Poemas Lidos rm Voz Alta
Os versos de Secchin buscam aquilo de que ele mais gosta num poeta: o laconismo
O poema que abre o volume Desmentir (2026) é “O brinde”. Ao lê-lo agora na página, o leitor que assistiu ao recital, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, recital em que a atriz Fernanda Montenegro dá início às declamações de vários poemas do autor por diversos acadêmicos, Fernanda num vídeo, não em presença, como alguns outros que subiram ao palco diante da plateia, este leitor que foi ouvinte na ABL sente ecoar a voz, precisa e sensível, de Fernanda na construção dos versos, precisos e sensíveis, do poeta Antonio Carlos Secchin.
“Levei na minha alma pássara,
anunciei ao mundo a minha sorte súbita:
tocar na vida sem qualquer trapaça,
mistério zero, delícia igual
ao gozo matinal de uma fruta.
Vida, te agradeço. Setenta anos
e ainda em recomeço.”
Junto com os versos de Desmentir, uma série de poemas chamados “Dez sonetos malcriados”.
“O poeta ingere um ácido
Para ver se assim se excita.”
(Sonetilho pós-erótico)
Ou a reversão de Dom Casmurro, ou de Capitu:
“Sou Escobar, teu homem preferido.”
Na terceira parte do volume os versos de “Abecebicho” trazem a fauna para a poesia.
“Para esta abelha eu às vezes
Posso tirar o chapéu:
Não quando dá ferroada
Sim quando dá muito mel.”
Os versos de Secchin buscam aquilo de que ele mais gosta num poeta: o laconismo (ver seu Questionário Proust do fim do volume). Poemas quase matemáticos: como num de seus objetos de estudo, João Cabral de Melo Neto, em torno de quem Secchin já compôs ensaios e no qual debruçou a palestra que na ABL antecedeu o lançamento de Desmentir. Uma busca, nas formas quase diretas, irônicas muitas vezes, com que tenta açambarcar leitores de poesia num tempo não-poético.
...Cantar para amigos
Há algo de poesia-ensaio na obra poética de Secchin que se descortina em Cantar amigo II, um miniopúsculo que acompanha a publicação de Desmentir pela Patuá. É, como assevera o autor no ensaio introdutório (em prosa), um rebento dos poemas de circunstância, versos que trazem um contexto de situação que pode fugir a este ou àquele leitor desligado da realidade que gerou o poema. Como se sabe desde o título, são versos-homenagem a amigos em encontros aqui e ali, na casa de um, num restaurante. Como sempre, o poeta não foge à sua linha: o rigor lacônico, buscando a precisão vocabular, a recriação dum momento-sentimento. A quem canta Secchin em seus cantares? Aos amigos, à amizade. Um sentido atual de canção de amigos. Amigo, no português medieval, se referia muito a amante; as canções de amigo eram então de namorados; o rei que era também poeta na Idade Média lusa, D. Diniz, fartou-se de fama no gênero; agora, as amizades celebradas por Secchin não tem esse erotismo, embora possam ter Eros no sentido vital, desfrutar a convivência. Mas o leitor que desde a adolescência mergulhou nos poemas do português medieval, não pode deixar de suspeitar que Secchin se valeu deste título, “cantar amigo”, como um olhar enviesado e brincalhão para aquelas velhas cantigas de amigo, em nossa língua arcaica. A dupla face do sentido de amigo. No poema “Num jantar” Secchin homenageia o escritor gaúcho Gilberto Schwartsmann.
“Momento fraternal
em que ofereço uma flor
invisível mas verdadeira
à nova amiga Leonor.
Juntam-se vinhos e música,
sábia junção de Gilberto,
trazendo então Porto Alegre
lá de longe para perto.”
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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