O poder dos sentimentos (1983).

Iluminação ora é uma autobiografia intelectual e moral de Zanussi, ora é um documentário de ideias que animiza personagens. A criatura central do filme, Franek, é um jovem estudante de física. A vida de Franek como físico e intelectual é interrompida por uma paixão, casamento e filho; a vida estressada de Franek, assoberbado entre suas aspirações e o cotidiano possível, mergulha o filme num espelho da crise existencial contemporânea, especialmente marcada pelo embate entre a possível frieza da ciência e a desesperada e inevitável busca religiosa. Em todos os momentos sobressai um pensamento: tudo é física na natureza, inclusive nos liames biológicos e nos escaninhos da alma, tudo pode ser explicado pela física, à maneira materialista. Há sequências místicas exitosas num mosteiro. E reflexões que tentam conectar nossa percepção do espaço (que podemos dominar fisicamente) com as dificuldades que temos de captar o tempo, que está em nossa mente e nunca se materializa. Palestras, aulas e equações se movem no filme na direção de iluminar e dar uma orientação a personagens perdidas numa obscuridade que no fundo o filme insta em aclarar. Talvez em vão.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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