Sombrio e Perverso: Delrio Carnal-Existencial
Ruas da Gloria lida com energia com estas fronteiras entre o estetico, o moral e o abissal nas vidas de suas criaturas
Foto: Internet
Ruas da Glória (2024) é um filme que logra atingir aquela centelha que provoca a tensão em cada quadro cinematográfico construído. Seu realizador, o carioca Felipe Sholl, entrega um furacão de imagens que chega às vísceras do espectador. Não é uma narrativa que o espectador digere sem problemas: exige muito diante das provocações encenadas. A história que acompanhamos é a do jovem recifense Gabriel que, saindo do Recife para o Rio visando a exorcizar o luto da morte da avó, topa nas sombras do subterrâneo carioca um aventureiro, o uruguaio Adriano, cuja arte é tornar-se sedutor como um garoto de programa entre o bairro da Glória e a Cinelândia no centro da cidade; deste encontro nasce uma aventura de perversidade que determina os conflitos carnais-existenciais de Gabriel.
Exasperando-se às raias do explícito nas filmagens de sexo entre Gabriel e Adriano (e neste aspecto os atores Caio Macedo e Alejandro Claveaux se entregam sem remorsos para caracterizar as personagens e as situações), Ruas da glória se passa um pouco num apartamento na Glória, bairro do Rio, mas essencialmente nas perigosas noites da Cinelândia. Retrato cinematográfico de uma paixão à beira de seu declínio humano, desorientado e também desorientador, Ruas da Glória transita pela mente de um indivíduo deste começo de terceiro milênio, recriando uma obscuridade de pensamentos e ações que talvez, hoje em dia, possa parecer única na perspectiva de um apocalipse interior, região difusa dos atuais problemas de nossas mentes.
Lá pelas tantas, em Ruas da Glória Gabriel é abandonado por Adriano, o anjo exterminador que faz surgir no outro o lado mais doentio e obsessivo da alma. É o instante em que, numa sequência de sexo em que havia um terceiro homem com eles, Adriano parece passar mal. A instabilidade dos planos capta o trêmulo e o tenso nas relações humanas (afetivas e sexuais) encenadas. Na rua, no momento em que Gabriel chama um carro para levar o companheiro a uma emergência, Adriano desaparece, Gabriel olha para todos os lados, a câmara perscruta o olhar e o desaparecimento na escuridão, nem sombra de Adriano. Teria Adriano simulado um mal-estar para desaparecer ou saiu do estado ruim de repente e fugiu? O desaparecimento cênico da personagem dura um longo tempo na narrativa: em aspectos, se parece com os desaparecimentos existenciais críticos de alguns filmes do italiano Michelangelo Antonioni. O ressurgimento de Adriano lá pelas tantas restabelece o desemparo e a hipnose do desejo em Gabriel. Ruas da Glória lida com energia com estas fronteiras entre o estético, o moral e o abissal nas vidas de suas criaturas.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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