O Voo dos Versos
Natural de Porto Velho, Rondonia, Cristina Paragassu vive no Rio ha decadas
Imagens: Internet
Natural de Porto Velho, Rondônia, Cristina Paragassu vive no Rio há décadas. Cinéfila das mais aparelhadas, é artista plástica engenhosa na fusão de cores e linhas para materializar figuras que saem de sua mente para as mãos e as tintas; uma de suas séries pictóricas chama-se “tempestade de cores”, um pouco de surrealismo, um pouco do impressionismo, algo à sombra do cubismo (mesmo sem os cubos). Cristina faz também poesia das mais belas em sua fusão do rigor formal (o apuro da linguagem, que nasce de seu elaborado aparelhamento cultural) com o pensamento que voa direto ao coração das coisas. Silêncio inaudito (2003), um opúsculo independente, às expensas da própria autora, traz sua natureza de poeta que se afigura um pós-modernismo brasileiro de dizer as coisas mais de cem anos depois de Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
“Quisera o tempo me ensinar
Como perder o medo
Para escrever
E vendo a letra se desenhar
Saber o quanto sei
Mas não queria ser”
A visão poética de Cristina traz surpresas que são tanto formais quanto temáticas. O ritmo submete ao mesmo tempo em que se submete à ideia.
“Poesias são
como lágrimas de sangue”
E a imagem complexa, ensaio em poucos versos, que voam:
“Poesias são palavras mortas
encontradas nos ferros velhos
lidas em lápides de cemitérios
mas ditas
criam vida”
Num tempo aparentemente não-poético, como este em que vivemos, onde a poesia parece ter morrido, Cristina a ressuscita. “Quero fazer versos como quem respira”. O francês Arthur Rimbaud tinha algo disto: a respiração poética, ou mais precisamente a respiração da poesia. Poesia, mesmo escrita, vista/lida na frieza e indiferença da página, pode trazer um som no imaginário leitor:
“ turvos olhos
de maresia onírica
voa
velejando
vistoria espólios
ossos
secos
em portos
desertificando-os”
A disposição gráfica parece ter uma plástica que acompanha a parte sonora do texto. O reino verbal é um pouco o do simbolismo. Aliterações. Reiterações de fonemas. Como em Cruz e Sousa: só que menos estridente ou barroco. Em Cristina a utilização dos recursos evoca sua capacidade (como poeta) de se valer dos signos de que a língua portuguesa dispõe. Sua poesia em Silêncio inaudito (a palavra lida em silêncio, talvez) vai novamente aduzir aos escaninhos linguísticos, nas tensões entre escrita, sons e significados.
“Ah!
ou Há
de haver”
Antes, lá atrás, “sons sonolentos ninam os pensamentos”. Silêncio inaudito é como se fosse escrito ao entardecer para se ler numa rede na casa de praia esperando os sons que vem dos sonhos, “turvos” e “velejando”.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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