Conta Comigo: Rito de Passagem

Conta Comigo é um filme memorialista que cultua a nostalgia. A percepção de um tempo passado é permanente no desenrolar da história

15/05/2017 15:05 Por Jorge Ghiorzi
Conta Comigo: Rito de Passagem

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A passagem da infância para a vida adulta é matéria prima recorrente para livros e filmes. Embora a imensa maioria das vezes o tratamento do tema seja ficcional, é verdade também que é quase inevitável a inserção de elementos biográficos pontuais do autor. O escritor Stephen King, reconhecido mundialmente por suas histórias que exploram o fantástico e o terror sob muitas formas, não resistiu aos apelos da memória e também produziu textos com este olhar afetivo para o passado. Um destes trabalhos foi o conto “O Outono da Inocência – O Corpo”, incluído no livro “As Quatro Estações”.

Fugindo a todas as expectativas, dado o perfil do autor, este pequeno conto que evoca um tempo de nostalgia e inocência foi fonte de inspiração para uma adaptação cinematográfica. Aliás, deste mesmo livro também saiu outro conto que foi parar no cinema, Um Sonho de Liberdade. O resultado foi o filme Conta Comigo (Stand by me, 1986) dirigido por Rob Reiner. Mais identificado com as comédias, como o falso-documentário Isto é Spinal Tap, e mais Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro e Sintonia de Amor, Reiner ainda realizaria, quatro anos depois, outro longa baseado em Stephen King, desta vez no gênero terror: Louca Obsessão.

A ação de Conta Comigo inicia no tempo presente, quando o escritor Gordie Lachance (Richard Dreyfuss) lê no jornal a notícia da morte de um homem chamado Chris Chambers. Este fato deflagra nele a recordação de um acontecimento marcante ocorrido quando ele tinha cerca de 12 anos de idade. Viajamos com as memórias do protagonista e vamos parar no ano de 1959, na pequena localidade de Castle Rock, no Oregon (EUA). Naquele tempo e espaço conhecemos seus três melhores amigos: o próprio Chris Chambers (River Phoenix), Teddy Duchamp (Corey Feldman) e Vern Tessio (Jerry O’Connell).

Jovens, sonhadores e inocentes, eles enfrentam conflitos familiares e a opressão física e psicológica dos meninos mais velhos, o famoso “bullying”. Todos, a sua maneira, carregam traumas e dramas pessoais. Um é acusado de roubo (Chris), outro é vítima de violência dos pais (Teddy), outro se sente rejeitado por ser gordo (Vern) e outro vive a depressão pelo irmão morto (Gordie). Deslocados num mundo adulto, os quatro amigos procuram saídas para superar seus fantasmas. A oportunidade surge quando eles ficam sabendo que o corpo de um garoto desaparecido foi encontrado (mas ainda não revelado para as autoridades). Como forma de demonstrar coragem e fortalecer a autoafirmação, eles decidem se aventurar numa expedição para encontrar o corpo.

Por tratar-se de um original de Stephen King, sabemos de antemão que de alguma forma o terror nos espreita. Sim, ele está lá. Mas apresenta-se de forma mais simbólica do que usualmente conhecemos na sua obra. Um corpo desaparecido é por si só uma imagem que provoca graus diversos de terror. Quem matou? O trem atropelou? Foi crime ou acidente? Como está o corpo? Mas o caminho oferecido é outro. O cadáver, tão obsessivamente procurado, é apenas um pretexto. Um gatilho que detona uma revelação que se dá no nível psicológico dos quatro amigos. Ao se imporem a missão de resgatar um defunto que paira como alma penada sobre uma pequena comunidade, os garotos fortalecem suas fraquezas e mostram seu valor como figuras sociais. A ideia era sair das sombras do mundo adulto, deixar de ser invisível e reivindicar seu lugar ao sol.

Conta Comigo é um filme memorialista que cultua a nostalgia. A percepção de um tempo passado é permanente no desenrolar da história, o que nos leva a crer estarmos diante de uma proposta de revisão do passado para explicar a realidade do presente. Uma busca das origens do que somos, do que nos tornamos, que mundo criamos e as consequências advindas de uma existência pregressa. Testemunhamos um rito de passagem, uma experiência transformadora, formadora do caráter e virtudes que carregamos, com direito a risos, dor e lágrimas. Reveladora é a reflexão de Gordie ao retornar da expedição: “Estivemos fora apenas dois dias, mas a cidade parece diferente, menor”.

Garotos de origens sociais diversas, mas igualmente problemáticos em suas relações familiares, foram também protagonistas de outro pequeno clássico (assim como Conta Comigo também se classifica), realizado por Stanley Kramer em 1971, chamado Abençoai as Feras e as Crianças, que em sua época ficou muito conhecido por uma bela canção do grupo “The Carpenters”.

 

Assista o trailer: Conta Comigo

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Sobre o Colunista:

Jorge Ghiorzi

Jorge Ghiorzi

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Marketing. Redator, roteirista e produtor de eventos culturais. Editor da publicação “Cine Guia Preview” (1995 – 2000) e do newsletter “Cine Guia Preview” (2009 – 2011). Produtor do Festival de Cinema de Gramado por 17 anos. Colaborou com críticas de cinema para jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já publicou textos de cinema em diversos blogs e sites, como “Papo de Cinema”, “Facool” e “Movi+”, e também para a revista “Voto”. Criou a produtora cultural “Cine UM”, em 2009, que desenvolve uma programação de cursos livres de cinema em Porto Alegre e no interior do estado. Contato: jghiorzi@gmail.com

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