Os Feiticos do Tempo
Em Dia D, apesar de suas conciliacoes de sempre com o espetaculo a americana, Spielberg chega a um de seus trabalhos mais sombrios
É de saudar que, à beira de seus oitenta anos, o realizador americano Steven Spielberg segue dirigindo filmes com o mesmo entusiasmo por seus conceitos cinematográficos de seus primeiros anos. Dia D (Disclosure day; 2026) repõe na tela os habituais interesses do cineasta quando está diante duma câmara, mas ao mesmo tempo revelando as mutações (nada profundo, só na superfície da imagem) a que seu estilo de filmar e sua visão de mundo se submeteram ao longo dos anos cinematográficos. É o que se pode chamar feitiço do tempo; no plural fica mais adequado, os feitiços do tempo.
O braço central da trama é ditado pela personagem duma meteorologista televisiva, Margaret, em desempenho notável de Emily Blunt, que, mesmo entre outros astros (Josh O’Connor, Colin Firth), impõe o ritmo de suas aparições e vai descolar para o espectador aquilo que parece o propósito desta narrativa simbólica, e ingenuamente simbólica: falando dum tempo de desastres climáticos, o desastre é o mundo atual com o qual a fantasia de Spielberg pretende, a duras penas, relacionar-se; altos segredos do Estado americano, envolvendo a ocultação de fenômenos alienígenas ao longo da história no século XX, expõem a ambição política algo desmesurada de Spielberg, e, lado a lado com o lado místico e religioso (cristão, tradicional, ao modo de Spielberg), um outro braço da trama vê o executivo Noah e sua namorada Jane como vítimas duma possível perseguição estatal, por saberem demais, e permitem ao realizador montar seus trêfegos e naturalmente incautos (tantos anos depois de E.T., 1982) cruzamentos por uma forma policial fácil e ligeira, cuja inspiração talvez esteja em longínquos planos de John Ford (em Os Fabelmans, 2022, Spielberg explicita seu fascínio por Ford, materializado de maneira diferente do que ocorre em Orson Welles, outro fordiano de carteirinha, ou Wim Wenders, um fordiano às avessas).
O lado ecológico e magicamente fantasioso de Dia D surge numa sequência em que vários tipos de animais invadem o espaço interior dum cenário de pessoas; o que poderia ser um surrealismo bárbaro é edulcorado pela mão “familiar” de Spielberg. O uso psicanalítico também não escapa: numa cena, as personagens da meteorologista e do executivo evocam sua infância e finalmente lembram os tenros anos em que foram dominados mentalmente e hipnotizados por extraterrestres; ali Spileberg refaz seu distante E.T. com pudor.
Em Dia D, apesar de suas conciliações de sempre com o espetáculo à americana, Spielberg chega a um de seus trabalhos mais sombrios: suavizados, sim, mas sombrios. O filme deixa a possibilidade de uma continuação (coisas da indústria). Margaret está diante da câmara televisiva e começa a revelação do segredo com o imperativo: “Ouçam.”
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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