As Relaes Domsticas

Com O Criado o cineasta norte-americano Joseph Losey introduziu no cinema um agudo estudo da decadncia da aristocracia britnica

30/12/2014 16:23 Por Eron Duarte Fagundes
As Relações Domésticas

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Se o italiano Michelangelo Antonioni foi o mestre-de-cerimônias das entradas cinematográficas da burguesia italiana nos anos 50 e 60 do século XX, é com O criado (The servant; 1963) que o cineasta norte-americano Joseph Losey introduz no cinema um agudo estudo da decadência da aristocracia britânica; enquanto a esterilidade do tédio perturba a alma dos burgueses de Antonioni, em O criado as portas das mansões dos aristocratas ingleses são arrombadas pelos maus costumes das classes baixas que passam a misturar-se indelével e quase imperceptivelmente com os nobres cuja vadiagem os torna propensos a esta fusão decadente com seres de quem antes sempre se mantinham distantes.

O roteiro de Harold Pinter (o mesmo que escreveu um famoso roteiro de Em busca do tempo perdido, o romance-rio do francês Marcel Proust, para o cineasta italiano Luchino Visconti, que nunca o filmou, em parte por questões financeiras, em parte por assoberbamentos técnicos; Pinter faz também uma ponta como ator no filme de Losey) acompanha as estranhas e perturbadas relações domésticas entre um criado e seu patrão aristocrata; começa na contratação de serviços, a chegada do criado oferecendo seu trabalho, o patrão indolente adormecido numa poltrona, vai seguindo seus gestos cotidianos cujos estereótipos o preciso e profundo estilo de filmar de Losey vai despindo; a aparição das mulheres —primeiramente a noiva do patrão, cuja ojeriza mútua com o criado é um problema amedrontador; depois o criado introduz sua amante mais vulgar como se fosse sua irmã para seduzir o patrão— complica ainda mais as tensas relações domésticas. A relação patrão-empregado tem um veio aristocrático e infernalmente interior e nada a ver com as formas políticas ou épicas esboçadas depois pelo italiano Bernardo Bertolucci em 1900 (1976); O criado centra estas relações no estrato doméstico e sua inevitável profundidade foge das caricaturas políticas. Sinuoso e envolvente em seus circulares movimentos de câmara e às vezes aterrorizante na montagem duma atmosfera lúgubre e friamente londrina (a neve que cai no cenário barroco, os contrastes sombrios da fotografia com esta neve), O criado é uma obra cinematográfica que sufoca, como aquelas que o polonês Roman Polansky rodou pela mesma época.

Na ação do criado, magnífica composição do ator inglês Dirk Bogarde, há uma manha de intenções que não desdenha do sabor aristocrático londrino. Hugo, o criado, ao perceber a dominação da noiva sobre o caráter fraco de Tony, seu patrão, traz para a mansão uma mulher que apresenta a Tony como irmã e na verdade é amante do criado e passará a engambelar sexualmente o patrão; neste trecho, o roteiro de Pinter se assemelha à história contada pelo realizador norte-americano Terrence Malick em Cinzas no paraíso (1978), onde Richard Gere aproximou sua amante Brooke Adams (que  apresentara como irmã) ao fazendeiro Sam Shepard para obter vantagens; mas Losey está bem longe da ascensão rural americana observada por Malick e as relações de classe na Londres que Losey retrata são bem outras. Circulando ainda por filmes afins, pode-se detectar a influência de O criado sobre Cenas íntimas domésticas (1977), do francês Bruno Gantillon, onde um patrãozinho decadente vivido por Victor Lanoux passa poucas e boas nas mãos da empregada que assume o comando interpretada por Andrea Ferreol. Mas poucos diretores de cinema poderão gabar-se de fazer uma análise da troca de papéis nas questões do exercício do poder de maneira tão exemplar quanto Losey em O criado; pode-se dizer que é um filme de perversão no auge.

Losey rodou várias obras-primas. Cerimônia secreta (1969), O mensageiro (1971), A inglesa romântica (1974), Cidadão Klein (1976), Don Giovanni (1979). E alguns fracassos bastante abaixo de seu gênio: O homem que veio de longe (1968) e O assassinato de Trotsky (1972), entre eles. Cuido, porém, que O criado é seu filme melhor realizado: usurpa a complexidade temática de Cidadão Klein e atinge a glória plástica de Don Giovanni com estas intensas e medidas circulações da câmara pelos espaços de cenários que são na verdade metáforas de escuros interiores das personagens.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicaes de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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