RESENHA CRÍTICA: A Marcha (La Marche)
Apesar de chegar com certo atraso, este drama belga não poderia estar em momento mais apropriado
A Marcha (La Marche)
Bélgica, 13. 123 min. Direção de Nabil Ben Yadir. Com Olivier Gourmet, Luna Abzabal, Tewfik Jallab, Vincent Rottiers, Charlotte Le Bon, Jamel Debouze, M´Barek Belkouk, Nader Boussandel, Hafsia Herzi, Rufus.
Apesar de chegar com certo atraso, este drama belga não poderia estar em momento mais apropriado. É um filme basicamente belga (o país de onde saíram a maioria dos terroristas que atacaram Paris e onde não foram presos porque há uma lei que proíbe perseguições ou prisões durante o período da noite!) que conta com a presença de alguns nomes famosos (o mais conhecido é o humorista Jamel, que tem um braço paralisado, que esteve em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Asterix nos Jogos Olímpicos, Dias de Glória) e que serve como alivio cômico porque uma das qualidades do filme é justamente o senso de humor, é quase uma comédia. Também são conhecidas as garotas Charlotte Le Bon (Yves Saint Laurent, o americano A Travessia, A 100 Passos de um Sonho) e Lubna (Incêndios). O diretor Nabil faz seu segundo filme e também é ator e ainda não conseguiu realizar outro trabalho. O protagonista que faz Mohamed Tewfik só agora conseguiu outro filme (Le Convoi). No elenco também em papel importante está o hoje mais famoso ator belga que é Olivier Gourmet, revelado nos filmes dos irmãos Dardenne. O filme foi Indicado ao premio Lumière na França de roteiro e ator revelação Tewfik Jallab. Na sua Bélgica natal, no prêmio Magritte ganhou os de montagem e atriz coadjuvante (Luna Abzabal) e foi indicado para filme, diretor, roteiro, coadjuvante (Olivier Gourmet).
Inspirado em fato real, ocorrido em 1983, sem querer mas querendo denuncia um fator que certamente foi fundamental no ataque terrorista, o fato de que a França tem problemas com os emigrantes árabes que são tratados como indesejáveis, deixando claro que o povo francês infelizmente tem uma forte tendência racista de Direita. A história que se conta (eles dizem ser inspirado para evitar problemas) é sobre um pequeno grupo de amigos marginalizados que se unem quando um deles é atacado por um cachorro, fica ferido (leva um tiro) e é tratado como marginal. Embora morassem num bairro popular, eles tentam realizar uma passeata de Marselha até Paris chegando a serem recebidos pelo presidente Mitterrand. Curiosamente o filme quando estreou tentou comemorar os 30 anos do fato e foi um enorme fracasso de bilheteria (o que só confirma que o racismo e o preconceito da própria imprensa local, que foi extremamente dura com o filme).
Na verdade, os autores simplesmente dramatizaram as situações de forma que a violência e as injustiças, ou seja, o próprio racismo, pudessem ser digeridos com mais facilidade. Não é uma surpresa ver que os espectadores não quiseram ouvir a lição de moral. Talvez aqui mais distanciados, mas também vitimas de ataques racistas, o filme possa ser melhor entendido e absorvido.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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