RESENHA CRÍTICA: Anomalisa (Idem)
A animação, o uso de luzes e reflexos parece ser extremamente novo e diverso de tudo que você já viu
Anomalisa (Idem)
EUA, 15. Direção de Charlie Kaufman e Duke Johnson. Roteiro de Charlie Kaufman baseado em peça de sua autoria. 90 min Animação. Vozes originais de Jennifer Jason Leigh (que faz Lisa), David Thewlis (Stone) e Tom Noonan (que dubla todos os outros personagens).
Está lista dos finalistas para o Oscar de melhor animação este filme inteiramente original e ousado, outro trabalho fora do comum e exponencial de um dos escritores mais admirados do cinema norte-americano atual. Charlie Kaufman se perdeu um pouco na sua estreia como diretor quando fez o estranho e fracassado Sinédoque, Nova York (2008) e por isso mesmo não fez nada mais até esta sua experiência com animação com Bonecos (Puppets) e por causa disso ele teve que contar com a parceria de Duke Johnson, jovem (nascido em 79, fez curtas e séries para a TV como Mary Shelley Frankenhole).
Charlie ganhou um Oscar pelo super Cult até hoje O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (04) e foi indicado também por Adaptação (02) e Quero ser John Malkovich (99). Escreveu ainda Confissões de uma Mente Perigosa, dirigida por George Clooney, Natureza Quase Humana, para Michel Gondry (o único deles que deixa a desejar). Ainda assim acho que nada prepara o espectador para este filme inquietante e existencial sobre um homem de meia idade, Charles Stone, que chega a Cincinatti para fazer uma palestra já que é famoso por livros de auto ajuda que escreveu (na verdade, ele trabalha com teorias de como servir os seus clientes!). O filme começa com uma bela imagem de um avião passando por nuvens claras que depois será revelado é o ponto de vista do herói (um detalhe estranho é que todos os personagens fora os 2 protagonistas são dublados por uma voz masculina, o que nos deixa a principio bem confusos. Mas a pista gay que é lançada não é para ser levada adiante, nem mesmo com o colega de cadeira que segura sua mão!).
O filme é mais sobre a angústia de viver, de procurar algo mais substancial quando já se passou na meia idade. Assim, na cidade que visita ele vai comprar brinquedo para o filho mais novo numa Toy Store (loja de brinquedos que na verdade é de objetos de sexo!). E procura reencontrar uma mulher que há muitos anos amou e perdeu (o reencontro é amargo e constrangedor). Ainda assim, numa crise, bate nas portas do corredor do hotel e por acaso encontra duas admiradores e uma delas, Lisa (Jennifer Jason Leigh, a mesma de Oito Odiados) insegura e não muito atraente aceita passar a noite com ele. Sim, se não perceberam até agora, não é filme para crianças, até porque há nudez frontal do herói, no banheiro e depois numa cena de amor. Mais bizarro ainda é que todas as pessoas tem no seu rosto colado uma máscara quase teatral, que usaria justamente um boneco para falar. A do herói descola e cai, deixando-o ainda mais desesperado.
Por outro lado também a animação, o uso de luzes e reflexos parece ser extremamente novo e diverso de tudo que você já viu. E não se surpreenda se tiver que assistir o filme de novo para desvendar certos detalhes. O que não será um castigo, mas um exercício desafiante para apreciar este projeto, diferente de tudo e com jeito de clássico instantâneo.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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