RESENHA CRÍTICA: O Candidato Honesto
O Candidato Honesto
O Candidato Honesto
Brasil, 14. Direção de Roberto Santucci. Com Leandro Hassum, Ellen Roche, Luiz Valdevaro, Flavio Galvão, Flavia Garrafa, Antonio Pedro, Julia Rabello, Tonico Pereira, Fernanda Rodrigues
Nunca vi um filme brasileiro como este. Nem mesmo estrangeiros, ou italianos que até agora eram imbatíveis em criticar sua vida política. Não sei como o público brasileiro vai reagir a um filme tão deliberadamente acusador, praticamente sem disfarce, jogando na cara de todos a corrupção política que grassa o país. E que todo mundo ate agora mais ou menos tentava disfarçar. Dou um exemplo: nas entrevistas ninguém acusa todos os políticos como corruptos. Aqui se diz, “Se por acaso existir algum honesto”!!!
Foi preciso muita coragem para dar a cara para bater e lançar um filme como este em plena véspera de eleições (muitas vezes citando alguns políticos por nome, mas em geral evitam processos ate mesmo porque essa é a forma de não serem todos vitimas de processos: mantendo o filme como uma chanchada, uma farsa total, com momentos onde isso surge mesmo de forma grosseira e desnecessária (piadinhas grossas como a mulher do herói ou então uma sequência muito ruim onde sequestram um ônibus e junto vai uma velha rolando de lá para cá, na verdade um cara disfarçado de velha! Lamentável momento que nada ajuda o filme que naturalmente se segura na figura de Leandro Hassum, que tem sido o mais popular (também nas bilheterias) ator do momento, de que ninguém duvida o talento (inclusive na sequencia final inevitável quando ele faz um discurso a sério e convence!).
Eu confesso que carrego ainda um trauma do tempo da ditadura quando ia ver uma peça de teatro e ficava na angustia de que podia ser interrompida e irmos todos para a tortura. Também vendo o filme fiquei ansioso pensando se o brasileiro esta capacitado para tanta liberdade (já veio gente reclamar para mim, que o filme tem palavrões. Alô. Gente teimosa, qual o problema com palavrão? Ainda mais dentro do contexto? Afinal não é um convento! Assim como outra reclamação que se aceita a torto e a direito no cinema estrangeiro, mas que aqui não acham aceitável. Usar uma ideia de outros filmes (já um velho recurso dramático) que muitos se lembram com O Mentiroso (Liar, Liar, 97), onde Jim Carrey era vitima de uma mandinga que o impedia de mentir durante uma período de tempo . Aqui é essa situação básica que faz com que ele diga sempre a verdade, mesma na TV, no Congresso e assim por diante.
Já sabemos então qual o maior defeito do filme, que é não ter confiança na própria história e de vez em quando escorregar para a chanchada desnecessária. Mas ri muito e fiquei um pouco chocado vendo tantas verdades (e exagero claro, comédia é feita disso) que desde Tropa de Elite 2 não surgiam em nossas telas. Mesmo aqueles que habitualmente não acompanham o gênero, sugiro que vão conferir. E quem sabe se tome um pouco de vergonha na cara.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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