Godard Não Envelheceu

Jean-Luc Godard tem a plena consciência de seu lugar no mundo do cinema. Nunca foi um neófito, nem em seus primeiros filmes

21/07/2016 23:16 Por Eron Duarte Fagundes
Godard Não Envelheceu

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Jean-Luc Godard tem a plena consciência de seu lugar no mundo do cinema. Nunca foi um neófito, nem em seus primeiros filmes. Seus filmes-ensaio têm uma precisão que seus inimigos estéticos nunca conseguiram entender bem. Sua linguagem permanece ainda jovem porque, se dizendo adeus, se renova mantendo uma coerência estrutural espantosa: o diferente no mesmo exercício de sempre. Adeus à linguagem (Adieu au langage; 2014) é um hino de Godard à sua própria inteligência de filmar. E ele, mais do que ninguém, sabe disto: não pode admirar ao espectador que ele vomite escárnio para certos lados do cinema. Não me parece esnobismo: é uma posição de seu pensamento cinematográfico. Quando seu Adeus à linguagem dividiu o Prêmio Especial do Júri em Cannes o ano passado, Godard, entrevistado pelo jornal francês Le Monde no apartamento de seu assistente de direção em Paris, saiu-se assim: “Olhem este prêmio dado em Cannes a mim e a Xavier Dolan, que não conheço. Eles reuniram um velho realizador que faz um jovem filme com um jovem realizador que faz um filme arcaico. Ele toma mesmo o formato dos filmes arcaicos.” (“Regardez ce prix donné à Cannes, à moi et à Xavier Dolan, que je ne connais pas. Ils ont réuni un vieux metteur en scène qui fait un jeune filme avec un jeune metteur en scène qui fait un film ancien. Il a même pris le format des films  anciens.”).

Nada mais certo do que esta realidade diante de Adeus à linguagem: o frescor intelectual e formal de Godard insere suas discussões filosóficas e artísticas dentro duma montagem caleidoscópica que se vale da projeção em 3D para criar deformações experimentais da imagem avançadíssimas e a que somente um gênio da estatura de Godard poderia chegar com tanta explosão de alegria estética. Dir-se-ia: uma alma esteticamente jovem fez Adeus à linguagem.

Em seu twiter Godard exibiu o resumo de seu filme: “A proposta é simples. Uma mulher casada e um homem livre se encontram. Eles se amam, discutem, os golpes chovem. Um cão erra entre a  cidade e o campo. As estações passam. O homem e a mulher se reencontram. O cão está entre eles. O outro dentro do um. O um está dentro do outro. E estas são as três pessoas. O antigo marido faz que tudo exploda. Um segundo filme começa. O mesmo que o primeiro. E no entanto não. Da espécie humana se passa à metáfora. Isto acabará por latidos. E gritos de bebê.” (“Le propos est simple. Une femme mariée et un homme libre se rencontrent. Ils s’aiment, se disputent, les coups pleuvent. Un chien erre entre ville et campagne. Les saisons passent. L’homme et la femme se retrouvent. Le chien se trouve entre eux. L’autre est dans l’un. L’un est dans l’autre. Et ce sont les trois personnes. Un deuxième film commence. Le même que le premier. Et pourtant pas. De l’espèce humaine on passe à la métaphore. Ça finira par des aboiements. Et des cris de bébé.”)

Godard divaga em suas frases como em seus filmes, que são feitos de imagens (cenários, gestos, luzes) e palavras (ditas pelas personagens ou pelo narrador-over). Aqui e ali se tem a impressão de alguma imprecisão ou falta de sentido. É ilusão: há um profundo sentido estrutural em tudo o que Godard filma ou escreva ou fala que acabamos por render-nos. Espantados com esta conquista que ele impõe ao espectador. “Todos aqueles a quem falta imaginação se refugiam na realidade. Resta saber se o não-pensamento contamina o pensamento.” (“Tous ceux qui manquent d’imagination se réfugient dans la réalité. Reste à savoir si la non-pensée contamine la pensée.”). Este dizer entreverado no interior de Adeus à linguagem é uma suma dos propósitos da narrativa, algo como um ente de pensar que denuncia a contaminação pelo pensar-não.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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