Paixao e Morte no Universo de Oshima
Como em O Imperio dos sentidos, a historia de O Imperio da Paixao tem tanto duma cronica que o espectador experimenta epidermicamente quando duma especie de lenda niponica longinqua
As personagens do japonês Nagisa Oshima costumam debater-se entre paixão e morte: é sua essência. O império da paixão (Ai no borei; L’empire de la passion; 1978), cujo roteiro se baseia num romance de Itoko Nakamura, trata destas ligações vitais: a paixão que busca a morte, a morte que contempla a paixão. Em seu filme interior, O império dos sentidos (1976), com o qual O império da paixão forma um díptico entre Eros e Tanatos, a paixão já levava irresistivelmente à morte. O uso ostensivo de relações sexuais que eram ao mesmo tempo encenadas e verdadeiras (havia o sexo oral não simulado, a penetração visível para a câmara, mas a conduta erótica dos atores era muito determinada pela presença da câmara) em O império dos sentidos,se torna mais rarefeito em O império da paixão, embora o uso do mesmo ator, Tatsuya Fuji, com a mesma soltura carnal, nos dois filmes. Com a escassez de sexo às ganhas, em O império da paixão o observador vai concentrar-se em seu rigor formal plástico e ritualístico que leva antes de tudo a uma meditação nipônica em torno das relações entre o homem e a mulher.
A história de um adultério trágico em que o casal de amantes programa o assassinado do marido dela não é nova no cinema. Mas Oshima conduz um olhar diferente e muito oriental para esta trama que o espectador ocidental pensa já conhecer. No interior da cena, as personagens são exaltadas, amiúde estão desesperadas, aqui e ali gritam, tudo no figurino de uma história desesperada de sexo e adultério; mas o estilo de filmar de Oshima —frio, cerebral, distanciado— não permite que estas veias transbordantes da história (o amor em desespero, o sexo em desespero, a morte em desespero) contaminem a forma transparente do cinema de Oshima, experimental, documental, pictórico. As criaturas adúlteras e assassinas (o amante, bastante mais jovem que a mulher, estimula sua amante a ajudá-lo a enforcar o marido após o embebedarem), especialmente a esposa que trai o compenetrado vendedor de riquixá que todos os dias saía com sua carrocinha para ganhar a vida no Japão rural antigo, se debatem na culpa, e o fantasma do marido traído e morto pelos amantes que surge na trama é a materialização desta culpa, encaixando-se no realismo psíquico de Oshima. O cineasta observa esta culpa sem misturar sua visão com esta culpa: filma com a objetividade de um cientista, ainda que não abique do lado lírico do cinema.
Há uma narradora, over, que aparece somente duas vezes ao longo do filme; primeiro, logo após o crime, quando o amante passa a jogar folhas secas caídas da estação no poço onde jogaram o corpo do marido assassinado e é surpreendido num destes atos por um aldeão; a voz narradora da mulher para ali, no encontro com esta testemunha indesejada; depois a narradora só reaparece no fim, quando os amantes são presos, pendurados em árvores e torturados até confessarem o crime para os policiais, e então o processo se findará com o anúncio da narradora de que serão enforcados. Como em O império dos sentidos, a história de O império da paixão tem tanto duma crônica que o espectador experimenta epidermicamente quando duma espécie de lenda nipônica longínqua. Oshima faz mesmo um império do cinema.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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