RESENHA CRÍTICA: Amores Urbanos
Aqui está um filme brasileiro que merecia mais atenção, o primeiro longa de uma talentosa diretora de curtas
Amores Urbanos
Brasil, 16. Direção de Vera Egito. Com Maria Laura Nogueira, Thiago Pethit, Renata Gaspar, Ana Cañas, Lucas Veríssimo, Bernardo da Fonseca, Sarah Oliveira, Lygia Cortez.
Aqui está um filme brasileiro que merecia mais atenção, o primeiro longa de uma talentosa diretora de curtas, que nos dá uma visão arguta e sensível, sem exageros ou escândalos, do que seria a vida de um certo tipo de jovens paulistanos de vinte e tantos anos, até trinta. Meio perdidos em se afirmarem profissional e emocionalmente. Ao contrário de outros filmes menos bem sucedidos, a diretora não é fria nem condescendente. Mesmo com orçamento modesto, pinta um retrato verossímil dos que vivem em São Paulo, em busca de uma profissão e uma afirmação pessoal. Talvez pudesse ter acrescentado um punhado a mais de humor que poderia contrabalançar sua falta de sentimentalismo.
Julia (Maria Lucia) esta num novo emprego com um estilista, aparentemente infeliz, sem perceber que não esta agradando aos patrões. Já perto dos trinta rebela-se com isso, mas ainda depende dos pais (como sempre gosto especialmente de Lygia Cortez) e não sabe se entender com os namorados ocasionais. Suas bases são os dois amigos e vizinhos, um jovem gay infeliz também por não ter superado a rejeição dos pais (do pai em particular) e não conseguir manter uma relação estável com um rapaz que gosta dele. Fui capturado pela interpretação da Micaela (Renata Gaspar) que é lésbica assumida, mas incapaz de mentir ou aceitar falsidades (tem um casinho com uma jovem atriz de crescente sucesso feita por Ana Cañas, mas que afirma não estar preparada para uma ligação mais estável e assumida). Renata nunca cai na caricatura ou no excesso, embora tenha o papel mais difícil e o resultado mais humano. Acredito que tenha sido o trabalho da diretora que conseguiu um filme naturalístico que evita excessos ou choques optando por pintar um retrato humano e crível de pessoas que encontramos hoje em muitos lugares desta cidade e deste tempo.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
relacionados
últimas matérias