RESENHA CRÍTICA: Boi Neon
Um filme bonito, humano, muito autoral
Boi Neon
Brasil, 16. 101 min. Direção e roteiro de Gabriel Mascaro . Com Juliano Cazarré, Josiano Alves, Maeve Jinkins, Vinicius de Oliveira, Abigail Pereira.
Nunca tive a chance de ver o trabalho do diretor pernambucano Mascaro, que tem tido sucesso principalmente no exterior. Dentre vários documentários e curtas, ele fez antes Ventos de Agosto e agora este bonito e interessante trabalho. Começando alias pelo feliz e poético titulo. De qualquer forma é também um consagrado artista plástico, que faz instalações e este seu domínio da imagem fica claro aqui com imagens e momentos muito poderosos.
Dois atores são conhecidos, Vinicius (o menino de Central do Brasil que cresceu e faz vaqueiro de cabelo comprido) e o ator da novela da Globo, Juliano Cazarré que trata com notável simplicidade o personagem de vaqueiro que sonha em ser costureiro (nada de gay nisso) e maior naturalidade ainda em se expor com nudez (o filme conclui com uma ao mesmo tempo bastante explícita mas delicada cena de sexo entre ele e uma vendedora de perfumes que está em adiantada gravidez).
Embora lento como insistente em ser o cinema brasileiro não comercial, é um filme bonito, humano, muito autoral.
Cazarré é Iremar, que trabalha numa "Vaquejada", uma espécie de modesto rodeio do Nordeste (ele prepara o animal e seu rabo para ser um usado na arena, onde o puxam e tentam derrubar). Vive com outros empregados numa espécie de caminhão que parece pertencer a uma jovem mulher de cabelos aloirados que tem uma filha pequena e malcriada (reclama do pai ausente). É curioso o que o filme praticamente não tem enredo ou história, os conflitos são pequenos e passageiros, os romances ainda mais. Enquanto Iremar sonha em uma dia realizar seu sonho…
O Boi ganhou Festivais de Adelaide, Hamburgo, Nantes, menção em Toronto, prêmio especial do Júri na paralela Horizons em Veneza, e no Rio foi votado como melhor filme, roteiro, atriz (Alyne Santana), e fotografia (Diego Garcia). Merece ser descoberto e apreciado.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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