RESENHA CRÍTICA: Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)
Uma pena que não tenha ainda encontrado o público que merece!
Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)
Inglaterra, 16. 1h40. Direção de Ken Loach. Roteiro de Paul Laverty. Com Dave Johns, Hayle Squires, Sharon Percy, Briana Shan, Dylan McKiernan.
Foi mal em São Paulo, mas ainda deve estar circulando pelo Brasil afora este mais recente filme do venerável diretor inglês Ken Loach (que já estava com 79 anos – agora já chegou aos 80 anos) que se tornou assim o mais velho cineasta a ganhar a Palma mais importante do mundo. Mas foi injustamente mal recebido (já tinha ganhado outra há não muito tempo, o mediano Ventos da Liberdade, 06, e ele já fez outro trabalho desta vez um documentário In Conversation with Jeremy Corbyn).
Ken que é assumidamente um homem da esquerda à moda antiga fez tantos filmes (51) que fica difícil escolher os melhores, entre eles Kes (que foi o que revelou no Brasil, por Cakoff em 69) e um favorito meu que acho o melhor drama já feito sobre a guerra civil Espanhola (Terra e Liberdade). Mas poucos cineastas ainda vivos tem esse toque genial dele, que é trabalhar com amadores (aqui apenas dois centrais são atores profissionais) e sua habilidade em contar histórias sobre gente comum, em geral da classe operária, os pobres que lutam para sobreviver contra todo o sistema que lhes é negativo.
Este novo filme é dos menos calorosos, menos envolventes, porque não se da ao luxo de ter alívios românticos ou momentos divertidos. É a vida como ela é, não como deveria ser. O anti-herói se chama Blake e trabalha com madeira, agora aos 59 anos. Mas esta tentando se recuperar de um enfarte e fica amigo de uma mãe solteira que tem um casal de filhos (a menina é uma linda mulata). Quando procura as organizações sociais é sempre maltratado, rejeitado, passado para trás, uma vez passa quase 50 minutos esperando uma ligação telefônica no ar (infelizmente se feito no Brasil seria tudo ainda pior e mais trágico). O filme acaba novamente sem concessões. De certa maneira até frio, mas eu fiquei comovido e sensibilizado, assistindo a vida como ela é e não como nos mostra o cinema americano de rotina.
É um trabalho muito especial com os toques do diretor, que, por exemplo, não deixou a atriz Hayley ler o roteiro até o fim, antes da hora, e curiosamente o décimo terceiro filme dele que apresentou concorrente em Cannes. Uma pena que não tenha ainda encontrado o público que merece!
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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