RESENHA CRÍTICA: Uma História de Loucura (Une histoire de fou)
Apesar da boa vontade geral, o filme resulta inconvincente
Uma História de Loucura (Une histoire de fou)
França, 2015. 134 min. Direção de Robert Guédiguian. Com Ariane Ascaride, Simon Abekarian, Gregorie LePrince Ringuet, Shirus Shahidi, Robison Stévenin.
Esperava mais deste novo filme do marselhês Guédiguian, que acompanhamos a carreira desde que foi revelado e premiado em Cannes, em Marius e Janette, 97, com sua habitual mulher e estrela Arianne Ascaride. Seus filmes tem sido exibidos no Brasil até pela amizade com o Jean Thomas, dono da Imovision e também marselhês. E em geral são diferentes e interessantes. Já havia inclusive mexido no mesmo tema, o absurdo massacre dos armênios, um genocídio absurdo e inconcebível que até não foi admitido oficialmente pelos perpetradores, basicamente o governo Turco. O filme anterior era mediano e se fixava mais na visão do antigo lugar e na sua sobrevivência. Chamava-se Armênia (2006) e ficava a desejar.
Infelizmente neste caso o problema é ainda maior. Mais ambicioso e maior orçamento, começa em preto e branco mostrando como os sobreviventes armênios se organizaram pra agir como terroristas tentando principalmente o reconhecimento de sua etnia e o massacre bárbaro. Assim começa e aproveito o que diz o release para resumir a história: começa em Berlim (1921) quando Talaat Pacha, a principal pessoa por trás do genocídio armênio é morto na rua por Soghomon Thelirian, absolvido pela justiça alemã e considerado um herói para os armênios. 60 anos mais tarde, onde uma nova geração ainda clama por justiça. Aram um jovem de ascendência Armênia que vive em Marselha explode o carro do embaixador Turco em Paris. Casualmente, Gilles Tessier, um jovem ciclista que estava passando naquele momento é gravemente ferido pela explosão e perde as pernas.
Aram, em fuga, deixa sua família e junta-se ao Exército Secreto pela Libertação da Armênia em Beirute, o viveiro da revolução internacional naqueles anos. Anouch, a mãe de Aram, interpretada por Ariane, visita Gilles no hospital para pedir perdão por seu filho, porém, os fatos apontam para algo inesperado capaz de mudar a vida de todos.
Eu conheci a tragédia da Armênia através das conversas com Leon Cakoff, que perdeu grande parte da família dessa forma e nunca se conformou com isso. Mas acho que até ele iria se conformar com o filme longo, confuso, que se prende aos terroristas um tema difícil hoje em dia, quando não se sabe mais quem é herói e é bandido. Apesar da boa vontade geral, o filme resulta inconvincente e mais atrapalha do que explica.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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