A Madrugada de Faraco em Mim
A feicao classica da o tom inicial daquilo que Faraco traz para sua literatura
Esta madrugada que o ficcionista Sergio Faraco descreve em seu conto Madrugada (1999) me tem acompanhado, desde que o li na página de jornal, no Natal de 1999, às vésperas do nascimento de minha filha. Ele surgiu depois em livros e o releio aqui e ali para descobrir o que é um conto perfeito, destes que não se fazem desde Machado de Assis e Anton Tchekhov. Perfeito não como ausência de problemas mas como semeador de problemas: tanto narrativos quanto temáticos. E o verbo que usei, “descrever”, pode dar uma ideia errada do que quero dizer: não uma atmosfera, de meias luzes, ou a madrugada romântica de boêmios ou sonhadores; a madrugada que aparece em Madrugada é a madrugada do humano, o humano devastado pelos problemas de um certo cotidiano.
A feição clássica dá o tom inicial daquilo que Faraco traz para sua literatura. “A mulher terminou de banhar a criança, com água de uma lata aquecida ao fogareiro. De fraldas não dispunha, usou um pano que servia de toalha e que, na véspera, lavara umas quatro vezes. Vestiu-a com um macacãozinho azul e mantilha rasgada, mas limpa, que pertencera aos outros filhos. A criança a olhava com olhos muito abertos, quieta, ela desviou os seus e fez um gesto brusco de cabeça, como a espantar um inseto teimoso ou um pensamento zumbidor.” Mas alguma coisa se transforma neste aparente classicismo das frases, da sintaxe: ousa-se dizer que a transbordar do humano nos gestos daquela mulher com um bebê pela madrugada perdida, tal como Faraco a põe em sua página. Rigor e sensibilidade evitam a sentimentalidade fácil; poucas vezes se terá a oportunidade de estar próximo duma profundidade íntima em tal grau. “Apagou a vela, arredou o compensado que era a porta e saiu, aconchegando o menininho ao peito.” Cada gestual da personagem é exemplar na construção do conto.
A madrugada é nossa, é daqui. “Desembarcaram no abrigo da Praça Parobé e logo a mulher subia uma das ladeiras que conduzem ao largo defronte à Santa Casa. Escuro ainda, quase nulo o movimento de pedestres e automóveis. Uma vitrine, granida de excremento de mosca, ainda conservava as luzes acesas e a decoração das últimas semanas: arranjos de mercadorias policromos e flocos de algodão.” Porto Alegre, às vezes abstrata, às vezes localizável, aparece entre um rompante e outro desta intensa e comovente madrugada de Faraco, única e que me obsessiona.
A mulher deposita o bebê no alpendre dum edifício da alta burguesia. “A criança se contraiu num ligeiro espasmo, ela o mimou com um cicio e, vendo-a sossegar, levantou-se e saiu.” Uma mãe que se desfaz de seu filho na madrugada inglória. Então, o glorioso gesto final do conto. “A lua, então, já resignara o reino vil que escondia as chagas da cidade, e grassavam já as labaredas que haveriam de mostrá-las, clareando o dia da cristandade. E ela esperou. E depois de muito esperar, ao ver que se apagava a lâmpada do alpendre, ao ouvir que se abria a porta da casa e logo uma exclamação, sentou-se no degrau e seu corpo magro se sacudiu num soluço contido.” Um conto cristão? O leitor é jogado na singeleza dos sentimentos que, construídos de maneira rigorosa, despojada e apaixonada por Sergio Faraco, transpassam a narrativa.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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