Fazer Cinema Para o Cerebro

Paixao e Sombras foi o pico dos fracassos financeiros de Walter Hugo Khouri

17/03/2026 03:29 Por Eron Duarte Fagundes
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Filmes que tratam do fazer cinematográfico são muitos e variados. Paixão e sombras (1977), rodado pelo brasileiro Walter Hugo Khouri nos escombros dos estúdios da falida Vera Cruz, poderia ser mais um destes tantos filmes. Mas não o é: trata-se dum particular inventário íntimo do próprio espírito de realizador de Khouri ao estar num set de filmagem, com os aparelhos de cinema e a equipe (de pessoas, naturalmente) para chegar a um filme. Fala do fazer cinematográfico, mas do fazer cinematográfico segundo Khouri, o que é uma coisa à parte. Paixão e sombras é um dos mais obscuros da filmografia de Khouri, por, talvez, ser o mais hermético e fechado em seus significados. Nunca rendeu ao cineasta o prestígio de Noite vazia 91964) e em seu tempo pouca gente (críticos e público) se atreveu a encará-lo; no entanto, quem o viu na década de 70 e o revê tantas décadas depois, descobre neste sinuoso e perplexo autorretrato de Khouri um mergulho cheio de paixão (ainda que filmado com rigor e cerebralismo) no universo do cineasta.

Paixão e sombras foi o pico dos fracassos financeiros de Khouri. Pouco depois, na época da distensão da censura, o público descobria o cinema de Khouri atentando mais para as acrobacias sexuais em O prisioneiro do sexo (1979). Paixão e sombras é o filme mais pessoal de Khouri ao mesmo tempo em que é aquela narrativa em que o sexo, habitual personagem do diretor, se ausenta inteiramente, dando lugar exclusivo à parte intelectual de seu cinema, com reflexões de ordem estética e filosófica e refinadas referências cinematográficas e literárias.

Para expor em imagens a questão cinematográfica, Khouri põe em cena a criatura de um diretor de cinema, intelectualizado, circunspecto, com falas e diálogos que dão em cena as próprias orientações do cinema que Khouri fez antes e depois de Paixão e sombras. Este diretor, como tantos outros do mundo do realizador, se chama Marcelo, mas sua rigidez e ascetismo cênicos difere bastante dos outros Marcelos, ainda que divida com eles a afeição por livros e meditações de toda ordem.  Fernando Amaral, com extremo controle da direção de Khouri, compõe este diretor de cinema em cena, um outro Khouri, um Khouri diante das câmaras. Marcelo está tentando fazer um filme num cenário de ruínas dum estúdio que será transformado em supermercado; ele conta com uma dedicada assistente, Ana (na pele travessa de Monique Lafond), o tempo todo acompanhando-o e protegendo-o e meio secretamente amando, mas ele espera pela atriz/musa de seu filme, Lena (Lilian Lemmertz, uma interpretação vaga e misteriosa), esta atriz parece nunca chegar, o filme sem ela tende a ser abortado. Há também um irônico, enviesado e simulado diálogo do cinema de Khouri com uma personagem do povo: esta personagem, Buda, é o faz-tudo da equipe, tentou ver os filmes de seu patrão mas não os entende, “parados demais”, mas gosta de fazer cinema, estar na equipe de Marcelo.

Certas sequências dão pistas da natureza do cinema de Khouri. Por que alguém como Marcelo faz cinema e não se dedica a escrever livros? O fascínio de certas buscas de imagens parece explicar tudo. Marcelo diz à sua assistente que o que ele quer duma atriz é um momento de ascese ou êxtase, como se estivesse subindo aos céus; para instruir sua atriz, num dos momentos em que ela reaparece, ante os travellings e panorâmicas interiores que pontuam a ação plástica da narrativa, Marcelo mostra a ela um quadro religioso com a expressão duma santa ou de um anjo. As relações de Marcelo com Lena (pudicas e platônicas e estéticas) podem ser as mesmas de Khouri com Lilian: uma ascese.

Intensamente intelectual e certamente literário, Paixão e sombras, dentro do universo de filmes, mesmo os de Khouri, permanecerá para sempre como uma peça para poucos.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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